Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o uso das coisas

O corpo da mulher está hoje liberto – no sentido em que a maior parte do tempo não precisa de amamentar. Os seios foram libertos e podem ser ostentados e valorizados já não pela eficácia alimentar, mas pela graciosidade suculenta da sua forma. Há uma continuidade funcional no adjetivo «suculenta» aplicado à beleza dos seios, uma oralidade consumista que supõe tratá-los como objetos sujeitos à alarvidade masculina. A mulher quando se decota não imagina o que desencadeia no cérebro automático dos seus admiradores. Usa a sugestão de uma gratificação visual para atrair a atenção, mas um deles, no auge da sua imaginação, confunde a sucção regressiva com a dentada de tigre, os seus maxilares tetanizados, tremelicam com o mamilo chupado e preso nos incisivos, a língua ora surge em morna gelatina que se derrama e escorre e se aplica sobre vastas regiões ora se recolhe à boca e lambe, dedejando os pequenos volumes enrijecidos; e as mãos tacteiam com uma doçura de serpente, mal tocando o peito como se profanassem uma imagem sacra. De súbito, julga não se conseguir mais conter, a tensão rebenta numa força mal doseada que quer ir além do tacto, quer ir além da fruição, da excitação induzida como numa égua faminta que quisesse correr pela pradaria e realizar-se nesse cansaço: as mãos agarram o seio como o pescoço de uma égua com freio nos dentes, tentam controlá-la, que se detenha ou que corra como só ela pode correr para um propósito que só ela pode inventar. Todo este pensar pode ser desencadeado por um movimento de apenas um centímetro no decote do peito que, assim, não acrescentou nenhuma informação visual sobre o peito – o admirador cria a expectativa da nudez e da entrega; interpreta, depois, em espelho, o comportamento dela e atribui-lhe o mesmo fogaz desejo. O peito é mera retórica introdutória, um momento voyeurístico, sobreinvestido, atávico. O aleitamento é um critério de escolha obsoleto, facultativo; o decote é um tabuleiro de xadrez ou um ecrã onde as grandes mães do passado, de baixa estatura, largas ancas e mamas até à cintura, com a prole pulando e gritando, e correndo com o seu homem da gruta, que se deixe de mesuras e vá caçar que os frutos da terra não duram e o leite não chega para todos. Muitos aspetos da cultura assim se configuram nas mamas. Até em algumas mulheres que lutam pelo poder não sabem o que fazer com elas: ora libertam-nas e ostentam-nas soltas como dois tigres da Sibéria gémeos nascidos e criados no circo, passeiam-nos como inofensivos caniches, meros adereços afetivos, ora usam-nas como resquícios de uma natureza injusta em vias de ser corrigida. Entretanto, os admiradores são perseguidos pelos tigres da Sibéria, elas atiçam-nos contra eles e, assim, finda abruptamente o trabalho de imaginação a que se dedicavam.