Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o entretenimento literário

Tenho-me divertido a argumentar a cotação dos grandes autores: que Homero é maior que Platão, que este vence Cícero na questão dos politeísmos, que a erudição de Montaigne é bafienta, que Bacon era um poderoso cínico, portanto inferior a Goethe cuja ciência era, contudo, datada, que Whitman é melhor na versão Álvaro de Campos, Valery, um madrugador obstinado por Da Vinci que tratava o próprio cérebro como uma máquina de precisão (que várias vezes avariou). Shakespeare ressuscitou o Olimpo em versão darwiniana tal como Pessoa em diversos formatos poéticos. Eram autores intensivos no sentido de terem todos os livros possíveis em permanência na cabeça e tentarem a reescrita dos mitos sem qualquer alusão a Prometeu nem ao fígado de Prometeu que era o seu componente mais humano (em sentido biológico de humano). «Sabedoria» é esta capacidade de fazer afirmações literárias e levá-las até Jesus e Maomé e respetiva bibliografia afundando cada vez mais os argumentos e retornando à superfície num golpe de rins recomendando que cumpram o serviço militar para receberem o grau de doutores honoris causa com um qualquer pretexto. Os autores são múltiplos, os profetas são menos. Uns são apreciados, outros são acreditados, mas, no limite, a intenção da verdade que descubro na ficção aparenta-se à intuição da verdade com que empatizo num profeta – e isto não é andar à volta, é reunir uma vida inteira passada a ler e a ouvir comentários literários numa representação de mim próprio enquanto sábio, isto é, enquanto depositário da sabedoria dos outros autores. Quando me coloco nesta dupla posição torno-me um autor erudito: estabeleço regras de leitura e tenho autoridade para as fazer seguir. A minha própria fé deixa de ser apenas uma crença idiossincrática na transcendência de alguns textos para ser um norma em relação à qual os futuros leitores terão que tomar posição ou, até, plagiar-me. E, contudo, das minhas leituras, dos meus comentários sobre dezenas de autores não se pode nunca depreender uma verdadeira crença em nada do que digam. Nenhum deles representou mais do que uma analogia com qualquer coisa de global que continua indefinível. Quem a compreender pode dizer-se sábio: descobriu um limite para o que pode dizer.