Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

MADAME CURIE  

«Hoje é domingo» assinala a banalidade que é o suceder no tempo – ao domingo, apenas jogos de futebol. Também, restos de acontecimentos que não foram conversas conclusivas nos dias passados. Quanto ao mais são os acontecimentos habituais das democracias parlamentares e as fachadas dos grandes bancos milionários como toupeiras esburacando o sistema. Corrompendo e asfixiando. Vendendo armamento. Antes havia Deus. Em particular ao domingo, havia Deus. Deus era mais ativo ao domingo ou aproveitava a nossa inação e a nossa bonomia para nos fazer pensar na melhor forma de organizar a semana seguinte. «Prever para prover»; ao domingo reparamos como pouco conseguimos prever, como as leis positivas que usamos na nossa meteorologia privada falham e quando nos desculpamos «É complexo» já estamos a reconhecer o rotundo falhanço do nosso pensamento, estamos a abrir caminho para regressar a uma forma mágica de olhar a nossa vida numa perspetiva demasiado ampla como se ela coroasse a evolução da subjetividade e desta dependesse o aparecimento de novas espécies e de novos reatores nucleares. No íntimo temos alguma lucidez sobre a nossa insignificância e quando perguntamos à natureza «Donde vimos?, o que somos?, para onde iremos?» só podemos obter respostas falaciosas ou apodíticas, baseadas nas nossas próprias convicções. Fica, assim, difícil sair disto sem passarmos por uma razão metafísica que nos permita pensar as coisas, não como poetas líricos eivados de dúvidas sobre o espiralar dos aspetos como se nada os relacionasse, mas, aproveitando o ócio dominical, deveríamos examinar o que existe de nebuloso na nossa mente e, simetricamente, o que existe de mental numa nuvem, também pensar em como as nuvens aparecem e desaparecem do firmamento – como a humanidade na terra, e no entanto podem provocar grandes enxurradas, ou chegar a causar, com um dilúvio, o desaparecimento de dois terços das espécies. Hoje, domingo, a humanidade parece-me relativamente tranquila, talvez apenas porque os jornalistas estão de fim-de-semana, mas amanhã não me posso dar ao luxo deste pensamento translato onde as coisas interagem até com o nosso olhar e, ao tocá-las, ignoramo-las. Amanhã, nem Deus nem física quântica, as coisas têm que estar limpas, o ser-em-si separado de outras essências irrelevantes ou prejudiciais à sua pureza conceptual. Esta noção de contaminação vem dos primórdios da modernidade e marca a longevidade humana, mesmo se a radioatividade que cura também nos mata tal como as nossas dúvidas teológicas, ou filosóficas, ou meramente linguísticas, que sabemos hoje onde nos levaram.

A RELEVÂNCIA DA LITERATURA RELEVANTE  

Uma das perguntas insolúveis que hoje se colocam à humanidade em geral é o significado da expressão «literatura relevante» que pode ser generalizada a «produção artística relevante». Se continuarmos a alargar a extensão da pergunta chegamos ao humanamente relevante, o qual contém, eventualmente, já uma parte da resposta no sentido em que: 1) a relevância da literatura está contida na relevância de qualquer atividade ou acontecimento ou o que seja, para a humanidade, 2) subentende, também, que fora da relevância para a humanidade não poderá existir nem literatura nem arte relevante, 3) logo que, quando uma nação extraterrestre nos visitar nada teremos de relevante para lhe oferecer já que este relevante se circunscreve a um relevante humanista. 4) Por outro lado, a humanidade transforma-se ou, pelo menos, varia aquilo que ela considera relevante ao longo das épocas já que a maior parte da literatura não tem a relevância intemporal da «Epopeia de Gilgamesh» ou do «Fausto» de Goethe. Portanto, poderíamos entender que relevante é a literatura que age sobre a humanidade, sobre o que ela pensa, sobre o que ela valoriza, sobre o que a movimenta, sobre o que ela antes defendia e agora passa a defender, sobre tudo o que poderá influenciar o seu destino ou deslocá-la de um estado para outro. Muitos acharão demasiado restritiva esta noção de «literatura relevante pois exclui o entretenimento quer do artista quer do seu público. Muito do que é relevante para a humanidade é aborrecido de ser pensado, complexo de considerar, temível o que nos chega a exigir – uma mobilização crítica em relação aos caminhos que a civilização ensaia e uma submissão revolucionária aos pressupostos conservadores dos estados e da ordem internacional. Por serem mistificadores esses pressupostos confundem-se no poder, tornam-se a autoridade do poder, constituem-no. Assim, tornam-se relevantes, humanamente relevantes. Conseguiremos uma literatura cosmicamente relevante?

