Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a Blavatsky

Gostaria de explicar tudo desde o princípio sem ter de dizer inexplicável o próprio princípio, mas se o dissesse inexplicável e impenetrável não o diria ilimitado e eterno pois seria desde logo criar condições adversas ao pensamento e a principal tarefa da literatura passa-se num recreio cósmico onde recriamos contingentes reincarnações. É difícil demonstrar que no futuro seremos super-homens; as tendências apontam em direções divergentes e, na verdade, as observações de Darwin não foram exaustivas ao nível do humano, mas já não gostamos do conceito de «raça superior» porque não sabemos como utilizá-lo de uma forma não catastrófica. Também ninguém se sente bem na categoria subentendida de «inferior» e a própria definição biológica de «raça» já não suporta campos de extermínio e a própria limpeza étnica é uma deriva mais suave assente em antipatias pelas idiossincrasias entre grupos, também mal aceite. Assim, o avanço do espírito de reincarnação em reincarnação era uma verdadeira evolução das espécies no sentido otimista e diferente da metempsicose. A questão do princípio só é relevante como ponto final do encadeamento. Mais importante é a questão do final: podemos não conseguir bater os recordes de longevidade, a entropia da vida penetrar as estatísticas, a matéria e o espírito reingressarem na totalidade e o princípio retornar com a mesma lengalenga. Helena era obesa, viajava de barco para a Índia ou para a América e de comboio entre as capitais da Europa visitando os discípulos. Hoje não caberia num avião. O Senhor Blavatsky foi abandonado na lua-de-mel. Os soldados do pai eram tansos; deixaram-na escapar-se para Instambul em vez de a devolverem ao marido. Ela movia as coisas, transmitia e recebia pensamentos, materializava objetos desejados que depois oferecia ou alterava as propriedades físicas de objetos existentes, adivinhava o futuro próximo e longínquo, criava música sem instrumentos, animava até o cuco do relógio de uma amiga ou a coruja empalhada que tinha na sala. Muitos dos que a acreditaram quiseram provar que ela os enganava e ela confessou que apenas enfatizava as verdades para que os seus reais poderes melhor persuadissem. Conhecia a sugestionabilidade do seu público, o pobre Olcott que acreditava em todos os truques, até que ela escrevia a dormir citando livros que nunca lera como se fosse possuída pelos gurus da teosofia. Os críticos acusaram-na de plagiar, mas o texto era a própria voz dos autores que ela convocava, assim não tinha que os citar como um vulgar académico, apenas de desaparecer do seu lugar e da sua voz como uma grande atriz se inventa para uma personagem que tanto é ela autenticamente como uma súmula de todos os pensamentos tidos por quantos ela quis ser.

devaneio quando anoitece e o visual se indistingue

Gosto de olhar a transparência daquela árvore, as suas húmidas emoções cuidadosamente coordenadas com as minhas pequenas visões que pendem de sucos sonambúlicos. Vácuo, troncos e sombras preenchem a arquitetura espúria da noite, os olhos soltam-se e procuram zonas de significação na transparência inconsciente das pré-existências. Podemo-nos colocar a bordo de um porta-aviões obsoleto a caminho de Marte ou espreitar, no peito, os espasmos retorcidos do desejo. Uma mulher de branco cujas folhas cintilam com o vento que as desabotoa na minha memória de gozos destaca-se da transparência, mas não me permito dizer que exista: as suas cores são fugidias embora perfumes de penetrantes cócegas me espiralem na pele (o semantismo tal como o voyeurismo ou o anarquismo conceptual são pré-visualizações do desejo no outro polo da utopia) e ancoram no vislumbre do impossível, mas é por onde trepo inventando sexos inopinados. Num relance, sai do estatuto de Bela Adormecida e, à entrada nas Mil e Uma Noites sorri concedendo-me tudo, levando-me no ínfimo poema da duração de um eu fundido com paramécias que não pensam em si. Tudo é relativo, dizem os jardineiros conscientes das suas petições de princípio. São mundos que não se entrecruzam, as suas imunidades e preconceitos produzem efeitos avulsos, por isso ele pode dizer que o mundo é das árvores, depois é dos gatos nos roseirais e dos animais dos canos subterrâneos a partir dos quais descrevemos o contra-mundo intranscritível do silêncio. São os momentos das coisas inexplicáveis, o miar noturno das árvores separa a significação dos sons e o sonho é a pura expressão do amar nas sinapses dos cedros cujas sombras esbracejantes regressam ao objeto e a uma sobrerrealidade convincente: o contexto nominal da convicção: toneladas de dicionários atirados de chofre para os cones dos meus olhos. Tenho nas retinas a superfície da história, a mecânica da sua sonoridade, os voos arrevesados dos seus preconceitos; a música de um vómito pode ser uma flor concubinando com um vaso de guerra, uma borboleta que atravessa a noite com uma titubeante majestade ou, feminina, a noite diluída numa metafísica quase muda que se funde na nosso próprio desconhecimento. Pode ser, também, a culinária nuclear já prestes a vir-se num anjo boquiaberto – é como as coisas acontecem; nunca percebemos se o que parece bom para a humanidade é bom para o planeta – pode não ser bom para a humanidade nem para o planeta, mas a história é uma noite opaca e a ecologia uma árvore exótica num jardim nem sempre bem comportado.

