Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

metaliteratura

Agora que está escrito o texto, o que comunica?, e com quem? Expõe, manifestamente, uma atitude para com os insetos e defende um estatuto privilegiado para os humanos na biosfera, mas é comunicação o seu propósito?, ou, antes, através do texto, construir uma atitude face à morte e aos sistemas em que a vida se insere – a escrita como autoconstrução de aspetos da sabedoria? Nenhuma transcendência: é o processo que traz ao papel o que não se configurara nem na consciência nem na voz – um passo num movimento da mente para a totalidade e para o reconhecimento dos limites do entendimento. Para o reconhecimento dos limites do sentido o qual não é uma fórmula explícita, mas um sentimento de intimidade com as coisas, da harmonia das suas relações e das tensões entre as forças que as movem. Matei a traça porque pude fazê-lo, um atavismo como tantos outros que não submergiram na simbolização com que a cultura cobre os gestos. Não os lamento. O texto sobre a morte da traça retoma a dignidade aeronáutica da traça, a sua evoluída morfologia fusiforme, a mecânica adejante da sustentação no ar – e lastima a precariedade dos seus processos de navegação noturna que acabaram por ser fatais. Não consigo ir mais além. Prezo o mecanismo da vida, embora a traça morta me seja mais simpática do que ruidosamente viva.

sobre a literatura sapiencial

Lamento quase profundamente a morte desta grande traça que durante a noite escabeceava ruidosamente contra as paredes do meu quarto. De noite as ressonâncias ganham uma sonoridade mais nítida, capaz de evocações turbulentas que dificultam o sono, especialmente antes do encontro com o seu agente. Cada humano coloca-se perante a vida numa posição de árbitro: diz defendê-la, mas reservando-se o direito de eliminar traças, pulgas, moscas que considera vãs perturbações da harmonia natural, também de arrasar uma floresta para plantar batatas, de eliminar as ervas que perturbam o seu roseiral ou de, por razões estéticas, cortar as ramagens de um cedro centenário. Da mesma forma, caça já não para se alimentar, mas por um secreto prazer tanático que justifica servir a redução de populações de espécies que ameaçam as suas plantações. O ser humano é complexo e abstemo-nos de o julgar, abstemo-nos até de uma literatura sapiencial de máximas prescritivas que exploram os paradoxos para veicularem normas de boa cidadania e defenderem a higiene e saúde mental dos cidadãos. Incide sobre momentos de passagem como a alegria da paixão, o nascimento de um filho, de uma orquídea ou de um bezerro, a admiração perante um pôr-do-sol ou perante a complexidade de uma termiteira – ou perante a morte. A literatura sapiencial refaz-se em conjeturas sem, verdadeiramente acrescentar qualquer informação sobre estes assuntos, limita-se a recomendar atitudes e a fórmulas que servem a nossa perplexidade. No entanto, há uma especial avidez desta literatura, fácil de citar talvez porque perante cada aforismo é fácil posicionarmo-nos enquanto num ensaio o autor argumenta com tanta erudição que nos é difícil julgá-lo. Tenho bem presente toda a literatura budista sobre o assunto, mas quando estou perante o mosquito antecipo que me vai morder e mato-o. Não concebo nenhuma pena menor: mutilá-lo, prendê-lo preventivamente durante esta noite e exilá-lo depois. Não. Mato-o e aos acompanhantes. Perante certos crimes hediondos humanos aflora-nos uma atitude de repulsa que só a morte satisfaz, mas corrigimos de imediato civilizadamente embora matar, em certos casos, suponha um amor ao sistema no sentido em que visa corrigir ou amputar as excrescências malévolas que o próprio sistema gera. Mas será que temos uma visão suficientemente abrangente do sistema para podermos, em absoluto, julgar o que sejam erros da criação e eliminá-los? Perante a traça o meu gesto foi espontâneo o que não diminui a sua responsabilidade natural, mas como julgar um bombista suicida ou um grande matador em série em particular se tem um tumor na amígdala que lhe causa o impulso de matar num país onde as armas se vendem ao lado do presunto e dos detergentes no supermercado? Morta a traça o que se alterou? Uma máxima mil vezes citada o que alterou? Civilizou? Esclareceu? Fez melhor viver? Ao menos, causou agrado estético? Ótimo: as coisas humanas servem aos humanos e a criação das traças, não sendo humana, não serve senão a elas mesmas o que não é, em si, respeitável.