Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

os gregos

Quando comecei a última versão da minha teoria geral da evidência não pensei que abarcasse temas como a comunicação interestelar, ou os mecanismos microscópicos da audição musical, ou o domínio de género através do próprio prazer da submissão e que este seria estendido às análises políticas da estabilidade dos regimes. Tentei limitar a «evidência» segundo um critério da sua relevância histórica, definindo nitidamente, portanto, as linhas da hominização sem me deixar confundir pelos artefactos e engenhocas protésicas que o homem cria com pretextos tão variados quanto implausíveis e, contudo, bastante performativos. A evidência são os grandes cataclismos meteorológicos, são as alterações climáticas das glaciações e do degelo das calotes polares, são os sismos e os maremotos, as centrais nucleares e as fábricas de refrigerantes e, em menor escala, as maternidades e todas as instituições dedicadas às tecnologias de reprodução, excluído os prostíbulos. E porquê excluí-los?, perguntarão. Por uma questão de decência científica. Existem zonas da vontade anteriores à consciência da decisão: o que pensar de tantos excelentes cidadãos, ótimos maridos e pais de filhos que os frequentam e quanto mais fruem o sexo comprado mais culpa sentem e melhores maridos são? Embora este inconsciente não seja evidente, são-no algumas das suas manifestações que, no limite, podem levar à prisão perpétua. Nesse caso, perguntarão, qual a justificação de uma pedagogia de contingências e punições? A que serve a cadeira elétrica, a chicotada, as multas de trânsito? Para atemorizar os que cumprem para que continuem cumprindo; para que haja paz, aquiescência e bem-estar. Mas nada disso é evidente, argumentarão, nem sequer é evidente a consciência senão pelo que em mim se espelha, nem o medo da punição difere de uma moral kantiana, nem a paz democrática difere da fascista, e o bem-estar vai e vem tanto para os justos como para os sociopatas. Aqui a única resposta que mantém alguma lógica racional é de que não estamos a tratar de uma teoria geral da inevidência embora o nosso cérebro pareça ainda melhor preparado para ela do que para o que nos entra pelos olhos adentro, melhor preparado em todos os sentidos. Não existem monumentos maiores do que os funerários dedicados à vida eterna, não existem maiores recintos que os destinados à oração e à adoração dos deuses, nada, na contemporaneidade, nos acalora como as grandiosas manifestações desportivas em grandes estádios construídos para o efeito; qual a evidência da vida eterna ou da reencarnação, dos deuses ou das civilizações inteligentes extraterrestres, qual a evidência de que o desporto sirva qualquer tipo de mérito ou que dignifique a sociedade. Assim, acabo como comecei: assim como os gregos iniciaram as olimpíadas e a competição gratuita que leva os corpos a uma musculação inestética (corpos de lançar dardos, corpos de saltar com vara, corpos de atirar longe um disco pesado, corpos de combater segundo regras que contêm a violência que a própria disputa cria) também foram os gregos que primeiro formularam os problemas que ainda hoje nos apoquentam sem que as soluções tenham estabilizado, o que faz pensar que os problemas nos encantam pela sua candura poética, mas é inevidente o seu relevo histórico a não ser porque nos põem a falar de coisas inevidentes.