portugueses sem Portugal

Não estou preparado para o meu trôpego individualismo – nem para o dos outros – carapaça coberta de ação, duelo vão, asa inimiga, magma e sabão. Por perto do parco mundo-cão, o centro do mundo-cadela, também paraverbal e infalível. A retórica na auréola do sol nos irmana e esventra – pura dança de crepúsculos, os moinhos de vento em procedimento de beleza até à inábil permuta sexual, pedestal a pedestal. Desvendamos a intimidade do domínio – desavergonhada camuflagem de girafa empinada em espetacular montagem poética, convulsão de raciocínios e holocaustos e desculpas sem culpa. Os poetas e as suas indiscretas tartarugas triunfam das razões do império, cabeças cheias de córtex frontal sorriem a Shakespeare: «Porto-galo». Amo estas assimetrias geográficas de moinhos de pera sem Pança. É preciso alguém habitar a pestilenta terra-queimada das metáforas, descrever a manipulação do espanto e as interdições da poesia, iniciar o poema de um país tépido onde os nomes se apagam: «Quixote», «Afonso Henriques», «Salazar» – arranhar em inglês as grandes agruras da existência preparadas para a não-solução da saudade que treme na espinha e assim seja o amor-próprio – e impróprio – de um país desaparecido para os seus amáveis habitantes.

o meu jardim

Tento, no meu jardim, um conluio das plantas espontâneas (vulgo «daninhas») com as de maior nobreza que foram plantadas para dar prazer. Nota-se uma tendência a atribuir delicadeza e sublimidade às plantas de viveiro, talvez por uma questão de hospitalidade devida às entidades estrangeiras que vêm com o seu exótico alegrar a nossa monotonia; assim, a tendência a menosprezar as autóctones, o jasmim, o rosmaninho, até um sobreiro ou um imponente castanheiro para não mencionar as que esverdinham os solos cada primavera. Os brincos-de-princesa ou as orquídeas, um cipreste italiano não dão maior prazer que a inflorescência ruborescente das papoilas espontâneas que lembram outras vindas não sei de qual oriente. O cérebro semeia contrastes e constrói, consentaneamente, uma ação repressiva contra os desfavorecidos do seu agrado. Pode ser que tudo seja arbitrário num jardim e se deva submeter a uma domesticação maniqueísta. Até nos parques naturais e nas reservas florestais os ursos e os javalis serem treinados para preferirem ração e não comerem os veados nem estragarem os malmequeres. Um poeta deve alargar as categorias do agrado, examiná-las de vários ângulos como um comprador de diamantes e, ainda assim, sempre que arranca uma erva espontânea deve ter consciência da ilegitimidade do ato. Não pode, como um vulgar colonialista do século XIX, empurrar os autóctones para fora de um território que ocupou à margem da lei natural ou, simplesmente, exterminá-los para dar espaço às suas plantações sem nunca tentar a miscigenação, como tento fazer no meu jardim. A grande constatação histórica é que cada exterminador tem a sua legitimidade e mesmo uma moralidade mais ou menos adaptada ao que faz, donde decorre a categoria de «daninho» para tudo o que lhe desagrada. As ervas daninhas provocam um prazer surpreendente. Claro que a beleza das rosas ou o exótico da orquídea, ainda que previsíveis, premeiam o jardineiro com uma espécie de autoria deliciada, mas soberba em relação à passividade contemplativa de um passeio num bosque. Aí tudo é espontâneo e não dizemos «daninho» dessa ordem que o jardineiro repele. No meu jardim, o cérebro não funciona com antinomias, pede desculpa às plantas espontâneas de introduzir estranhos nos seus domínios. Pede-lhes que permitam ser ele a arbitrar a miscigenação sem, contudo, delimitar canteiros nem interditar zonas reservadas aos passeantes tal como, ao escrever um poema, o poeta junta aos seus plágios algumas formas que nascem da própria poesia.

