Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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linguagem de fumo

«Quando descobriste a minha gravidez, os anjos uivaram enfurecidos, os cães rodopiavam como ciclones de pó e um alarido interrompeu o banquete. As mulheres cercaram-nos de saracoteios e mesuras. A orquestra alucinava o que pudéssemos pensar». Ninguém acreditou como nas disputas entre heróis de uma região sem nome. Diziam: «O amor sublime é um teatro inventado para pessoas na eminência de desaparecer». Sabemos que muitos amantes tentam refazer-se em cada encontro, por isso, são exuberantes os gestos prévios. No nosso caso, os gestos indiferenciaram-nos: útero e mente indistintos como numa linguagem equipotente. Outras mulheres também retratadas por Rubens como Inês de Castro e Catarina de Medicis e, salvo erro, a padeira de Aljubarrota, obrigam à vanidade, a um monólogo de ventres dispostos a tudo. Refiro-me a um grande ventre capaz de nos fazer nascer em simultâneo. Insististe: «Não é nenhuma metáfora lingrinhas, trata-se de procurar entender o fraticídio que há nos teus músculos, querer tocar a tua perfeição, sentir as mínimas fibrilhações dos primórdios, perceber a tua alma automática quando surgiu e a estupefação quando a linguagem se silenciou e ficámos com o braço no ar, metralhadora em riste exibindo a condecoração». Encontrámo-nos perseguindo as mesmas situações. Trocámos de papéis frequentemente; bebias como nós, tropeçámos nos mesmos escombros e dizias gostar como nós. Desde então foi um longo passado. Arrastávamo-nos de orgia em orgia com o nosso amigo Baco, muito bêbado a alegrar-nos. Tudo se transformou em pretexto para estarmos juntos. No limite da noite, os géneros são oportunidades e, no limite da intimidade, a impossibilidade de te conhecer. Dizias o mesmo da minha máscara funerária e do afundamento da língua num pântano desértico sem a atmosfera da memória, um templo puro que se desmorona e refaz no instinto da hiena grávida. Ela (ou eu) no musichall, com o pensamento de orangotango, gestos de maestro orangotango, signos de fumo no indefinido (Ω>∂X): amamo-nos como paramécias (Ω} ou como cavalos loucos (X) e Crazy Horses. As “Crazy Horses” amadas por Cavalo Louco (x1), o grande derrotado da linguagem do fumo – o que lhe ficou a dever a poesia? A meio caminho cruzam-me tantas conclusões (fΩ), nas reminiscências de «árvore» enraízam tantas noções; encavalitadas sustentam a descrição dos lugares onde eu estou em branco e não durarei o suficiente para a completar, mas sou ágil e amanhã estarei debaixo de outra árvore escrevendo outro poema (Ω>∂nfc), a minha obra ascende e persistirá e os seus frutos destroem a monstruosidade dos anjos como a linguagem de fumo de Crazy Horse resiste ao vento e à névoa. De resto, nenhuma obra se completa.