Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

raciocínio estético com vista à fundamentação de uma ordem translata

Enquanto uma vaca ou uma truta quanto maiores melhor, um humano com mais de 1,90m é um despropósito da natureza, expressão de um defeito genético atávico que fazia crescer para vencer (quando a vida contemporânea mais exige jeito que estatura), ou para ganhar (quando a agricultura está cada vez mais mecanizada), ou para seduzir (quando se multiplicaram as táticas de sedução ao alcance de qualquer baixote). As árvores antes de atingirem 30m são como pedras funerárias perto das pirâmides de Gizé. Olhamo-las como alfaces em evolução e dispomo-nos a esperar 30 anos antes de as admirar como as catedrais nos albergam, não como sombra, mas como mundo. As grandes árvores provam que na materialidade monótona da vida se estabelecem relações submersas que podem atingir as nuvens, podem captar-lhes os seus perfumados eflúvios premonitórios, a fértil humidade dos oceanos sublimados, a energia incorpórea das aves taciturnas. As árvores capturam das nuvens altissonantes a força congregadora de que são feitos alguns poemas – os que dispensam o peso das imagens e fazem o seu caminho de mochila às costas como se não tivessem direção nem propósito. Mas têm. Muitos poemas são como as grandes árvores, profundamente enraizados num conhecimento invisível das coisas. Neles a extensão é como o excesso de estatura num humano cujo programa genético se expandiu num corpo inútil; também o poema teve que mencionar os deuses de palavras mortas como se os quisesse salvar. Ouvimo-lo versificar as sonoridades de danças antigas que perderam os seus mágicos efeitos no destino, recriar-lhes os ritmos, mas aborrecem-nos as rimas internas dos versos, muito redundantes. Fechamos o livro. Vamos até à janela donde avistamos as grandes árvores oscilando ao vento e pensamos se a natureza serve como referencial estético (se nenhuma ideia a poderá substituir, Deus, etc.), se o humano (a medida de todas as coisas) e o artificial não serão as suas referências implícitas ou explícitas. Assim, quando olhamos as pessoas que desfilam ostentando as roupas da moda perguntamos ao que servem corpos tão compridos sujeitos a dietas de saladas de alface e soja – qual o interesse da estatura em corpos que não usamos pela sua força mecânica. Mas não chegamos a contestar a natureza que os engrandeceu – limitamo-nos a achá-los grotescos sinais de uma hereditariedade descontrolada, enquanto numa vacaria onde essa ordem impera, tal como numa aquacultura de trutas, se conseguem triunfos musculares em cada geração como se estivéssemos a produzir atletas olímpicos para filmes pornográficos. Portanto, não subordinamos uma estética do corpo à musculação do mesmo modo que o valor sistémico das pirâmides de Gizé, das catedrais, das grandes árvores se sustém das proporções e não do seu valor pragmático (definimos «musculação» como a decoração do corpo com proteínas – e não com tecido adiposo). Por isso, comparamos o ginásio às grandes unidades de produção proteica e matamos as vacas e as trutas e não os elefantes nem os cachalotes a cuja estatura conferimos uma respeitabilidade estética.

heróis da língua e heróis nacionais

 

Que é a história senão a verdade do tempo, o juízo moral dos que mereceram o triunfo, a conjunção das glórias de uma identidade nacional? Nós, os fracos, precisamos de mitos fortes, precisamos dos nossos heróis do passado e de ver neles a sombra que nos move, de ver na sua alcova variada e intempestiva a indulgência criativa que não nos permitimos, nos seus feitos titânicos ler as manifestações de uma pátria que quer sangue e glória e que só através deles conseguimos amar. A pátria é apenas um solo, uma abstração, uma coincidência de interesses disputados numa paisagem de efeitos demográficos; porque deveríamos amá-la senão por uma autodefesa contra intenções de domínio que projetamos nos vizinhos?, serão semelhantes às que alimentávamos secretamente, nós, os antiparanóicos autorreferenciados de todos os delírios de ruína? Poderá cada cidadão reconstruir os tempos de uma autoidentidade sem aludir aos heróis façanhudos do passado e dizendo sua essa herança?, os panegíricos inflamam a sua alma cobarde; a minha contém uma narrativa empobrecida das fanfarronices de Pêro da Covilhã, de Luís Vaz de Camões, de Fernão Mendes Pinto, de Diogo de Couto e tantos outros desenrascados heróis da nacionalidade com o Afonso Henriques à cabeça bramando com a família. Com que ideia da história combatiam se o tempo tão pouco recuava logo se enublavam as versões? Preferiam-se os mitos que eram mais explícitas narrativas de como, do quase nada, por um encantamento sobre-humano, algo como uma nação surge, uma língua, um deus, uma tecnologia ígnea do controlo das formas, um relato de como os nomes dos signos se configuram nas constelações. Ainda hoje ignoramos porque se manipula a história, porque se organizam as descrições sempre com uma noção de bem e de mal tão mal argumentada e tão mal distribuída. Talvez por isso hoje tenhamos cada vez mais dúvidas sobre se teremos estado sempre do lado dos bons. Não compreendíamos bem as línguas estrangeiras. Os autóctones pareciam-nos tão próximos enquanto humanos que não compreendíamos porque tinham deuses diferentes e julgámos que eram os deuses que impunham uma narrativa das origens e uma cosmogonia acabada e etnocêntrica. Hoje achamos graça ao folclórico porque já não nos surpreende, mas menos aos radicalismos intolerantes que não inventam outra conciliação que no assassinato de todos os infiéis. O conceito de «povo de Deus» é, assim, antipático por ser demasiado exclusivo, deixar de fora a maior parte dos outros humanos o que não é próprio de um deus efetivamente perfeito que deveria ser abrangente e cosmopolita. Se os vencedores, porque triunfaram, detêm um tão descontrolado poder, para que precisam de nos manipular apresentando-nos como boas as suas vis razões? Hoje ainda escrevo em português porque ainda há portugueses nascidos em Portugal que percebem melhor as minhas razões do que as de Shakespeare ou as de Buda, as razões distorcidas onde afundamos a história da nossa comum identidade. Questioná-la é a única manifestação de coragem de que somos capazes, nós os fracos; temos menos a perder, o nosso pensamento precisa de claridade, tolera mal a trafulhice, lemos Os Lusíadas, divertidos, mas com alguma desconfiança.