linguagem de fumo

«Quando descobriste a minha gravidez, os anjos uivaram enfurecidos, os cães rodopiavam como ciclones de pó e um alarido interrompeu o banquete. As mulheres cercaram-nos de saracoteios e mesuras. A orquestra alucinava o que pudéssemos pensar». Ninguém acreditou como nas disputas entre heróis de uma região sem nome. Diziam: «O amor sublime é um teatro inventado para pessoas na eminência de desaparecer». Sabemos que muitos amantes tentam refazer-se em cada encontro, por isso, são exuberantes os gestos prévios. No nosso caso, os gestos indiferenciaram-nos: útero e mente indistintos como numa linguagem equipotente. Outras mulheres também retratadas por Rubens como Inês de Castro e Catarina de Medicis e, salvo erro, a padeira de Aljubarrota, obrigam à vanidade, a um monólogo de ventres dispostos a tudo. Refiro-me a um grande ventre capaz de nos fazer nascer em simultâneo. Insististe: «Não é nenhuma metáfora lingrinhas, trata-se de procurar entender o fraticídio que há nos teus músculos, querer tocar a tua perfeição, sentir as mínimas fibrilhações dos primórdios, perceber a tua alma automática quando surgiu e a estupefação quando a linguagem se silenciou e ficámos com o braço no ar, metralhadora em riste exibindo a condecoração». Encontrámo-nos perseguindo as mesmas situações. Trocámos de papéis frequentemente; bebias como nós, tropeçámos nos mesmos escombros e dizias gostar como nós. Desde então foi um longo passado. Arrastávamo-nos de orgia em orgia com o nosso amigo Baco, muito bêbado a alegrar-nos. Tudo se transformou em pretexto para estarmos juntos. No limite da noite, os géneros são oportunidades e, no limite da intimidade, a impossibilidade de te conhecer. Dizias o mesmo da minha máscara funerária e do afundamento da língua num pântano desértico sem a atmosfera da memória, um templo puro que se desmorona e refaz no instinto da hiena grávida. Ela (ou eu) no musichall, com o pensamento de orangotango, gestos de maestro orangotango, signos de fumo no indefinido (Ω>∂X): amamo-nos como paramécias (Ω} ou como cavalos loucos (X) e Crazy Horses. As “Crazy Horses” amadas por Cavalo Louco (x1), o grande derrotado da linguagem do fumo – o que lhe ficou a dever a poesia? A meio caminho cruzam-me tantas conclusões (fΩ), nas reminiscências de «árvore» enraízam tantas noções; encavalitadas sustentam a descrição dos lugares onde eu estou em branco e não durarei o suficiente para a completar, mas sou ágil e amanhã estarei debaixo de outra árvore escrevendo outro poema (Ω>∂nfc), a minha obra ascende e persistirá e os seus frutos destroem a monstruosidade dos anjos como a linguagem de fumo de Crazy Horse resiste ao vento e à névoa. De resto, nenhuma obra se completa.

