Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

do amor por Antónia Rodrigues com pátria e metamorfose

Amo-te, Antónia Rodrigues e amo-te agora mais. Amo-te homem e amo-te mulher, amo-te de Aveiro fugida aos quinze anos das fraldas de São Gonçalinho e fraldiscando pela cidade em busca de uma concha vazia como as cadelas de sal e ovários ruidosos. O que é a identidade perante um horizonte com nada? O que é o nada quando o pai e a mãe são nada? Nascer com nada é estar antes das condições do ser e se, ainda assim, cresceste entre as cadelas de sal, o que te move é uma urtiga numa horta de alfaces, um entrelaçado de urtigas como um boneco de Arcimboldo. Quando os ruidosos ovários desengrenaram, era impossível seres mulher como a padeira de Aljubarrota e amares-me, amares o patrão da salina, o comandante do porto, o barqueiro, o padeiro, os da volúpia, todos, até o capelão. Há uma altura em que temos que escolher ser lagoa ou farol: o cio e o ouro ribombam de forma diferente, mesmo os estrondos do tempo quando nos tocam, a sua astúcia rebenta-nos nas mãos como se roubássemos da vida algo sagrado. Amo-te António Rodrigues espadeirando os mogul em Margão, amo o teu anoitecer franzino quando a seta súbita te derrubou; arranco-ta da carne, da teta comprimida, chupo-te o tutano do sangue, uma quase alma que me irmana e fascina Antónia Rodrigues, amo-te como Algernon S. te poderia amar, tu flagelando a sua cabeça de gaivota.