PARA UMA TEORIA DO ALCOOLISMO  

Mesmo nos bêbedos mantém-se a diversidade dos comportamentos na forma de iludir o entorpecimento. Como um toureiro se veste de dourado para desafiar a sorte, o bêbedo: 1) cambaleia vários passos antes de tombar, 2) podendo ser espezinhado por outros bêbedos inadvertidamente, 3) ou ajudado a manter-se de pé por um outro bêbedo até ambos caírem, e, 4) serem espezinhados por outros bêbedos, ou 5) expulsos da taberna como exemplo para que os outros bêbedos não percam também a verticalidade; 6) em alguns, a bebedeira é um crepúsculo cerebral ora furioso ora passadista, 7) ora acontece na solidão de uma rua deserta, nem um cão nem um eco, 8) ora se cola a vítimas que acham trágica a narrativa desconjuntado do bêbedo; 9) são os ingénuos da ingenuidade da palavra para quem o bêbedo é um reduto de sinceridade, um paradigma da comunicação intacta dos sentimentos em estado bruto ou não lapidado pelo medo e pela conveniência; 10) quando os sentimentos de um bêbedo são como a sua caricatura com o cérebro mais ou menos decepado; 11) quando a profundidade da bebedeira atinge a expressão anencefálica (todos os neurónios inebriados na vertigem de uma existência facilitada ao máximo) o bêbedo adopta a posição intemporal dos que confiam: deitado, espera a ressurreição que, sem grande mérito, ocorrerá (sonolento ou em coma, na rua, num qualquer canto; na própria cama, os precavidos); 12) podemos, assim, concluir que da diversidade inicial da bebedeira, a clivagem simples entre os de bom vinho e os de mau vinho, mas também, os detalhes folclóricos que levam o bêbedo a beber, se vão afunilando à medida que mais álcool perfuma o cérebro e que, assim, 13) a bebedeira é um processo autolimitado pelo atordoamento que o limita, 14) que tanto pode ser recomeçado diariamente, embora a diversidade habitual no início da carreira dê lugar a uma rotina desengraçada, como, 15) pode ser interrompido por uma misericórdia íntima chamada «fígado» (já com cirrose ou para que se detenha no seu caminho). Não existe nenhuma teoria do álcool fora desta vertigem do entorpecimento.

OS DIAS MUNDIAIS DE QUALQUER COISA  

Escolher apenas um dia de novembro para lembrar os mortos é outro paroxismo da organização e das assimetrias sociais: os restantes são dias dos vivos que é uma situação muito heterogénea. Esta clivagem vivos/mortos não é tão nítida fora das categorias linguísticas. Na verdade, há mortos cujo pensamento persiste no sentido em que pensamos com o seu pensamento, ele faz-nos fazer coisas e não fazer outras, e defendemo-lo como defendemos o ar que respiramos ou a pátria. Tudo o que o seu cérebro de melhor produziu continua vivo, audível, legível, observável. Muitas presenças da nossa contemporaneidade são, também, mediadas e não duvidamos que vivam – dizemos que as conhecemos porque o exercício das suas funções implica vida (o presidente de qualquer coisa ou de um país, o guarda-redes ou o guarda-prisional, o próprio preso) e esquecemo-los depressa logo que deixem essas funções ainda que não morram. A maior parte dos mortos não é importante que nos visitem no dia dos mortos (ou nos outros dias também, nos casos de assombramento); enquanto certas obras respiram connosco e, ao lê-las, materializam-se, i.e., existem, como outras ideias nossas procuram realização. Ao pensá-las incorporamo-las ou espiritualizamo-las ou, de alguma forma, emprestamos vida a essas obras (estejam, indistintamente, vivos ou não os seus autores), sejam literatura, ou uma grandiosa concepção das coisas, ou uma memória que oralmente nos chegou, ou uma simples frase sem a qual não viveríamos da mesma maneira, ou toda uma vida como no caso de Buda, de Sócrates ou de Cristo que só anos após a sua morte tiveram escritos os seus pensamentos e os seus ensinamentos e narradas as suas vidas. O que é relevante é que, embora se tenha verificado a sua morte cerebral, ainda hoje estas personagens nos sentam ao colo, dialogam connosco e nos ensinam o fundamento de uma visão do mundo e do humano, como se nos convidassem para um passeio pelos alicerces da humanidade e dos seus habitantes. Explicam-nos a torpeza, mas também, como esta pode ser equilibrada com outras forças, a que não vale a pena chamar «bondade», tão só reconhecer que salvaguardam o gregarismo. Outras obras morreram com a morte dos seus autores (ou até antes), fenómenos do entretenimento e da moda. Portanto, é bom que todos os que morreram continuem quietos no seu repouso, pois as obras verdadeiramente grandes vivem, ainda que não as recordemos todas num dia de novembro.