o crepúsculo quando o futuro é equívoco

Numa madrugada de inverno, descrevo a minúcia do que sinto perante a cadeira elétrica. Como se a dor me desvendasse ou uma razão se me abrisse, escrevo como se um de nós fosse morrer e escrever decidisse qual. Como se esperássemos numa circunstância impossível de esperar, por isso escrevo. Recordo um companheirismo antigo, contudo um de nós irá morrer e enoja-me sobejar da sua condenação. Ofereceria algumas das minhas oportunidades de sobrevivência se pudesse decidir noutra situação. Assim, sento-me na cadeira elétrica, para não antecipar uma morte, e escrevo por não saber esperar pela vida. Nunca recordo o que escrevo, por isso, na cadeira elétrica, espero um momento de intensa unidade antes de perceber o autêntico significado de morrer. Dou sentido à personagem nas nuvens vermelhas do amanhecer, respiro a música do contraponto de vários ângulos e perfumes; são assim os dias até ao crepúsculo. Sou exterior a mim na cadeira elétrica – poema estável e purificador da ausência de opção e do fim do tempo. Posso assimilar os antecedentes do crime – calafrios contra ou a favor de culpas montanhosas onde alguém cabe tanto como eu. A escrita refaz a descontinuidade poética; a meiga inércia do verso inverte a cadeia de predadores, o grande réptil e o macaco, robotizados na minha mente, colidem. Uma oração de sigilos e escondeduras mordentes imerge na minha fala, dá luz ao meu crânio, mas a escrita é uma alma fora de mim. Por isso a quero. Quero o vento vago e matemático que me dispersa a alma no lodo onde aterro, quero os milhares de rads na beleza epilogal do nascer-do-sol e quero as sílabas que irradia. A própria alta voltagem eventualmente descarregada em mim será o grande ocaso do corpo, o significado definitivo de uma vaga crispada que estagna em pleno salto atravessada pelos raios da própria imaginação. O teorema de Gödel eletrifica a minha ignorância, mas dela não me desculpo. Em deriva pelos caminhos abruptos de Escher, tento que me extraditem para Marte onde, em qualquer ponto, em qualquer instante, a morte e a vida podem ocorrer em pleno numa fórmula musical vertiginosa que podemos ouvir horas a fio como Bach fazia.

do amor por Antónia Rodrigues com pátria e metamorfose

Amo-te, Antónia Rodrigues e amo-te agora mais. Amo-te homem e amo-te mulher, amo-te de Aveiro fugida aos quinze anos das fraldas de São Gonçalinho e fraldiscando pela cidade em busca de uma concha vazia como as cadelas de sal e ovários ruidosos. O que é a identidade perante um horizonte com nada? O que é o nada quando o pai e a mãe são nada? Nascer com nada é estar antes das condições do ser e se, ainda assim, cresceste entre as cadelas de sal, o que te move é uma urtiga numa horta de alfaces, um entrelaçado de urtigas como um boneco de Arcimboldo. Quando os ruidosos ovários desengrenaram, era impossível seres mulher como a padeira de Aljubarrota e amares-me, amares o patrão da salina, o comandante do porto, o barqueiro, o padeiro, os da volúpia, todos, até o capelão. Há uma altura em que temos que escolher ser lagoa ou farol: o cio e o ouro ribombam de forma diferente, mesmo os estrondos do tempo quando nos tocam, a sua astúcia rebenta-nos nas mãos como se roubássemos da vida algo sagrado. Amo-te António Rodrigues espadeirando os mogul em Margão, amo o teu anoitecer franzino quando a seta súbita te derrubou; arranco-ta da carne, da teta comprimida, chupo-te o tutano do sangue, uma quase alma que me irmana e fascina Antónia Rodrigues, amo-te como Algernon S. te poderia amar, tu flagelando a sua cabeça de gaivota.

