Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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CHIADO

Ainda bem que os portugueses já não leem.

Foram à Índia, jogam futebol, tratam do PIB – desenrascam-se.

Dizia-se que a poesia eleva: tudo o que um português precisa é de ter os pés bem assentes na terra, que é dura e pedregosa. Um livro são ideias que já foram pensadas – melhores ou piores, ideias em segunda mão. Um português constrói o seu próprio livro. Escreve-o ou desenrasca-o – ou passa bem sem ele e diz «Que se lixe».

É diferente de um inglês que lê Shakespeare sem dividir as orações nem estudar sintaxe ou de um espanhol com o seu Cervantes. Um português não é um idealista como o Quixote nem realista como o do burro; está nas coisas como Camões que era um aventureiro pragmático o que, em português, significa idealista e realista consoante as conveniências.

Os portugueses gostam dos seus escritores e não os leem para que eles publiquem livros cada vez melhores, para que não se limitem, como Pessoa, a publicar uma única Mensagem.

Os escritores portugueses devem escrever pensando que toda a sua obra será póstuma e que terão uma estátua no Chiado como o poeta Chiado que poucos portugueses sabem quem foi.

 

 

COMO DESCARREGAR AS NOSSAS ENERGIAS NEGATIVAS

Muitas pessoas beneficiariam em ser externalizantes, em se deixar levar pelos seus impulsos sem temer as consequências, roubar um lápis ou uma cereja ou ser desagradável com um fiscal das finanças; ou em dar menos atenção a tantas tarefas em que nos envolvemos com grandes razões, entretanto esquecidas; ou, até, responder com um encontrão ou um insulto a alguém que nos maltrata na rua ou a um bêbedo que nos acorda de madrugada.

Ser externalizador é colocar a energia negra que nos alfineta o cérebro em objetos exteriores sem selecionar criteriosamente os que carecem de correção, ser levado como as ondas rebentam pela energia do vento.

Se o mar interiorizasse essa energia as vagas rodopiariam pelos abismos abaixo arrastando tubarões, trilobites, caranguejos, surfistas e outros artefactos que se interpusessem, talvez um submarino nuclear.

Quanto a estes é bom que não sejam externalizadores, que as suas frustrações rumorejem, torturantes, no seu bojo inconsciente e que por lá circulem numa guerra fria interminável.

É a tranquilidade que desejamos para o mundo.

Não lhe chamamos paz, não queremos paz, tememos a paz que submete os externalizadores e deixa os internalizadores à mercê das injustiças que a paz corrige lentamente.

A paz é distraída e egoísta; mascara-se de paraíso e cava assimetrias, confunde justiça e benevolência.

Se mais pessoas roubassem lápis ou cerejas ou fossem antipáticas e mais desresponsabilizadas dos seus deveres, poderiam contar com uma espécie de brandura da justiça que não é benevolência, mas impotência.

 

 

POR VEZES É PRECISO RECORRER A EXPLICAÇÕES DE VÁRIOS NÍVEIS

  

Um filho pode abandonar-nos.

Diversas configurações de mitos exemplificam como as leis do universo se tornam simples e capazes de afundar uma esquadra de porta-aviões ou arrasar uma cidade igualmente invulnerável.

A pergunta inútil é «porquê?».

Esbarramos sempre numa causa final que contém o princípio da vida e esse momento remete para milhões de anos atrás quando os estratagemas se delineavam.

Antes, eram rochas, a euforia do embelezamento das metamórficas, as magmáticas mal recompostas da ação inesquecível do fogo, as sedimentares que louvavam o tempo como testemunhas de uma fé falsa.

Não sabemos como a ordem inverteu o efeito da complexidade, mas é porque um filho nos abandona:

o crescimento fez com que poucas espécies escapassem da violência e do assassinato.

Por isso devemos aceitar a monstruosidade que é os pais não se aniquilarem, não se pulverizarem no estrume volátil dos roseirais.

Os filhos nascem como um planeta rebenta e julga criar as próprias leis, julga-se percorrer um caminho que cria maior complexidade e que esta é uma razão para exterminar o que fica para trás.

Porque um filho atinge, necessariamente, um nível de perfeição que antes não existia e, se nos chama monstro é porque ele atingiu uma beleza e uma bondade que já não nos consegue tolerar, e se parte e se esconde é porque dentro dele há uma nova monstruosidade que se quer fundir, talvez com uma montanha, com uma vaga, com uma locomotiva fantasma ou com uma nuvem sem forma nem outro destino que afastar-se de uma origem demasiado obscura, de um tempo demasiado espinhoso, de um lugar desabrigado onde uma riqueza atabafada confluiu e esta definição de perfeição centrada em si justifica destruir o que abandona.

