Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ABY WARBURG  

Em geral não damos muita importância às virtudes dos outros, tomamo-las como atributos vulgares como a teta da vaca em que todas as pessoas mamam. Se alguém é generoso connosco, logo pensamos que apenas recompensa os nossos méritos, que os reconheceu e que o prémio que nos confere é inferior ao que mereceríamos. Da justiça dizemos o mesmo, que é um direito dos desfavorecidos e uma obrigação dos mais fortes; da temperança e da prudência, que são falta de coragem, até a sabedoria podemos tomá-la como presunçosa ou exibicionista. E temos razão: para cada pretensa virtude podemos imaginar um encadeamento psicodinâmico de situações inescapáveis que tornam as pessoas inexoravelmente bondosas, prudentes, justas, sábias, etc., de modo que, assim, desfazemos o mérito dos virtuosos e damos crédito às vítimas, recipientes das suas virtudes. De certa forma, a virtude contesta o estado que é o grande virtuoso por excelência, o grande distribuidor de justiça, de segurança, das certezas que tornam supérflua a sabedoria a ponto de podermos dizer que um estado eficaz tornaria ridícula a bondade, desnecessária a prudência, descabida a generosidade. Diríamos a sabedoria, um assunto que nos distrai, mas pertence a diletantes sem um interesse prático em coisa nenhuma nem virtudes a defender, sofistas que falam das virtudes como de um desporto que amam, mas não praticam. Na verdade, para a maior parte de nós é preciso algum desprendimento para ser virtuoso, é preciso não ter muito a perder com cada virtude que apregoamos. Buda era príncipe e largou tudo. Aby Warburg era herdeiro de banqueiros e largou tudo. Mesmo doente procurava uma forma de sabedoria residente nas formas estéticas como nas outras, indiferentemente. «Mas é isso a doença», diziam alguns. Não, é uma virtude.

A LUCIDEZ  

Temos a sensação (intermitente) de haver questões verdadeiramente importantes que ignoramos ainda; vitais quer para a sobrevivência das pessoas quer para a do universo (não considerando os inúmeros microssistemas que desprezamos pela sua ínfima escala: as formigas, as eschericias coli, os vibriões coléricos, etc.). Quando queremos formular essas questões evocamos um faquir, ou um eremita na sua gruta, com um livro apenas, garatujando umas notas sem pensar que alguém um dia as lerá, ou numa mãe tirando da boca para dar aos seus filhos e a equação de necessidades que parecia apontar soluções humanitárias abre fissuras, como um templo budista após um sismo de grau 7,6. Ao tentarmos perceber a fragilidade de uma teoria religiosa da compreensão, surdiram os seguintes aglomerados de razões: 1) intrusão no pensamento de elementos sobrenaturais de vária ordem que ora se arreigam a glória da criação, ora de telecomandar o destino de alguns humanos, ora de julgar o bem e o mal em apocalipses espetaculares; 2) espiritualização de alguns órgãos do corpo como se as suas mitocôndrias se alimentassem do infinito, ou como se o sangue se encaminhasse por uma vereda abaixo sem necessidade de ser bombeado de volta, e o cérebro, no alto, fosse um anjo ou um pirata, ou como se os músculos fossem meros órgãos genitais que a dança esconde e ostenta; 3) mistificação do tempo e mistificação do silêncio pois a manipulação científica dessas variáveis consegue determinar o grosso do acaso, incluindo as tempestades e as evoluções psicopáticas da personalidade; 4) razões desconhecidas ligadas a uma muda vibração na essência dos conceitos, talvez subterrânea, talvez no cimento das sílabas que é donde a loucura germina; 5) razões desengrenadas de todas as razões conhecidas, as razões dos loucos, dos revolucionários, dos vagabundos que encontraram no sossego das ruas vazias uma noite totalmente coletiva, como uma utopia que ninguém quisesse realizar. O que fazer com estas indomáveis razões? (esta é uma questão importante?). Poderemos ultrapassar o cérebro, não apenas adicionar-lhe novas próteses, novos periféricos, mas uma nova consciência, não apenas reflexiva e armazém de culpas e afazeres, mas verdadeiramente capaz de ser consciente do que é importante e de não colocar questões idiotas sobre coisas que todos deveríamos saber antes de atuar? Provavelmente é importante não definirmos estritas questões importantes – seria desvalorizar todas as outras, relegá-las para um estatuto de entretenimento ou, mesmo, de lixo. Seria deixar a nossa essencial ansiedade sem uma pergunta que a alimente, sem uma memória de tudo o que já dissemos absurdo ainda que seja, apenas, complexo. Por vezes, é útil subir à montanha, ou a um miradouro sobre a cidade; a vastidão sossega-nos e esquecemos as questões importantes.

