Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

meu caro Kafka

A escrita não quer humanidade; tem dores de dentes ou referências pardas ao atual da mente que é mais ou menos igual ao virtual do real – cair a meio da dança, partir do frontal ao temporal e sucumbir na destemperança do hospital já sem as vogais dos gemidos é um argumento para o destino. Numa noite de temporal partir a mente a rir por amor ao paradoxo: fazer falar o Édipo do Y incógnito, Édipo do triângulo doente, Édipo à chuva como outro cidadão pouco heroico, Édipo em plena intimidade sexual pondo os leitores num clímax sexual arrevesado. Um escritor sabe bem como são monótonos os desenlaces sexuais, claramente recolocando o sublime da paixão ao nível prosaico dos comedores de salchichas e arroz mau-mau. Mas não tem o corpo um referencial alternativo?, as cartas ao pai substituídas por retratos de artistas encapuçados durante as primeiras viagens espaciais tentando do tédio recriar a literatura? Quando o corpo explode e se desfaz temos de o sentar em todas as cadeiras do circo e aplaudir o prestidigitador – o corpo ladra à mãe cigana, ladra aos rivais do pai, ladra aos clientes que o pai enganou e que aparecem de tempos a tempos a recriminá-lo, ladra ao deus que o pai impinge no cabeçalho do mundo. Nesse ladrar se refaz a propulsão de rastros ébrios: é o inconsciente na energia dos gestos pelo ar que anoitece – e, se venta, o que de mim é levado ora insemina as nuvens fatigadas dos desejos obcecados da infância ora espezinha os pais por serem velhos e invencíveis. Relação de sangue: como estancar se um dá o nome e o outro quer a pele, o tesouro, o segredo carpido nas caves temidas. Um exige, o outro exagera, um exagera pois teme que o outro falhe, o outro falha porque teme a exigência: o assassinato é ilegal. Passo a explicar as regras do poder: o poder é a dominação primitiva, como o esplendor de uma vaga faz o mar temível e nos desperta das pedras hieroglíficas do sonho. Julgamos ler inscrições nas muralhas de um porto aleatório, seguir as pegadas dos dinossauros que atravessaram a construção do poema quando uma súbita tempestade prende à falésia milhares de aves, as cagarras da alma enfiadas nos buracos onde a paisagem côncava se projeta com os seus rotundos morangos; o eu dilui-se, o pai morre bilingue no exílio, pulmões a estalar. Bailamos sobre a urina vermelha que tinge o leito da esfinge – é difícil conformar uma atitude face à morte do pai, tudo o que sucede nos envolve numa cadeia extraliterária imprevisível. Queremos, de uma consciência de instantes, refazer a biografia em formato de psicologia ascensional, meramente, escapar do sestro das coisas repentinas, sustos que muscularmente nos separam dos duplos e preparam o fantástico numa razão. Quase cobardia, sabemo-lo, o que nos põe verticais os ossos que temiam deitar-se e estrebuchar no parto de uma lua. O pai recusa-lhe a noiva em trabalho de parto, ele trabalha no meio entre um boneco de madeira e uma massa de porcelana informe que poderia tornar-se bela ou, na eminência de abortar, escrever o nome do pai na nuvem e, mais uma vez, não entregar a carta. O lixo confina: amendoeiras, figos maduros, casas coloridas: pesam como promessas monetárias que os sonhos não acompanham. Todos fomos assediados e traídos; dentro de casa, por vezes, desde o berço, fugir com os filhos e os amigos mais fieis; passar longos períodos em economia de guerra segundo códigos justinianos obsoletos. Escrever é atravessar o vazio a inventar o vazio, descobrir na extrema fadiga da obsessão o enrolamento do pensamento e, quando procuramos o espelho, vemos ainda o vazio e, na nossa própria sombra, palavras perdidas de nós, mas longe do veludo magnético de jardins confiscados onde nos imaginamos a interpelar o pai à frente de uma máquina de jogar.