A CIÊNCIA ACADÉMICA  

Muitos dos artigos científicos mais chatos ou dos ensaios sobre coisa nenhuma que valha a pena ser escrita começam por: 1) mergulhar no étimo de uma palavra-chave qualquer, desmembrá-la do seu uso como se houvesse algo de ilegítimo na significação corrente que se estabeleceu, algo de inautêntico que atinge o pecaminoso de ter violado uma pureza primordial e que deve ser denunciado; 2) mais ainda, acreditar que esse significado perdido encerra o entendimento do problema, uma espécie de ancestral sabedoria intuitiva   ou mágica, que, encriptada, se encerrou; 3) uma citação de Sócrates, Platão, Aristóteles ou alguém dessa linhagem e que seja difícil refutar; houve um tempo em que as citações eram religiosas e demasiado prescritivas como se usássemos um chapéu-de-chuva antinuclear para os triviais aguaceiros outonais; 4) outros iniciam-se por um episódio histórico ou uma prática de um certo período histórico como se essa facticidade evocada ancorasse o discurso na evidência quase incoercível da memória; 5) iniciar um texto por uma experiência pessoal só funciona se o leitor conceder ao texto um crédito apenas por o autor ter escrito o que escreveu e isso torná-lo emérito; 6) o autor também pode começar por pôr o problema com várias citações, mas o leitor já antecipou que ele pretende, depois, modificar os termos em que o formulou e passa à frente os capítulos iniciais. 7) Este texto começa por um meta-começo, ou seja, tendo começado ainda não começou, mas não é por isso menos aborrecido nem mais meritório (a exemplo das artes, muitas outras disciplinas mergulham – perdem-se – no seu próprio fazer-se). Como se procurasse levar o aborrecimento do leitor a um ponto que só lhe restasse o abandono, o protesto, a recusa irritada prometendo nunca mais retornar às fontes científicas originais, um caudal inabarcável, antes esperar que os assuntos reapareçam num artigo de divulgação num noticiário generalista, sonolentamente lido depois do jantar.

SOBRE OS CEMITÉRIOS  

Não podemos enterrar os nossos mortos como fizemos ao cão quotidiano que nos aturou tanto tempo. Aos nossos mortos não deixamos que se quedem num lugar com sentido. Dedicámo-nos às pessoas e dedicámo-nos ao cão. Acompanhou-nos doze anos como nenhum humano. Numa sombra do jardim lembrará um companheirismo que permite pensar a humanidade e a civilização. A humanidade é o outro: o cão é o lugar vazio do outro, logo é o outro. A civilização é o que nos impede de enterrar os pais no jardim. É um conjunto de argumentos, todos bem pensados, que nos impede de fazer uma coisa que teria todo o sentido. Raramente pensamos nas coisas que a civilização nos impede de fazer – é isso ser civilizado, uma sintaxe aplicada à vida e que se sobrepõe à vida tal como a linguagem se sobrepõe ao pensamento e não questionamos as suas apertadas regras. Temos simpatia pelo português como estimamos o nosso jardim onde gostávamos que estivessem os nossos pais. Gostaríamos de os acompanhar na espera pelo apocalipse, que confiamos seja demorada, mas enquanto o português é flexível quanto à deposição do sujeito na frase, as pessoas têm que ser enterradas onde a civilização prescreve como uma espécie de tributo devido à linguagem: utilizámo-la, agora cumprimos a lei sem argumentar se essa higiene se justifica, se esse controlo estatal sobre os cidadãos que já não usam a cidadania se justifica, se essa ritualização funerária com as respetivas catarses de perda têm vantagens sobre o choro solitário num jardim. É como pensamos nos momentos difíceis: questionamos a civilização e a humanidade que, genericamente, respeitamos, ocasiões em que libertamos algo de incivilizável que persiste em cada um.