POOEMA  

Advertência aos poetas irónicos: «Que tenham cuidado com a cabeça, tão desprotegida e racional. Tenham-na num estado de desejo absorto, presa a qualquer luz precária e que nada derrube o vosso sorriso florentino». Continuando em formato de admoestação: «É fácil criar um acontecimento com esses argumentos rastejantes próprios da imaturidade». Resposta de um poeta racional: «Insisto em redefinir «facto», uma democracia de estranhos movimentos recorrentes distinta do meu olhar ou do lugar onde o inscreva. Acompanha-se de um gráfico de probabilidades difícil de interpretar a partir do qual se atribuem adjetivos». A voz que advertia, agora amigável: «Digo-vos perceber bem a suprema catarse de puxar repetidamente o autoclismo: quase todos os movimentos sofrem o impacto da sua própria realização. É isso um facto, solene quando, contemplativos, o isolamos, cruel se desaguamos na sua anatomia: a sintaxe do conjunto desespera, a arquitetura de encaixes compulsivos onde assentamos os pés desengrena-se». Respondem os poetas de géneros vários: «Por isso te dizemos, tudo deveria ser imóvel e controlado como um guarda-fatos, e imperecível como a beleza instantânea de uma criança». A voz: «Deixai o que possuís, isso que se bamboleia entre sorrisos sedutores». Já em plena queda, com a cabeça quase partida e a respetiva perda da consciência, ainda nos surpreendemos com o que foi a nossa vida intra-poética, integralmente à margem de uma definição de «facto», ainda assim, os factos tão filmicamente montados e inconclusivos. Esperemos que se mantenham, intimamente na cabeça, tão desprotegida e racional.

CLUBE MEDITERRÂNEO

Há um momento na vida em que só resta partir para um clube de férias, desgostoso com a poesia ou para evitar novos imprevistos. Aí troçam da vestimenta, olham-nos como estranhos, jantamos sós, não temos parceiro para o ténis e são eles que têm razão, ou melhor, a razão é um braço de ferro. Percebem-se razões muito fundas desde a forma de ostentar as iniciais ao abordar uma mulher no bar da praia, ao uso de desodorizantes e odorizantes cutâneos e à culinária em geral. Até mesmo em situações difíceis o estilo conta, por exemplo, no gesto de abrir a carteira sem refilar, embora sabendo-nos enganados. Porque a poesia é não gaguejar quando as pontes ruem e se percebe não se poder contrariar a celestial naturalidade da linguagem. Então, é apoderarmo-nos do eco num recanto aluado do medo, ouvir o verso e o reverso. Mais vale esquecer as derrotas, concentrarmo-nos nos objetos pessoais, cuidá-los pelo que nos evocam e não lhes exigir senão um local contentamento. Perto do final, alimentar um desejo íntimo de que as coisas falhem. Percebe-se a sua definitiva insatisfação, mesmo que a mulher nos corresponda, que evitemos os sabores vulgares da culinária hoteleira e tenhamos parceiro para o ténis. Percebe-se a poesia ser um corpo na mente onde algumas coisas se inserem e donde outras são expelidas.

