Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

na torre de Babel

Sou um pedagogo da anti-pedagogia, um experimentador cético das evidências sociais, um clínico amante do que se desfaz sem qualquer programa de derrocada. Isto que sou não me impede de ser outras coisas, simultânea ou sucessivamente, por isso as tomo apenas como um ponto de partida, um exoesqueleto que pode ser adaptado a papéis diversos e ao transporte de várias cargas. Um pedagogo é um visionário transformador de monstros informes em humanos cada um capaz de executar o seu destino; é um lapidador destas almas atávicas que me olham como a causa da incompreensibilidade do mundo, de uma maldade parental que colide com o óbvio e os esquizofreniza, de um inventor da pluralidade de significados das palavras; o que diz que todas as frases tem um sujeito invulnerável e que devemos imitá-lo; que devemos, pelo menos, pormo-nos de acordo e que nem todas as ações tem o mesmo mérito. Este é o momento delicado da pedagogia, é quando todas as teorias nos seduzem como as bolas luminosas penduradas na árvore de Natal nos parecem todas verdadeiras e meritórias e, contudo, algumas delas terão de ser retiradas para dar lugar aos outros enfeites. E sabemos que nem sempre a pedagogia dá bons resultados. Por vezes, o que destrói com as melhores intenções (desbravar como um colonizador) seria o berço de uma regeneração teórica transcientífica e pluriliterária que são conceitos a definir por outro autor noutro lugar. E é preciso progredir, para isso, confiar que alguma coisas resultará e que a matéria discente se recomporá da nocividade do que, por preguiça ou por medo, omitimos, seja porque nunca pensámos – ou simplesmente por não acreditarmos que fosse possível pensar isso que omitimos; seja porque omitir parece menos mau do que criar com o risco de errar. Um pedagogo hesita frente a essa matéria discente que o enfrenta como se ele representasse todos os erros do passado e a humanidade devesse ter tomado outro destino séculos atrás, que o acha velho e arrogante e inútil como um extraterrestre pouco inteligente, que o escuta, ocasionalmente, como esperasse dele uma nova luz sobre as coisas que os pais disseram incompreensíveis porque têm medo, que disseram que são assim porque assim o foram sempre ou que tratam como uma questão de submissão a uma autoridade benévola. Têm sempre medo os pais, medo, sobretudo, que o filho não cumpra o que esperam dele – e esperam sempre demais. Cabe ao pedagogo aliviar os filhos desta pesada carga. Ele espera apenas que cada aluno se faça; faça alguma coisa de si, no mínimo que use o que lhe foi ensinado, mas, preferencialmente, que perceba o que está obsoleto, o que faltou, o que é incoerente, o que deve ser escrito por cima. Sim, cada aluno deve assassinar o seu professor.