FÁBULA  

Porque é que um sapo deitado de costas é mais repelente que o cadáver de uma rainha a boiar num charco? Como nos desafiam as coisas, nos roubam os olhos, nos apontam indícios macabros ou, apenas, irrelevantes enquanto outra cena é representada atrás da nossa imagem? A rainha ressuscita. Está agora agradecendo as coisas que tornámos indiscutíveis, tarântulas enormes que a teia já não suporta e mantêm as crianças no seu fosso. A quem mais explicar esta concepção das coisas? Ao padre, ao polícia, à meretriz que guardam o segredo dos lares? Ou deveria, do alto do púlpito, tentar uma grande reorganização da palavra, redistribuir os papéis, fazer dos cidadãos magos capazes de empenhamento na própria reinvenção? Capazes de afugentar as aves negras que lhes mordem as cabeças: a tradição é uma estética, uma forma de emoldurar a morte. O poema constrói-se do nada para que nos encantem os seus heróis, as lutas dos gladiadores e dos que não defendem nada senão uma vaidade limite temperada pelo perfume do aço, alimentada do aço que hoje manobramos como se rescrevêssemos a mitologia. Como se desejo e morte, numa mimese caricatural da palavra, sorteassem quem será salvo, mas não há aquém nem além da palavra – a musa é o próprio espelho e se o quebrarem não saberemos como dizer as coisas. Imaginamos um grande cataclismo transformar o arcaboiço do mundo em teia de aranha que os heróis percorrem velozmente, as palavras perderem o género, totalmente devotadas à significação, mas haveria, ainda, lugar para um beijo na cópula da harmonia? A estrela confirma o horóscopo final. Quando os cidadãos perceberem que as coisas mudaram, recomeçará o carnaval nas ruas em redor do sapo que amou a rainha morta – glória ao poeta e ao técnico de efeitos especiais que ressuscitou a rainha. Este texto prova que as pessoas se entretêm com qualquer coisa.

OS REIS MAGOS  

Este ano, não escrever cartas ao Menino Jesus, este ano, testar a autossuficiência dos meios de produção instalados para satisfazer a nossa avidez de crentes, este ano recusar qualquer forma de ingerência transcendente nos mecanismos de saciedade ao dispor dos cidadãos, este ano degustar o despojamento monástico na versão franciscana, praticar um materialismo dogmático numa versão «bom selvagem», não antropófago, mas pouco generoso. Este ano, ninguém a quem apresentar uma listagem de desejos, a ninguém reconhecer a sapiência de os satisfazer ou frustrar segundo critérios de oportunidade. Por exemplo, no Natal deixo de gostar de chocolate tal a abundância rompe o equilíbrio entre uma avidez contida e uma oferta satisfatória. A generosidade dos amigos e da família não descobre em mim outras fontes de prazer. Não arriscam literatura ou música, não ousam testar a minha reação à escatologia nem, da mesma forma, a uma teologia reformada. Chocolate enjoar-me rompe estes mecanismos de trocas, torna-se, portanto, uma catástrofe social. Por isso, apesar da minha intenção de não escrever cartas ao Menino Jesus, escreverei uma carta aberta ao Menino Jesus. Pedirei: 1) uma versão moderna do canivete suíço com o dispositivo para assaltar bancos suíços, 2) uma versão certificada da Bíblia, 3) um preservativo com seletor de genes incluído, além do on/off, 4) um falador automático adaptável quer às memórias passadas (regulável de modo a evitar as memórias traumáticas) quer ao presente: basta pensar e ele expressa-me em português corrente, 5) um estimulador gustativo universal, com opções de sabores de todas as culturas de todos os tempos, 6) uma nuvem revestidora com temperatura regulável de -50 a +50ºC e colorida segundo a conveniência da situação, no limite de uma situação erótica, capaz de progressiva e subtilmente se transparentar e até de se abrir a uma segunda pessoa sem discriminação de género (para ser politicamente correto). (Nota: em Espanha as crianças escrevem cartas aos Reis Magos e há um grande esforço mistificador para que acreditem nessa generosidade oriental).

O NADA DA PERGUNTA JÁ É ALGUMA COISA    

Nunca percebi como um poema começa. Temos de definir uma zona de improbabilidade onde o tempo flutue como uma musa no éter; «musa de éter» e «musa no éter» equivalem a esse nada – e onde apareço eu? As sílabas da pergunta descamam-se sem fim em destinos que não atingem o ponto onde estamos; assim, memória e sonho se abraçam num oceano de éter. Todas as descrições falham quando pretendemos a origem. Posseidon e a musa amam-se como o poema se expande – cósmico, mas é outro o infinito que a página parece limitar, e prorrogável noutra página onde também não estou, mas não indefinidamente.

