Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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a Ursa Maior

O touro também é, como nós, uma massa muscular arrevesada em certas ocasiões. Combate inimigos estabelecidos que o mitificam: sobre ele recai o ónus de uma virilidade nunca suficientemente atestada. Mas para quê? Para o tumulto da paixão como o sol arde e é imenso e o que dá incha-nos o corpo. A Ursa Maior não é um signo, é um pormenor celeste ordenado a partir da imensidão. Não especulamos sobre o que nos influencia, é, apenas, uma referência para quem viaja de noite, mas outras constelações afetam a nossa dignidade, a nossa coragem intrépida, a doçura com que falamos de amor e, até, como contamos o dinheiro. Todos os destinos tiveram origens omissas, enquanto os continentes são grandes porções de fogo caraterizadas por um futuro específico com uma particular toada trágica, podem ter o nome de uma princesa fenícia ou negarem, nos seus limites, existir frio e horror. Ou outros étimos: as mulheres belas inspiraram os trabalhos e os dias, até dos deuses que as raptavam e as perseguiam se não conseguiam seduzi-las com artimanhas. Desde logo porque o poder seduz, um touro branco seduz, convida que o montem e passeiem pelos jardins à espera que se metamorfoseie num esplendoroso príncipe. O touro morre por afogamento na sua unidade, o seu futuro tornou-se concreto, petrificou os seus vaticínios nas estrelas de uma constelação, mas as adivinhações falham, acreditamos e falham: do simbolismo do touro nenhum efeito sobre o trágico desenlace da paixão. Esta também nada influenciou o touro nem nada influencia o respetivo horóscopo o que esvazia a noção olímpica de destino adivinhável embora as coisas escritas no vento devam ser cumpridas e mantida a lógica do universo no que toca à relação entre as constelações. Quanto ao mais, não precisamos do touro: nós somos a imagem da nossa bestialidade.