NORMALIZAR-SE NA POLÍCIA OU NO HOSPITAL

Tendemos a construir o conceito «humano» a partir de uma bondade, de uma convivialidade e de um empreendedorismo altruísta que observamos, por vezes, nalguns dos melhores cidadãos. Damos por adquirido que partilhamos uma natureza pejada de atributos positivos que nos fascinam nessas pessoas que achamos admiráveis. Eles tornam-se uma norma ideal que sabemos nunca atingir, mas confortam-nos que tenham existido e louvamo-las, sejam religiosos abnegados, ou fanatizados, ou embevecidos, ou desesperados à espera de um reencontro com a divindade ou com algum dos seus avatares, ou sejam heróis de admiráveis feitos, mas aqui já é questionável o critério, pois, frequentemente, são heróis de realizações titânicas contra outras populações, de alguma forma, suas vítimas. Hoje, valorizamos especialmente jogadores destros em certas artes lúdicas (futebóis, boxes e outros haikidos greco-romanos, tenistas, etc.), também artistas hábeis de entretenimentos vários (comédia, pintura, literatura, etc.) e negociantes, e valorizamos menos alguns profissionais que desde sempre existiram para nos normalizar e entreter, como os poetas, as sacerdotisas dos templos, os filósofos de potente retórica, os saltimbancos e outros histriões, de terra em terra mostrando-nos as suas habilidades. Conhecemos melhor as terríveis pulsões que integram a normalidade e que um certo modo de viver social reprimia violentamente, e, também, outras pulsões, simplesmente as escabrosas que todos praticamos às escondidas porque o corpo as solicita e disfarçamo-las. Chegou-se a definir civilização como um sistema de sublimações, sem nunca se perder muito tempo a falar do iceberg escondido. Dizemos em certas ocasiões da mente aflorarem vontades que não conseguimos reconhecer. Inesperadamente, matamos, ou mutilamo-nos, ou atiramo-nos de um prédio à rua, ou insultamos um pobre polícia, e desculpamo-nos que ignoramos donde saem tais impulsos que reconhecemos maldosos e perversos. Onde o polícia falhou, o aparelho nominalista categoriza o desviante nas classes da exclusão: o psicopata, o louco, o tresloucado, o perverso, o alienado ou, simplesmente, o excêntrico, assim justificando uma compulsiva intervenção normalizante. Chama-se o médico, o bruxo, o curandeiro, o terapeuta, o charlatão: qualquer um que meta ordem nesta mente que se sublevou. O próprio sente a sua vontade escapar-se-lhe e submete-se. Quer retomar uma qualidade de «humano», em que nunca pensara, ainda que num formato menos otimista. Já não pensa na salvação, na vida eterna, na fama nem em ser admirado ou particularmente estimado, quer apenas voltar a integrar de pleno direito a categoria de «humano» cujo atributo de «racionalidade» sente ter deixado de preencher. Esses existem em cada um de nós: quando assomam de rompante, as suas carantonhas monstruosas no lugar da nossa, no meio do nosso pensamento contra tudo o que pensamos, dizendo enormidades com a nossa voz, alarmamo-nos, os olhos muito abertos procuram agarrar-se a algo como uma nuvem onde tanto podemos jazer à espera que a situação se resolva como intervir ativamente disputando o controlo da nossa voz