O PAI NATAL COMO PARADIGMA METAFÍSICO  

O poeta fala de orquídeas e camélias desfolhadas com à vontade, mas com timidez fala das tarântulas sôfregas, de visões amorfas e do líquen num plexo de canais por onde micro-personagens circulam. Pouco sabemos do interior de um poema enquanto o interior de uma bomba prediz o massacre (por exemplo, a que rebentou na prisão). «Terrorismo para terroristas para que lembrem o Pai Natal», pensa o bombista: a natureza sincopada da vida, as orgânicas afinidades do belo e da morte. Aqui distingo «prever» e «conhecer». É difícil separar o poeta visionário de um louco já com número e tratamento instituído. Percebe-se o poeta descrever o seu sono, o seu desconhecimento quando as coordenadas amplificam várias irrealidades; em cada verso ele procura escapar, mas o mundo subsiste num ruído de fundo por vezes incomodativo. Exortam-no: «Prolonga o espanto sobre o tesouro vazio da escrita. Encontrarás alimento na espessura dos astros, ou, talvez, o adormecimento definitivo numa palavra que as aves nunca sobrevoaram. Descobrirás as questões onde os nervos ancoram. Lê o teu livro de sussurros, flores raras vezes nomeadas – inventaste-as?» Perante o silêncio do poeta, continuaram: «Atravessas a poesia por um caminho irreconciliável ou cujo final é instável. Nada te é garantido. Só as lágrimas, o riso, os passos para um lugar lá à frente onde chegarás só». Que pode ele responder? Não ter outra oportunidade senão, numa arqueologia da imaginação, jogar símbolos quesilentos sobre o grande desconhecimento. A ideia é colar-lhe uma história e continuar a rodopiar com uma maligna cortesia até uma versão da origem irradiar o ser e convencer. Contam-lhe: «Antes do princípio havia um gigantesco nada (senão o princípio não seria princípio). Esse nada inicial demorou a resolver-se, os elementos do pântano coalesceram num lar muito especializado». Um observador neutro diria o homem plantar uma sirene em cada coisa visível, mais tarde um salmo, depois uma teoria efervescente. Pouco se sabe do interior de um poeta, lêem-se-lhe os pensamentos por ordem de entrada, ele desfá-los num espelho imperfeito, imita-se na compulsão da escrita. Abomina-a, livra-se dela, cospe-a numa fotografia prestes a desaparecer e salva-se sem saber se quer triunfar ou continuar à mercê dos indultos de promotores de cosméticos e de deuses confinados numa humanidade semelhante à sua para a qual não tem antídoto. Dizem-lhe: «Deves falar de ti, provocar admiração ou uma elevada piedade pelo teu rebuscado sofrimento. Sabes o leitor ter o tempo limitado, ir do ciclismo à musculação reforçar os abdominais. Deves ser feminista como uma forma radical de dizer coisas insolúveis». A bomba na prisão tem um propósito indefinido, o mundo começou numa explosão, as festas da aldeia, com um simples foguete e mesmo se a reconstituição não faz sentido, surgiram elementos novos vindos ignora-se donde. As muralhas da prisão racham. Não se sabe o que o poeta transporta na sua pesada biblioteca, se a carroça do lixo ou uma hermenêutica do lixo. Por isso, o Pai Natal existe com as suas volteaduras para as pretensiosas certezas parecerem durar.

