Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o crepúsculo quando o futuro é equívoco

Numa madrugada de inverno, descrevo a minúcia do que sinto perante a cadeira elétrica. Como se a dor me desvendasse ou uma razão se me abrisse, escrevo como se um de nós fosse morrer e escrever decidisse qual. Como se esperássemos numa circunstância impossível de esperar, por isso escrevo. Recordo um companheirismo antigo, contudo um de nós irá morrer e enoja-me sobejar da sua condenação. Ofereceria algumas das minhas oportunidades de sobrevivência se pudesse decidir noutra situação. Assim, sento-me na cadeira elétrica, para não antecipar uma morte, e escrevo por não saber esperar pela vida. Nunca recordo o que escrevo, por isso, na cadeira elétrica, espero um momento de intensa unidade antes de perceber o autêntico significado de morrer. Dou sentido à personagem nas nuvens vermelhas do amanhecer, respiro a música do contraponto de vários ângulos e perfumes; são assim os dias até ao crepúsculo. Sou exterior a mim na cadeira elétrica – poema estável e purificador da ausência de opção e do fim do tempo. Posso assimilar os antecedentes do crime – calafrios contra ou a favor de culpas montanhosas onde alguém cabe tanto como eu. A escrita refaz a descontinuidade poética; a meiga inércia do verso inverte a cadeia de predadores, o grande réptil e o macaco, robotizados na minha mente, colidem. Uma oração de sigilos e escondeduras mordentes imerge na minha fala, dá luz ao meu crânio, mas a escrita é uma alma fora de mim. Por isso a quero. Quero o vento vago e matemático que me dispersa a alma no lodo onde aterro, quero os milhares de rads na beleza epilogal do nascer-do-sol e quero as sílabas que irradia. A própria alta voltagem eventualmente descarregada em mim será o grande ocaso do corpo, o significado definitivo de uma vaga crispada que estagna em pleno salto atravessada pelos raios da própria imaginação. O teorema de Gödel eletrifica a minha ignorância, mas dela não me desculpo. Em deriva pelos caminhos abruptos de Escher, tento que me extraditem para Marte onde, em qualquer ponto, em qualquer instante, a morte e a vida podem ocorrer em pleno numa fórmula musical vertiginosa que podemos ouvir horas a fio como Bach fazia.