SOBRE A VISIBILIDADE DOS SERES INTUÍDOS   

Como aceitar o ponto como paradigma das coisas visíveis se o definimos como não tendo dimensões? Se localizamos um ponto do espaço pela interseção de coordenadas, como o encontramos se o que nos sobeja é uma abstração? No entanto, percebemos demasiado bem um ponto que não vemos, mas disputamos muitas outras coisas que também não vemos. Deus, por exemplo, é uma necessidade lógica como o ponto é um necessidade geométrica. Isto é aceitável? Construímos imagens planas a partir de pontos invisíveis e construímos templos magníficos dedicados a entes nunca vistos. Isto é factual, mas o que é um facto quando nada é feito, mas sofrido ou aceite? Acrescentamos uma terceira dimensão e aparece-nos uma esfera, uma pirâmide, outros sólidos. Agora, vemo-los, mas cada um constituído de pontos que são invisíveis. O que é a visibilidade senão uma construção que nos aproxima do mundo quando as coisas já estão bem organizadas na nossa cabeça? O que sabe um papagaio que repete o que ouve, mas não diz o que vê? E uma cagarra que voa milhares de quilómetros de um ponto ao outro como encontra um e outro ponto como se não fosse grande o mar e igual? Se é plano o mar como é que é esférico o que vemos plano (uma deposição de pontos à mesma distância do centro da terra)? Mas como pomos Deus num plano de pontos se são invisíveis os pontos? Partilhamos com as cagarras o mesmo sistema de orientação pelos astros ou os nossos satélites levam-nos do destino para o interior do ponto onde perdemos a dimensão da vida? O papagaio vive num poleiro num ponto da sala; a cagarra vive num trajeto entre os Açores e o Índico, nós estamos algures num trajeto numa linha de funções automáticas como se fossem necessárias soluções caso a caso para cada momento de angústia. Ou como se a angústia fosse lucidez pela indeterminação: o que vemos mexer é a velocidade no espaço, a das cagarras voando noite dentro com as suas vozes de choro lactente, ou a vida está imóvel no tempo e este passa sem se revelar e um dia falha e desaparecemos? A nossa vida pode, assim, ser como um ponto e os seus desencontros (é quando  falamos de «amor») terem a necessidade da própria coerência da indeterminação. É quando queremos pensar o que não vemos que vamos mais longe como se fôssemos o fotão de Einstein, cego e imaterial como um ponto, contudo, matéria de tudo o que vemos fora da escuridão fria das distâncias. Como falar do acaso se nos encontramos e nos amamos ainda que definindo «amor» como impossibilidade?, mas o acaso guia o universo enquanto o amor só e importante para algumas pessoas.

SUBSÍDIOS PARA UMA ÉTICA CONTRA-ARGUMENTATIVA

Como é que um carapau habita num ninho de andorinhas? «Com ou sem andorinhas?». Procuro resolver os problemas de adaptação dos humanos nas viagens interplanetárias; procuro modelos etológicos de convivialidade – não me tome por um idiota, nem por um inglês com piadas insensatas. «As andorinhas levantariam ao carapau a complexa problemática da socialização alienígena, potenciada pela diferença de meio. É este o problema?». Verifico que é sensível ao politicamente correto, mas poderemos, ainda, seguir a declaração universal dos direitos dos humanos?, estendê-la, sem restrições, a todas as outras civilizações? «Toda a vida nasceu na Terra há muitos milhões de anos. Depois, esse todo fragmentou-se e polinizou alguns outros planetas». Ou a vida nasceu toda nos locais onde se desenvolveu – dessa proto-história nem a paleontologia guarda vestígios, mas imagina o primeiro episódio de reprodução sexuada, o primeiro ser vivo surpreendido por um orgasmo? «A introdução do prazer na aramagem (hardware) da vida revelou-se mais versátil que a sobrevivência, como se esta fosse condicionada pelo prazer, mas ignoramos o prazer da andorinha e o do carapau». São estes problemas de adaptação que desafiam a capacidade humana de criar consensos e delimitar problemas: neste caso, implicitamente falamos do prazer da andorinha e do carapau como distintos: 1) por o carapau habitar o oceano e a andorinha os mares?, 2) pelas conotações do género da palavra «andorinha»: fêmea, aérea, grácil; e de «carapau»: determinado, gregário, sério? 3) pelas conotações sexuais da andorinha: fêmea, aérea, grácil; e do carapau: determinado, gregário, sério? 4) porque omitimos o carapau fêmea e a andorinha macho arrastados, apenas, pelo género das palavras? Aplico-me na correção dos grandes erros da humanidade: tenciono corrigir a discriminação machista às mulheres, derrubar as estátuas dos heróis que não as respeitaram. «Quem é que você representa, que autoridade tem?». Sou um puro anti-machista estético, defensor das andorinhas macho e fêmea, porque defendo uma ideia de andorinha ainda que algumas possam amar um carapau que as tiranize. «Acha, portanto, possível estender o declaração universal dos direitos humanos a todas as espécies? «Não lido com o que é possível, mas com o que está certo. É assim a adaptação dos humanos e será assim nas longas viagens intergalácticas, o comportamento humano semelhante ao das andorinhas. «Como é que um casal partilha o seu pequeno apartamento com um estrangeiro (ou a sua nave intergaláctica)?». Tomo o carapau num ninho de andorinhas como uma possibilidade, não como fundamento de uma norma, portanto, não me obrigo a ser plausível, mas a criar boas normas.

