Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a anarquia é uma solução difícil

A ANARQUIA É UMA SOLUÇÃO DIFÍCIL   Há momentos em que as pessoas são felizes. Quando se fotografam e querem parecer felizes, todo o seu passado foi feliz, todo o futuro será feliz, todo o seu ser é completamente feliz. A música do sorriso arrasta os pós do humor, a gargalhada solta-se quando se sonham crianças com cócegas. São para serem ouvidos pois trazem atrás milhões de pessoas que se fotografam e precisam da felicidade, precisam de arriscar tudo numa palavra-síntese, pequena e irrefletidamente densa. A mesma sugestão de felicidade simulada numa fotografia: o sorriso supõe, ao menos, a possibilidade (ou a memória) de um tal instante; o slogan anarquista supõe uma felicidade ainda adiada, impedida, mas crida e fanaticamente desejada. Assim o equívoco se delimita: da expressão que sugere e faz existir (mais que virtualmente) ao grito que aniquila (ainda que simbolicamente) uma pesada paternidade. De uma forma abstrata, o que está latente em ambas as situações é a atribuição de graus de probabilidade. Para graus reduzidos dizemos a existência ser «virtual», mas a sua improbabilidade não nos faz sorrir nem gritar na rua; quando aumenta, o inexistente torna-se plausível e, se for desejável, pensamos nele e podemos chegar a sonhá-lo. É o território da ficção nas artes, na literatura, no teatro: constroem-se cenas idílicas num lago bordejado de frondosa vegetação e estátuas de deuses helénicos permissivos. Não faltam as banhistas lascivas posando para um imaginário onanista ou pondo a hipótese de um voyeur escondido. Muitas pessoas são felizes neste território de moderada plausibilidade. Ainda que não, necessariamente, sugestionáveis, deslocaram para o devaneio a questão da sua realização pessoal; preferem não correr riscos externos, controlar todas as variáveis num teatro em que ocupam todos os lugares. Os filósofos defenderiam esta realidade parcial ser indistinguível – quer no plano erótico quer no plano da responsabilidade por um destino planetário – da que envolve um locus decisorium consensualmente existente. Hoje, consideramos o real ser, geralmente, demasiado policiado e demasiado tributado para utilizações não políticas. Tentamos baixar o grau de probabilidade de sermos incomodados, mas todos pertencemos demasiado intimamente a este sistema de punidores-tratadores-vítimas. Professionalizámo-nos nalgum ponto do seu enovelamento burocrático, não sabemos quem evitar ou para onde nos escapar. É este o sentido vulgar de uma manifestação anarquista, próximo de um autorretrato em que a pessoa se isolou do antropocosmos ou de uma cena romântica tributada como luxo em que mais vale não querermos participar.