Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

olá Umberto, queres o meu prémio Nobel?

OLÁ UMBERTO, QUERES O MEU PRÉMIO NOBEL?   Começar em Édipo uma nova história da literatura?, ou começá-la com a Gata Borralheira e a dinâmica racional das invejas e dos narcisismos?, ou com o processo das coisas e levar, em Kafka, as situações ao limite descrevendo, simplesmente, o comportamento do sistema em condições absurdas?, ou com as figuras invisíveis que atuam por interpostas forças e recebem nomes esquisitos? Escritas e alinhadas inúmeras histórias da literatura, só concebemos uma outra com as estruturas narrativas num formato não sequencial: apenas a verdade, insustentavelmente. Quem era Hesíodo? Um Gilgamesh bucólico a contracenar com Ulisses ainda no tempo das contingências, sem um inconsciente coletivo nem nada para plagiar; apenas a verdade sempre do lado dos vencedores. Depois, outros heróis residentes nos astros ou imóveis, separados já da sua história, do seu mito, da sua circunstância, aparecem, desaparecem e, de novo, reaparecem agarrados ao ódio que mantínhamos na mente como autodefesa; e outros, num certo sentido, mais complexos, mais ínvios, mais determinados por crenças e conspirações pouco fundamentadas, mas mais simples, também, pois atingimos com Disney a perfeita articulação dos mitos. Muitos autores desinteressaram-se da ficção, tornaram-se pescadores ou vendedores de imobiliário funerário ou publicitários redatores de curtas mensagens altruístas. Muitos não tinham ultrapassado a previsibilidade tragicómica dos desenlaces amorosos, quanto mais arrevesados e intensos mais previsíveis e, no limite, alguém sucumbe, seja porque não aguentou, seja por efeito literário (fácil). Hoje, sabe-se exatamente como escrever para ser lido. Conseguimos desistir do anterior pretensiosismo e damos à palavra um lugar equivalente ao do rim ou ao do fígado. Temos de dar todo o mérito a Freud e à sua genial simplificação mentalística das tramas novelescas. Tivemos de passar por Shakespeare, complicar as intrigas, enredar os mitos. Os que amam afastam-se, assim definimos «neurose»; os outros, heróis, burlões e vulgares estadistas, criam as interdições e transgridem-nas. Tivemos de fazer os trastes arrependerem-se e não consumarem a traição, assassinatos atrás do reposteiro evitados no último minuto, envenenamentos por engano, amantes que se suicidam quando o herói casa com alguém acabado de chegar à narrativa, assim se constituindo uma normalidade não literária insustentável e aborrecida. Porque, verdadeiramente, a literatura é pôr em causa o destino de modo a abalar até o mais fleumático dos espetadores segundo regras bem inventariadas. É como funciona. Não interessa o que é o cérebro, nem o que é uma palavra para o cérebro, nem a relação do que o cérebro sabe com o que lhe é dito pela linguagem; à literatura só interessa o prémio Nobel da literatura e a Hollywood interessam os grandiosos cenários de inovação que repetem receitas de bilheteira garantidas. Uma nova história da literatura, deveria ser ainda mais sucinta que esta, como, numa fórmula, a demonstração de um teorema não quântico. Os textos que se seguem, que são maximamente relevantes porque referem ao que acontece, são um exemplo da boa literatura do futuro.