DISPUTAS POÉTICAS  

Quando me disse que esta poesia era perifrástica respondi-lhe que o seu pensamento anti-perifrástico era ainda mais perifrástico. Não pensava em Freud e nos extensos campos semânticos das suas paisagens mentais, mas na própria experiência poética de falar com todo o cérebro como quando o pintor liberta as mãos e assiste. Sabe o que visa, mas ignora o que colherá: especulações informes, nem sequer aludindo à origem, ao propósito ou ao fim; a nitidez cacofónica do universo numa noite sem luar na cidade às escuras; a confusão de não saber pensar tudo o que vê e que, à primeira vista, pertence a um todo alheio com o qual convive. Tudo isto faz confiar numa ordem e, se as coisas divergem dela, pensamos que a poesia é necessária, como o cão para um caçador cego, de nariz entupido. A minha poesia é um anonimato antonomásico, uma prosopografia autista, os seus elementos sombreiam o verso e este é, ele mesmo, uma prosopopeia. É o seu desiderato: vivificar as musas do passado num formato digital compatível com todos os sistemas de alienação; fazer que, desde tenra idade, o verso se imiscua nas formas obscenas da intimidade, que numa culinária de frescos, a genealogia e o destino sejam, sem qualquer limite, horas conquistadas à morte com o método seguinte: o leitor desenraíza a sua narrativa falsificada do nexo de justificações e álibis que apresentou no interrogatório da polícia e que, atualmente, marcam o que ele diz de si. Passa a pensar-se como sabotador do arquivo central da república; como qualquer cidadão, com a linguagem ludibria para comunicar as suas inevidências, dilata os detalhes, a adjetivação, os certificados oficiais de veracidade e a própria música sintetiza-a a partir de extrações aleatórias de trechos sinfónicos que repete até saturar uma noção de beleza cósmica confortável. Quanto aos aparentes hipérbatos e anástrofes do texto, o meu pensamento nasce sem uma estrutura demonstrativa, limita-se a suspeitar e a encantar-se e, quando solta jardins abandonados, não os compara, afirma-os equivalentes à cidade febril de bares pelas ruas dentro surpreendendo-nos e aos navios encalhados no lodo da noite. Portanto, a que serve procurar as antíteses num poema se elas se formam apenas quando as tomamos como oposições; antes, na estrutura do poema, as revoluções dormiam como sardinhas em lata com os seus egoísmos colapsados numa entidade poética supra-individual: a lata de conservas que é uma boa metáfora do que queremos conservar na cultura e do que guardamos num poema ainda que ele se pretenda separar da cultura prevalente. Nesta poesia perifrástica e digressiva conserva-se a mesma inconclusividade que nos despertam as paisagens quando são magníficas e proporcionam confiança de que se repitam esses instantes de idêntica serenidade.

