Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre uma para-moral biológica (alguns raciocínios)

Assim como, por alguma circunstância ou por acaso, o útero que albergou dois ovos se desempenha bem com o dobro da incumbência habitual, muitos outros órgãos passam a vida muito aquém do seu limite funcional. Sem que essa reserva jamais tenha sido utilizada, a pessoa morre por uma causa local e perde-se o que poderia ter rendido muito mais. Rendido o quê? No caso do útero, trata-se de um órgão público ou, pelo menos, municipal que repovoa o território. O seu rendimento é público, mas os restantes órgãos que ganho público proporcionaram? Os pulmões respiraram um oxigénio limitado, o intestino (excepto o dos hindus) digeriu dezenas de vacas, bebeu água e vinho e, com maior ou menor dificuldade e mau-cheiro, excretou os resíduos que custam reciclar; múltiplos outros órgãos adoecem por fumarem ou beberem álcool ou por outra razão. As pessoas zangam-se umas com as outras, insultam-se, agridem-se, qual o seu rendimento? Escreveram um livro, pregaram uma religião, dirigiram uma companhia de seguros ou comandaram um quartel de sapadores-bombeiros? Lavraram e colheram cereais das suas vastas lavouras, construíram bairros-satélites de habitações sociais, satélites de outros bairros-satélites em cidades-satélites em países satélites porque a existência passa satélite de um centro oco, ou virtual, ou omisso, ou obsoleto e, contudo, somos para ele atraídos como insetos suicidas pela luz.