Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o meu jardim

Tento, no meu jardim, um conluio das plantas espontâneas (vulgo «daninhas») com as de maior nobreza que foram plantadas para dar prazer. Nota-se uma tendência a atribuir delicadeza e sublimidade às plantas de viveiro, talvez por uma questão de hospitalidade devida às entidades estrangeiras que vêm com o seu exótico alegrar a nossa monotonia; assim, a tendência a menosprezar as autóctones, o jasmim, o rosmaninho, até um sobreiro ou um imponente castanheiro para não mencionar as que esverdinham os solos cada primavera. Os brincos-de-princesa ou as orquídeas, um cipreste italiano não dão maior prazer que a inflorescência ruborescente das papoilas espontâneas que lembram outras vindas não sei de qual oriente. O cérebro semeia contrastes e constrói, consentaneamente, uma ação repressiva contra os desfavorecidos do seu agrado. Pode ser que tudo seja arbitrário num jardim e se deva submeter a uma domesticação maniqueísta. Até nos parques naturais e nas reservas florestais os ursos e os javalis serem treinados para preferirem ração e não comerem os veados nem estragarem os malmequeres. Um poeta deve alargar as categorias do agrado, examiná-las de vários ângulos como um comprador de diamantes e, ainda assim, sempre que arranca uma erva espontânea deve ter consciência da ilegitimidade do ato. Não pode, como um vulgar colonialista do século XIX, empurrar os autóctones para fora de um território que ocupou à margem da lei natural ou, simplesmente, exterminá-los para dar espaço às suas plantações sem nunca tentar a miscigenação, como tento fazer no meu jardim. A grande constatação histórica é que cada exterminador tem a sua legitimidade e mesmo uma moralidade mais ou menos adaptada ao que faz, donde decorre a categoria de «daninho» para tudo o que lhe desagrada. As ervas daninhas provocam um prazer surpreendente. Claro que a beleza das rosas ou o exótico da orquídea, ainda que previsíveis, premeiam o jardineiro com uma espécie de autoria deliciada, mas soberba em relação à passividade contemplativa de um passeio num bosque. Aí tudo é espontâneo e não dizemos «daninho» dessa ordem que o jardineiro repele. No meu jardim, o cérebro não funciona com antinomias, pede desculpa às plantas espontâneas de introduzir estranhos nos seus domínios. Pede-lhes que permitam ser ele a arbitrar a miscigenação sem, contudo, delimitar canteiros nem interditar zonas reservadas aos passeantes tal como, ao escrever um poema, o poeta junta aos seus plágios algumas formas que nascem da própria poesia.