Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

de como a fonética afeta o nome e este afeta o que acontece

Antes reservávamos para os animais de estimação os nomes medievais que adquiriram, desde então, conotações grotescas. Festejamos o cão com um desses nomes e nele revivemos o guerreiro abrutalhado, nosso antepassado. É assim a simbiose afetiva dos humanos sempre com os nomes pelo meio, mas se convidássemos alguém para jantar e ele nos aparecesse de armadura, elmo e lança em riste não conseguiríamos fazer senão uma leitura fálica do seu aspeto, as suas mensagens verbais interferidas pela barba espessa, os gestos das mãos atrapalhados pelo ranger da armadura. Ainda que nos deixássemos seduzir pelo aparato, é inimaginável a libido encantar-se com um striptease de aço. «Crispim», o seu nome, foi atribuído a um detergente e a um remédio para a flatulência. «Segismundo» não tem a mesma versatilidade; está reservado a nome de código de uma operação policial anticorrupção. Para um cão preferimos menos sílabas. Os conceitos que queremos obscuros como uma fórmula química têm nomes inutilizáveis que podemos substituir por uma designação épica. Por exemplo, à diacetilmorfina chamamos simplesmente «heroína». Mas se a nossa heroína se chamar «Dolosenda», a própria torturante sonoridade do nome nos fará gemer ainda antes de imaginarmos que modelo de cinto de castidade usará e que colaboração nos proporcionará para o arrombar. As fadas têm nomes de virtudes ou nomes bucólicos e musicais enquanto os nomes dos deuses tendem a ser curtos e preparados para uma utilização sinfónica ou operática. Hoje, queremos o melhor para os nossos filhos, queremos uma bondade futurista resistente ao mau gosto e a guerras nucleares, queremos garantir que eles triunfarão ainda que não sejam completamente felizes, ainda que não consigamos figurar todas as implicações do triunfo, nem as suas vantagens nem os seus riscos – é, meramente, um desejo de hegemonia. Assim inauguramos a vida de um filho condecorando-o com um nome que é um vaticínio, um prognóstico. A primeira opção dos pais, se lhe desejam uma vida simples, mas segura, sem sobressaltos nem grandes dificuldades de modo a entrar descansado na vida eterna, é por um nome trivial. Poderão chamar-lhe «José» ou «Maria» ou «Isabel». «Vera» ou «Irina», se for russa, mas se lhe desejamos uma vida aventurosa e apaixonada, sujeita às diatribes do destino, também às vantagens da fortuna, dispomos de nomes como «Alcídia», ou «Jesus», ou «Sócrates», ou, ainda «Samanta», «Cleópatra», «Isadora» e «Frederico» que anunciam viagens preliminares e iniciáticas até uma consumação da vida numa glória inesperada. Este augúrio pode não se verificar, o destino derrapar para fora do que o nome anuncia, o movimento tomar a violência das negações e colocar em risco a vida com o fígado a sangrar, os pulmões incapazes de soprar as palavras, o rosto desfigurado por uma profunda tristeza. Ainda assim, fazemos bem em confiar nas palavras que nos permitem estabelecer complexas interpretações do passado e, por vezes, credíveis prognósticos.