UMA VOZ NA MONTANHA À BEIRA DE UM LAGO PENUMBROSO

«Tranquilo é o fundo do mar que trago em mim; quem adivinharia que oculta monstros divertidos?» Assim dizia Zaratustra na voz de Frederico Nietzsche. E continuava: «É humano fecundar o mundo. Cada pessoa sonha com um método próprio e o mecanismo da vida corrobora-a. É um quebra-cabeças. Aceitamos as leis da lua e do seu negativo, o esperma, como o sopro que anima os jardins submersos da mente». Obceca-nos a vertigem do sub-humano (definimo-lo apenas ad hoc). Depois, irrompe na família a ordem artificial dos aquários, assim, escapamos de uma reprodução caótica. Como a vegetação das falésias cresce na adversidade dos ventos, praticamos o rigor metafísico da parcimónia sem escaparmos dos seus dilemas tabus. Porque a família é um organismo, a cidade é um organismo, o mundo é um organismo; nem a linguagem interseta o que da família ao mundo é irracional, mas é com ela que atravessamos a ponte dos horrores. Alguns de nós petrificámos em posturas caricatas, mas não é isso a irracionalidade, são meros efeitos. Perguntaram-lhe se ainda achava necessário invocar as tramas do Olimpo ou bastaria colocar alguma ordem no passado, viver ausente com as coisas todas na cabeça ao mesmo tempo. «É necessário ser o sótão da montanha, para o bem e para o mal, reconsiderar o que por lá existe abandonado porque os caminhos divergem num ponto invisível». Muito assertivo: «Nunca podemos desistir». Os heróis podem desistir, abusar da sua sobre-humanidade ou troçar dela num jogo sem regras. Na arte, os filósofos não se fiam, não esperam dela qualquer indicação, nenhum conforto nem uma esperança, vaga que seja. Não a olham. Os cínicos dizem que a poesia põe em marcha a operação da verdade e ficam de longe observando os poetas estatelarem-se no fundo dos abismos. Apenas da natureza e da consciência extraem os seus absolutos. Por isso falharão sempre como o mensageiro que esqueceu a morada e tem no bolso a solução do problema. Pluralidade de mundos concretos – riem-se das soluções complexas, riem-se dos artefactos e riem-se dos deuses que escrevem o destino. «Riam-se, também, dos sarcasmos de Zaratustra, riam-se do vosso riso e do vosso medo». Curar uma construção mal negociada, é como descobrimos o sentido. Para isso precisamos desesperadamente de um interlocutor. Interiorizamo-lo e passamos o resto da vida no psiquiatra aferindo o comportamento. «Hoje, não são admissíveis desvios nem libertinagens ao modo de Frederico Nietzsche», diz Zaratustra na voz de Frederico Nietzsche, e continua: «Nascemos no paraíso, ensinaram-nos, mas expatriaram-nos para as zonas translúcidas do presente que é onde a mente funciona, no masoquismo da cruz uma humanidade incessante. Que outros deuses invocar?» O inconsciente são os incestos de trinta mil anos de linguagem: «Doentes do pudor, quantos messias me seguiram? as lavagens gastam-lhes a pele até à carne do tempo que, carnívora, se dessedenta». É onde o culto do mal e do bem se juntam e anulam numa ampla democracia sabiamente manipulada. O que se ignora destrói-se. É humano (a voz off confunde-se com a de Nietzsche): «Tento conservar no mofo racional o que me conforta; libertar as zonas de contaminação por deuses que, sem escrúpulos, venço, pois que portas abre esse vento imóvel?», respondendo: «Só esse vento arranha as árias que me sustêm. Olho-me como a uma engenharia de pequenas luxúrias num lugar inconsensual ou um simples megafone a rodopiar ao contrário no bailado democrático». A voz esvoaça como se dentro de si alguém voasse, num pleno repouso a luz existisse, no orgasmo dos nomes algo se passasse. Qualquer filólogo vende raciocínios que contornam os pontos dolorosos do crânio. As teorias já não servem para nada. As coisas humanas foram criadas para substituir e a injustiça é uma morte extemporânea: uma avalanche de culpas posta a zero institui o falso na armadura da verdade. Do meu refúgio contemplo a paisagem silenciada. Zaratustra tira-me a palavra: «Não vos prometo nada, nem vos direi o valor da palavra. Deixo-vos uma teoria da glória, um antídoto para a violência como se, sem uma noção de justiça, a revolta acabasse – pelo puro embrutecimento». Aproximamo-nos do fim: os elementos tornaram-se inlocalizáveis em qualquer sistema referencial. Nem sabemos se ainda contam ou se novas partículas criarão novos poderes. Nietzsche: «Os super-homens são, hoje, curandeiros das hermenêuticas finalistas. Cobiçam a beleza enigmática do meu silêncio, contudo, as suas metáforas cibernéticas suplantam a beleza das minhas que transformaram a vida e instantaneamente mudaram as atitudes civis». O coro popular faz-se ouvir: «Queremos terapeutas cheios de virtudes no teto da paisagem, que verdades polifónicas esfumem o contorno do pecado, que cada interpretação seja mais que uma nuvem, cubra o Sol e que ninguém enumere as impossibilidades. Assim regressaremos ao nada do alívio navegando numa mente inesperada». A estrada e a tempestade fundem-se numa mecânica de sopros que exige simplicidade. O farol do promontório submerge num pântano morto. Nesse lusco-fusco, nomes irreconhecíveis recompõem as cenas: Zaratustra no início da viagem, as intenções dúcteis de Nietzsche migrando nas fotografias que se justapõem instante a instante e desfocam. Além, uma densa zona apaga-se impercetivelmente. Depois, um passado cerra-nos num palco sem regresso; apenas instantes de um indistinto desejo de falar. A mente escavou uma ideia desabitada ou demasiado perfeita. Qualquer homem a supera.