raciocínio estético com vista à fundamentação de uma ordem translata

Enquanto uma vaca ou uma truta quanto maiores melhor, um humano com mais de 1,90m é um despropósito da natureza, expressão de um defeito genético atávico que fazia crescer para vencer (quando a vida contemporânea mais exige jeito que estatura), ou para ganhar (quando a agricultura está cada vez mais mecanizada), ou para seduzir (quando se multiplicaram as táticas de sedução ao alcance de qualquer baixote). As árvores antes de atingirem 30m são como pedras funerárias perto das pirâmides de Gizé. Olhamo-las como alfaces em evolução e dispomo-nos a esperar 30 anos antes de as admirar como as catedrais nos albergam, não como sombra, mas como mundo. As grandes árvores provam que na materialidade monótona da vida se estabelecem relações submersas que podem atingir as nuvens, podem captar-lhes os seus perfumados eflúvios premonitórios, a fértil humidade dos oceanos sublimados, a energia incorpórea das aves taciturnas. As árvores capturam das nuvens altissonantes a força congregadora de que são feitos alguns poemas – os que dispensam o peso das imagens e fazem o seu caminho de mochila às costas como se não tivessem direção nem propósito. Mas têm. Muitos poemas são como as grandes árvores, profundamente enraizados num conhecimento invisível das coisas. Neles a extensão é como o excesso de estatura num humano cujo programa genético se expandiu num corpo inútil; também o poema teve que mencionar os deuses de palavras mortas como se os quisesse salvar. Ouvimo-lo versificar as sonoridades de danças antigas que perderam os seus mágicos efeitos no destino, recriar-lhes os ritmos, mas aborrecem-nos as rimas internas dos versos, muito redundantes. Fechamos o livro. Vamos até à janela donde avistamos as grandes árvores oscilando ao vento e pensamos se a natureza serve como referencial estético (se nenhuma ideia a poderá substituir, Deus, etc.), se o humano (a medida de todas as coisas) e o artificial não serão as suas referências implícitas ou explícitas. Assim, quando olhamos as pessoas que desfilam ostentando as roupas da moda perguntamos ao que servem corpos tão compridos sujeitos a dietas de saladas de alface e soja – qual o interesse da estatura em corpos que não usamos pela sua força mecânica. Mas não chegamos a contestar a natureza que os engrandeceu – limitamo-nos a achá-los grotescos sinais de uma hereditariedade descontrolada, enquanto numa vacaria onde essa ordem impera, tal como numa aquacultura de trutas, se conseguem triunfos musculares em cada geração como se estivéssemos a produzir atletas olímpicos para filmes pornográficos. Portanto, não subordinamos uma estética do corpo à musculação do mesmo modo que o valor sistémico das pirâmides de Gizé, das catedrais, das grandes árvores se sustém das proporções e não do seu valor pragmático (definimos «musculação» como a decoração do corpo com proteínas – e não com tecido adiposo). Por isso, comparamos o ginásio às grandes unidades de produção proteica e matamos as vacas e as trutas e não os elefantes nem os cachalotes a cuja estatura conferimos uma respeitabilidade estética.

heróis da língua e heróis nacionais

 

Que é a história senão a verdade do tempo, o juízo moral dos que mereceram o triunfo, a conjunção das glórias de uma identidade nacional? Nós, os fracos, precisamos de mitos fortes, precisamos dos nossos heróis do passado e de ver neles a sombra que nos move, de ver na sua alcova variada e intempestiva a indulgência criativa que não nos permitimos, nos seus feitos titânicos ler as manifestações de uma pátria que quer sangue e glória e que só através deles conseguimos amar. A pátria é apenas um solo, uma abstração, uma coincidência de interesses disputados numa paisagem de efeitos demográficos; porque deveríamos amá-la senão por uma autodefesa contra intenções de domínio que projetamos nos vizinhos?, serão semelhantes às que alimentávamos secretamente, nós, os antiparanóicos autorreferenciados de todos os delírios de ruína? Poderá cada cidadão reconstruir os tempos de uma autoidentidade sem aludir aos heróis façanhudos do passado e dizendo sua essa herança?, os panegíricos inflamam a sua alma cobarde; a minha contém uma narrativa empobrecida das fanfarronices de Pêro da Covilhã, de Luís Vaz de Camões, de Fernão Mendes Pinto, de Diogo de Couto e tantos outros desenrascados heróis da nacionalidade com o Afonso Henriques à cabeça bramando com a família. Com que ideia da história combatiam se o tempo tão pouco recuava logo se enublavam as versões? Preferiam-se os mitos que eram mais explícitas narrativas de como, do quase nada, por um encantamento sobre-humano, algo como uma nação surge, uma língua, um deus, uma tecnologia ígnea do controlo das formas, um relato de como os nomes dos signos se configuram nas constelações. Ainda hoje ignoramos porque se manipula a história, porque se organizam as descrições sempre com uma noção de bem e de mal tão mal argumentada e tão mal distribuída. Talvez por isso hoje tenhamos cada vez mais dúvidas sobre se teremos estado sempre do lado dos bons. Não compreendíamos bem as línguas estrangeiras. Os autóctones pareciam-nos tão próximos enquanto humanos que não compreendíamos porque tinham deuses diferentes e julgámos que eram os deuses que impunham uma narrativa das origens e uma cosmogonia acabada e etnocêntrica. Hoje achamos graça ao folclórico porque já não nos surpreende, mas menos aos radicalismos intolerantes que não inventam outra conciliação que no assassinato de todos os infiéis. O conceito de «povo de Deus» é, assim, antipático por ser demasiado exclusivo, deixar de fora a maior parte dos outros humanos o que não é próprio de um deus efetivamente perfeito que deveria ser abrangente e cosmopolita. Se os vencedores, porque triunfaram, detêm um tão descontrolado poder, para que precisam de nos manipular apresentando-nos como boas as suas vis razões? Hoje ainda escrevo em português porque ainda há portugueses nascidos em Portugal que percebem melhor as minhas razões do que as de Shakespeare ou as de Buda, as razões distorcidas onde afundamos a história da nossa comum identidade. Questioná-la é a única manifestação de coragem de que somos capazes, nós os fracos; temos menos a perder, o nosso pensamento precisa de claridade, tolera mal a trafulhice, lemos Os Lusíadas, divertidos, mas com alguma desconfiança.

