Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

devaneio quando anoitece e o visual se indistingue

Gosto de olhar a transparência daquela árvore, as suas húmidas emoções cuidadosamente coordenadas com as minhas pequenas visões que pendem de sucos sonambúlicos. Vácuo, troncos e sombras preenchem a arquitetura espúria da noite, os olhos soltam-se e procuram zonas de significação na transparência inconsciente das pré-existências. Podemo-nos colocar a bordo de um porta-aviões obsoleto a caminho de Marte ou espreitar, no peito, os espasmos retorcidos do desejo. Uma mulher de branco cujas folhas cintilam com o vento que as desabotoa na minha memória de gozos destaca-se da transparência, mas não me permito dizer que exista: as suas cores são fugidias embora perfumes de penetrantes cócegas me espiralem na pele (o semantismo tal como o voyeurismo ou o anarquismo conceptual são pré-visualizações do desejo no outro polo da utopia) e ancoram no vislumbre do impossível, mas é por onde trepo inventando sexos inopinados. Num relance, sai do estatuto de Bela Adormecida e, à entrada nas Mil e Uma Noites sorri concedendo-me tudo, levando-me no ínfimo poema da duração de um eu fundido com paramécias que não pensam em si. Tudo é relativo, dizem os jardineiros conscientes das suas petições de princípio. São mundos que não se entrecruzam, as suas imunidades e preconceitos produzem efeitos avulsos, por isso ele pode dizer que o mundo é das árvores, depois é dos gatos nos roseirais e dos animais dos canos subterrâneos a partir dos quais descrevemos o contra-mundo intranscritível do silêncio. São os momentos das coisas inexplicáveis, o miar noturno das árvores separa a significação dos sons e o sonho é a pura expressão do amar nas sinapses dos cedros cujas sombras esbracejantes regressam ao objeto e a uma sobrerrealidade convincente: o contexto nominal da convicção: toneladas de dicionários atirados de chofre para os cones dos meus olhos. Tenho nas retinas a superfície da história, a mecânica da sua sonoridade, os voos arrevesados dos seus preconceitos; a música de um vómito pode ser uma flor concubinando com um vaso de guerra, uma borboleta que atravessa a noite com uma titubeante majestade ou, feminina, a noite diluída numa metafísica quase muda que se funde na nosso próprio desconhecimento. Pode ser, também, a culinária nuclear já prestes a vir-se num anjo boquiaberto – é como as coisas acontecem; nunca percebemos se o que parece bom para a humanidade é bom para o planeta – pode não ser bom para a humanidade nem para o planeta, mas a história é uma noite opaca e a ecologia uma árvore exótica num jardim nem sempre bem comportado.