O CÉREBRO POUCO EXPLICA  

Como é o cérebro de um narval?, ou o de um político?, ou o de um Pégaso?, ou o de um dinossauro rex?, Quando nos apaixonamos por alguém, deveremos investigar as circunvoluções do seu cérebro, as do córtex frontal, em particular, que poderão estar a fazer planos traiçoeiros? Ou é irrelevante, no amor, esta aramagem cibernética que liga o cérebro ao comportamento individual efetivo, ao seu imprevisto, às derrapagens das incumbências de cada um em cada circunstância? A ideia de que todos os comportamentos ficariam explicados sem margem para complexos freudistas nem outras suposições enigmáticas falha para as decisões políticas embora se possa aplicar no amor. Não perdemos tempo a pensar no Pégaso, nos seus soberbos voos e nos dentes de ouro do político. Não percamos tempo com o cérebro uns dos outros a menos que precisemos de uma boa explicação para os seus atos limite ou desesperados. É para que servem as doenças – para justificar o que falha, e para que servem os seus curandeiros – para aliviar. A trepanação é um furo no crânio para libertar os maus espíritos que agitavam a pessoa. Já os egípcios diziam que o útero era o órgão das convulsões: quando se elevava ao cérebro e estrebuchava com ele. Mas porque rouba o político como um ladrão ou como um dinossauro rex? Porque precisa. No caso do dinossauro espanta-nos como um cérebro tão pequeno controlava tamanho corpo como se o corpo caçasse sem cérebro ou como um grande pianista toca sem pensar. O cérebro do Pégaso interessa-nos por ser insubstancial e pela sua associação a uma constelação, mas o do político poderá ser um caso-limite de uma analidade obstipada. Isso explica que roube? Tal como o do narval, nunca o vimos em funcionamento, mas gostaríamos que refreasse a avidez e não extorquisse do sistema mais do que o que lhe compete. Esperamos do cérebro da pessoa mais do que o cérebro explica: esperamos que saiba o que está certo, que proceda bem e que nunca mate ainda que precise. Isto é, ainda que o cérebro precise.

O PENSAMENTO EM AÇÃO  

O que tem o cu a ver com as calças? São alhos e bugalhos, respondem. Mas sê-lo-ão? Um dos grandes problemas do pensamento a todos os níveis é atribuir significado à relação que sempre conseguimos estabelecer entre dois conceitos. É claro que a forma das calças é condicionada pela anatomia das partes que se destinam a cobrir; o que é evidente no caso dos parcial ou totalmente amputados de uma ou das duas pernas: as calças modificam-se. Hoje, também os obesos atingem proporções nunca vistas, os seus enormes rabos são luas cheias obstipadas e de difícil acesso para limpeza; tal como a linguagem reveste o pensamento, as calças acompanham de perto estas deformidades. Portanto, o cu e as calças não são alhos e bugalhos. Mas nem sempre há uma relação entre a forma do rabo e o tipo de calças ao contrário do que poderíamos esperar: 1) há pessoas esbeltas a quem ficariam bem calças justas que não as usam, por discrição, 2) ou porque não se sentem suficientemente esbeltas, 3) ou porque temem que a justeza das calças desencadeie, ainda mais que olhares de admiração. 4) Acresce que muitas pessoas tem ideias próprias sobre a beleza, querem-na insaciavelmente escanzelada ou, 5) pelo contrário, volumosa e arredondada: sobre-nutrida o que solicita calças largas nas macérrimas e grotescamente justas nas nutridas. Mas, 6) alguns distorcem a imagem do corpo, dramatizam-no e as roupas são o pano de cena de um teatro sofrido. 7) Num domingo de verão na praia, vemos todos os tipos de rabos: chocantemente, os que acumularam grandes volumes de gordura e, dentro e fora de água, se movimentam como gelatina durante um sismo. Nós, horrorizados, prescrevemos-lhes calças largas e escuras e que se envergonhem do que petiscam, mas estes gigantescos rabos sentem-se airosos, como se acumulassem uma formusura excessiva. Não escapamos de uma leitura erotizada da sua intimidade: bastas carnes oferecendo-se estremecidamente à preensão, remexidamente atuando sobre o prazer do outro, como se o cozinhasse, como se o revestisse de temperos, como se o fizesse viver a marinar sempre esperando a consumação. Como um carapau de escabeche – não o imaginamos de calças. Portanto, há conceitos estritamente impossíveis de associar como um carapau e as calças (qualquer coisa que envolvesse os genitais e a cauda do carapau enquanto nada no cardume, não seriam calças) e, assim, conceitos como «cu» e «calças» tiveram as suas afinidades demonstradas para todos os animais com pernas, mas não com barbatanas (da mesma forma, uma horta com alhos e bugalhos), assim, como com os rabos, o pensamento dever-se-á acautelar cada vez que reúne ou afasta conceitos apenas por simpatias à superfície da linguagem.