de como a fonética afeta o nome e este afeta o que acontece

Antes reservávamos para os animais de estimação os nomes medievais que adquiriram, desde então, conotações grotescas. Festejamos o cão com um desses nomes e nele revivemos o guerreiro abrutalhado, nosso antepassado. É assim a simbiose afetiva dos humanos sempre com os nomes pelo meio, mas se convidássemos alguém para jantar e ele nos aparecesse de armadura, elmo e lança em riste não conseguiríamos fazer senão uma leitura fálica do seu aspeto, as suas mensagens verbais interferidas pela barba espessa, os gestos das mãos atrapalhados pelo ranger da armadura. Ainda que nos deixássemos seduzir pelo aparato, é inimaginável a libido encantar-se com um striptease de aço. «Crispim», o seu nome, foi atribuído a um detergente e a um remédio para a flatulência. «Segismundo» não tem a mesma versatilidade; está reservado a nome de código de uma operação policial anticorrupção. Para um cão preferimos menos sílabas. Os conceitos que queremos obscuros como uma fórmula química têm nomes inutilizáveis que podemos substituir por uma designação épica. Por exemplo, à diacetilmorfina chamamos simplesmente «heroína». Mas se a nossa heroína se chamar «Dolosenda», a própria torturante sonoridade do nome nos fará gemer ainda antes de imaginarmos que modelo de cinto de castidade usará e que colaboração nos proporcionará para o arrombar. As fadas têm nomes de virtudes ou nomes bucólicos e musicais enquanto os nomes dos deuses tendem a ser curtos e preparados para uma utilização sinfónica ou operática. Hoje, queremos o melhor para os nossos filhos, queremos uma bondade futurista resistente ao mau gosto e a guerras nucleares, queremos garantir que eles triunfarão ainda que não sejam completamente felizes, ainda que não consigamos figurar todas as implicações do triunfo, nem as suas vantagens nem os seus riscos – é, meramente, um desejo de hegemonia. Assim inauguramos a vida de um filho condecorando-o com um nome que é um vaticínio, um prognóstico. A primeira opção dos pais, se lhe desejam uma vida simples, mas segura, sem sobressaltos nem grandes dificuldades de modo a entrar descansado na vida eterna, é por um nome trivial. Poderão chamar-lhe «José» ou «Maria» ou «Isabel». «Vera» ou «Irina», se for russa, mas se lhe desejamos uma vida aventurosa e apaixonada, sujeita às diatribes do destino, também às vantagens da fortuna, dispomos de nomes como «Alcídia», ou «Jesus», ou «Sócrates», ou, ainda «Samanta», «Cleópatra», «Isadora» e «Frederico» que anunciam viagens preliminares e iniciáticas até uma consumação da vida numa glória inesperada. Este augúrio pode não se verificar, o destino derrapar para fora do que o nome anuncia, o movimento tomar a violência das negações e colocar em risco a vida com o fígado a sangrar, os pulmões incapazes de soprar as palavras, o rosto desfigurado por uma profunda tristeza. Ainda assim, fazemos bem em confiar nas palavras que nos permitem estabelecer complexas interpretações do passado e, por vezes, credíveis prognósticos.

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