Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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opções urbanísticas na era do vazio

Precisamos de mais palhaços nas ruas, de mais pessoas devotadas ao inespecífico que ajudem a tirar conclusões da enorme quantidade de factos que se nos referem, que o façam numa toada anti-jornalística sem cair no jocoso que esmaga o que ainda poderia ser preservado. Os palhaços sabem iludir a monotonia: podem fazer, às claras, comentários sobre a pose de cada vizinho sentado na retrete como um pensador profissional, mas sem tirar as ilações suficientes de uma posição de domínio tão intransigente; podem aconselhar sobre critérios de retenção mais seletivos e alternativos à obstipação. Tirar coelhos da cartola pode não ser a ocasião, mas pensar o centro e a equidade pode ajudar-nos a reconsiderar, já não falo de Deus que é um máximo inabordável, mas a reconsiderar o lugar da nossa individualidade, porque a prezamos tanto se apenas nos garante uma utilização da escrita mais imprevisível. Eles diriam ser preciso abrir frinchas na objetividade a fim de discernir uma verdadeira dialética criativa que nos permita progredir sem arruinar o sucesso filogenético com atitudes demasiado presunçosas. Nas ruas, precisamos de menos ratos, não precisamos que escavem as colunas dos séculos nem que saiam dos seus esconderijos nos canteiros de gardénias quando passeamos com o cão que não está habituado a surpresas. A familiaridade com as sombras, as frases inacabadas, um espírito que não reconhecemos ou que já não recomendamos não preenchem o nojo por um rato e, contudo, há aversões maiores e mais escondidas que concebemos em continuidade: os morticínios cegos das epidemias, as entranhas obtusas onde a nossa alma pode atuar como um palhaço criando vulgaridades nos recantos onde, emparedadas, jazem as vítimas. Os ratos pertencem a um domínio obsceno. Pensamos o apodrecimento como distribuímos raticida nas zonas da cidade sem recolha de lixo; alguns ratos tanto crescem que ficam vulneráveis como cabras que não entram nas tocas.