NÃO TEM NOME, É UMA OGIVA NUCLEAR    

A demanda do mundo tem uma poesia implícita, mas o poeta, há muitos anos, não sabe a quem a dirigir. Os leitores estão imersos num magma de sombras que procede de uma atmosfera de questões que ainda não foram delimitadas nem se encontrou um lugar geométrico nem um retrato que contenha algo por que valha a pena lutar. Nesta atmosfera o poema nasce. As sombras engordam com imperativos categóricos impossíveis de estimar, mas é como o poema cresce, como cria a sua própria paisagem de transformações. Mas não se inicia um poema mencionando só o que vale a pena pois a beleza é um isco cheio de buzinas e riscos parasitas, torpedos dirigidos a alguém, a nós ou contra eles mesmos. A poesia são as vicissitudes do combate numa atmosfera de chumbo: «O meu livro será um inventário de perfumes e passos em falta: os que levam ao abismo e a estratégias de riso imperceptíveis». A narrativa repete-se porque o poema não tem narrativa: bactérias alojadas numa volúpia massacrada, ao espelho, longas manhãs, e preparadas para infetar qualquer boca que nos beije: cáries de rafeiro; o trajeto da carraça, profundo e simples como o do poeta contaminado por tantas expetativas que lhe infetam o poema e explodem numa loucura íntima. Tentou pôr critérios irrevogáveis numa humanidade simplista, mas o que encontrou foi um bando de estadistas acocorados jogando um póquer sem regras. Valerá a pena morrer pela burocracia do Estado e pelo seu indesmentível pai? Morrer pela nossa ilha com a sua contabilidade de cenoura e chicote aleatório? Por um filho com tratores bibliográficos muito musculosos e tão maiores que os nossos ou, ainda por uma criança minúscula a dar corda ao boneco no sentido errado? Pela sua mãe boneca-de-fancaria/vénus de Willendorf? Vale a pena morrer pela menina à procura de espaço para desovar? Por alguém, a mulher, a mãe, o pai, o leitor, mesmo outro poeta no auge da indecisão? Estamos dentro do binómio em que anões loucos trocam o lugar às coisas da mente. Valerá a pena desprezar o óbvio do olhar em troca de uma racionalidade excessiva?, ignorar o instante supremo em que o poema se evapora e o seu mundo estável sedimenta na mente? A viagem pode acabar numa ilha de amuletos, a barca, entretanto, ir ao fundo como outras. Valerá a pena arriscar tudo no timbre persuasivo de uma voz? Achamos todas as respostas superiores à nossa racionalidade. Um vulto muito acima normaliza um xadrez de interesses absurdo que nas próprias exigências se desfaz, mas já não discutimos se existe. Do coração do mundo, quando a avalanche de sangue se abate sobre o próprio coração, grande parte da alma aplana-se num modo de dizer confortável. E indesmentível a sua verdade própria. O poeta, pelo contrário, continua a navegação à vista – não encontrou resposta. Pode haver uma esperança, uma compreensão vertical da vida ou esperar-se o desmoronamento da muralha e o poema desencadear uma cidade com outra forma de noite.

DIALÉTICA    

Já não se pode falar de desejo, mas de proximidade – que é a dança dos momentos quando têm duas origens e convergem. É uma relação espacial entre dois dispositivos preparados para o melhor e para o pior: 1) seja porque esta convergência ultrapassou o desejo, não no plano fusional, mas no do próprio aniquilamento, 2) seja porque a disponibilidade (e não a saciação) deu lugar a uma desesperada vontade que se foca em qualquer coisa (num semelhante, num clube desportivo, num deus fanatisante, numa coleção de borboletas, no próprio corpo como objeto de culto já separado do discernimento), 3) seja porque a disponibilidade é uma mera projeção da presença (neste caso, do desejo da presença: a ausência), 4) uma projeção no tempo e, 5) no fluxo de necessidades e ações que designamos por «viver a dois». Esta exposição assentou na existência de um consenso sobre o que é «melhor» e «pior», um consenso periclitante em si, isto é, instável para quem o apregoa e ainda mais se se pretende a partir dele regular a proximidade. Por isso, falamos de desejo entre dispositivos a fim de conservarmos a maior universalidade de que os humanos são um caso particular. Lembremos que as pessoas têm idealizações sobre a sua animalidade como se fosse obsceno o que fazem com os corpos uns dos outros, o que deixam fazer e principalmente o que não se permitem e persiste como devaneio escondido e envergonhado. O «melhor e o pior» não se explicitam como amor, não saem da autorreferencialidade emocional de uma expectativa prazenteira que não quer passar à ação. Dizem: «Não é desejar melhor do que possuir?» ou se mais ousarem: «Não é melhor seduzir como se desejasse?»; raramente: «Não é melhor o arrebatamento numa construção totalmente autónoma?». Já não se poderá falar de desejo, mas de uma proximidade intermitente ou descartável – uma divergência íntima e destrutiva. Preparam-se para o pior que é uma desconfiança que imagina e mata. De quem morre dizemos que amava e era fraco.