A CIÊNCIA DO CONSELHO  

É difícil escapar ao ridículo quando damos conselhos. Não tanto pela pose majestosa que adotamos, envelhecida pela experiência, mas a própria arquitetura dos argumentos pretensiosamente assente num ego obeso e paternal que se pessoaliza para ter razão. Trata-se de uma enorme falta de respeito dar conselhos, maior do que os vender. Dar conselhos supõe uma sobrevalorização da nossa capacidade de ter razão face à pessoa que os recebe que é tomada como deambulando pelo mundo, estupefacta ou repetindo os mesmos erros, em risco de se tornar miserável, ou de se suicidar por incoercíveis fracassos amorosos, ou de abrir falência e só nos restar levá-lo à sopa dos pobres e a um albergue para que o cuidem. Não lhe reconhecemos jogo de cintura para dar a volta à situação como se o estado em que o encontrámos equivalesse ao estado terminal de um tumor maligno, ele repleto de metástases e, portanto, comer ou não comer, dormir ou não dormir, abrigar-se e proteger-se ou continuar deambulando como um perdido pelas ruas fosse indiferente para o seu terrível destino. Por isso, a nossa voz se adoça à medida que se torna peremptório o que lhe dizemos: desvalorizamos a sua contra-argumentação, apenas repetimos: «Fizeste mal. Ouve o que eu te digo. Eu é que sei, já passei por isso e vê como, ao contrário de ti, tudo me corre bem». Se ele aproveita para nos pedir ajuda concreta, já temos preparado: «Tens que sair disto por ti. Criaste a situação, tens que a resolver sozinho». E, com uma pancada nas costas ao modo de despedida, insistimos: «Faz o que te digo». Não importa se ele nos passa a odiar ou a desprezar-nos, seguramente que não nos estima e que o deixámos mais desesperado com a crueldade da humanidade. O que é grotesco é a disparidade entre a pose de um triunfador e a de um derrotado. O que é notável é como a presença de um derrotado cria em nós o triunfador e este papel nos obriga ao ridículo e à prepotência. Os aconselhadores profissionais servem os seus conselhos sem o nosso falso altruísmo ridículo. É uma ciência esse modo de vida.

MELHORES ARES  

Sobre a morte não há muito mais a dizer. Ou nos rejuvenescemos seja por que processo for, ou tentamos que ela nos apanhe num momento favorável. Não se trata de posar para esse momento, mas de não perder uma respeitabilidade e uma integridade que procurámos manter toda a vida. Se for a tempo, a medicina lentifica o aniquilamento: envolve-nos num processo em que vamos largando funções vitais e acumulando dependências abjetas: começamos por perder cabelo, por nos esquecer dos afazeres e não há agendas que nos cheguem; depois, vai-se o controlo dos esfíncteres e voltamos às fraldas, agora de uma forma aviltante, achamos que mais vale demenciarmo-nos para não perceber bem o que se está a passar. De qualquer forma, já nos desequilibrávamos um pouco, tinham que nossa amparar como a bebés. Mais adiante, não respiramos sem ventilação assistida com as botijas de encher balões na feira para os miúdos; o coração, arritmado, subordina-se aos pulso elétricos externos como um vulgar autómato; nem os rins filtram as pestilências do sangue, nem o fígado nos purifica; precisamos de muletas e cadeiras de rodas, de algálias e de uma cama articulada donde podemos já não mais sair com vida. Por vezes, ainda utilizando todos estes recursos, mantemo-nos vivos no sentido de preservarmos uma trôpega dignidade que é, sem dúvida, uma admirável dignidade. Por vezes, uma única dignidade: se ainda falarmos, a voz parece vinda de um oráculo que contém um grande tempo onde as coisas concretas não cabem porque foram esquecidas e o que a voz diz alude ao verdadeiro esqueleto da linguagem onde os conceitos constantemente se purificam. Não numa gruta de sombras, mas numa gruta de deslumbramentos, de evidências ocas, simples, incoercíveis, por isso a morte se aproxima e não há muito mais a dizer. Não foi possível, ainda desta vez, rejuvenescermos, mas resistimos melhor à degradação da idade mais lentamente graças às nossas redes de comboios subterrâneos, aos frigoríficos ultra-fornecidos, aos ginásios que nos robusteceram a alma. Presos à cama, alimentados por sonda, a alma dispõe-se a deixar-nos em busca de melhores ares. Neste momento, gostaríamos de acreditar que existissem.

SOBRE O CÃO  

Há poucas situações mais estúpidas que o ladrar imparável de um cão pela madrugada dentro. Nós a acharmos que é o melhor amigo do homem e que se ladra assim é para nos proteger de um espírito que passou. Mas são quatro da manhã, o ladrar do cão desperta a vila para pensamentos estúpidos como estes e, se ontem morreu alguém, que outros augúrios podemos esperar senão que a morte anda por perto ensaiando as suas escolhas pouco criteriosas quer ladre o cão quer durma. Num lar de idosos estas ideias tornam-se obsidiantes e causam umas insónias envergonhadas pois ninguém confessará a atenção que dá aos indícios. É preciso inventar uma dor que arrepanha o cérebro como um saca-rolhas ou dizer o esparregado do jantar uma entidade revolucionária incompatível com a soporífera tranquilidade da noite. A idade esgota a capacidade de amar. Um cão ou um gato são fáceis de amar e de desamar: presenças simples que se apagam como uma vela e mais vale aproveitar para dormir sem andar às voltas com o significado das coisas. Num lar de idosos, a própria vida parece já não exigir que a estimemos, parece degradar-se automática e inexoravelmente sem tomar em conta a atenção que lhe prestemos – ou não. Ainda que não nos coloquem num lar, os filhos, os netos, a aldeia, a república, todos parecem dispensar-nos: parecem seguir um critério de utilidade quando nos cruzamos na praça, coxeando apesar da bengala, parecem dizer-nos: «Vens do passado onde dormes e sonhaste e fizeste reais os teus filhos. Hoje, eles querem lavrar as tuas terras, rasgar a papelada com as recordações que tu próprio esqueceste. Vai. Parte. Deixa que te substituam como um último sacrifício pelos amores que alimentaste e que, hoje, te dispensam». Uma cadela afugenta o rafeiro escanzelado que a rondava, um jovem pontapeia-o para que desapareça; os outros velhos na praça riem desdentados. Rir é como ladrar aos indícios.

NÃO É BELEZA A BELEZA DA PRIMAVERA  

A primavera é um princípio genérico que aplicamos como uma hipótese otimista ao que a vida traz. Quando já sabemos o que se segue. É um grande princípio homogeneizador e é como tal que irrompe na poesia com as suas borboletas e outros animais de efémeras vidas. Nenhum poeta fala das larvas da borboleta nem das crisálidas sequer, mas atribui à beleza primaveril da borboleta uma perenidade errónea. Ou a beleza, por definição, é efémera como a de Cleópatra e a de tantas mulheres que, após um intenso usufruto, se viram dela defraudadas e, ressequidas, engordaram como se a multiplicação das carnes as salvasse das rugas; ou se a beleza, por definição, não é efémera, se resiste à moda, à circunstância, à época, a beleza periclitante das borboletas não é beleza. Neste caso, a nenhum dos artifícios de sedução com que a natureza dotou os seres se poderá aplicar a noção de beleza: 1) a beleza que existe em alguns seres não faz deles seres belos: seriam belos porque nos fascinam ou fascinam-nos porque são belos, mas esse fascínio que perece é um manto de engano que armadilha os seres, um manto que coage quem o usa e quem o contempla é perverso; de tal ser que é perverso, pois que o usa para fascinar, poderá ser bela uma pintura que o retrate ou uma escultura que o represente; 2) e, contudo, muitos seres procuram formas belas (ou são atraídos por formas belas), esta atração vizinha do desejo, vizinha da reprodução e da imortalidade, é desencadeada por dispositivos primaveris que os corpos usam a seu bel-prazer; 3) pois que esses seres que atraem, são também atraídos por quem atraem; ambos se desgastam como torturadores, se mastigam, chegam a morrer e isso que os atrai é uma forma facultativa, logo inútil senão pelo facto de atrair; assim as formas dos dispositivos naturais de atração poderiam ser outras, essa beleza é um acidente tornado essencial em matérias como o amor e a arte; estas deveriam ser consideradas como possuindo razões próprias distintas; 4) por outro lado, sendo desinteressada a apreciação da beleza, só aos objetos desinteressantes se aplicaria; 5) aplicar-se-ia, portanto, não às formas que encontramos na natureza, mas aos objetos inúteis que as retratam, que as mencionam, que a elas aludem, ou a outras igualmente inúteis que construíssemos para nosso deleite e esta definição de arte contém a imortalidade controlada que convém à beleza.