Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a Blavatsky

Gostaria de explicar tudo desde o princípio sem ter de dizer inexplicável o próprio princípio, mas se o dissesse inexplicável e impenetrável não o diria ilimitado e eterno pois seria desde logo criar condições adversas ao pensamento e a principal tarefa da literatura passa-se num recreio cósmico onde recriamos contingentes reincarnações. É difícil demonstrar que no futuro seremos super-homens; as tendências apontam em direções divergentes e, na verdade, as observações de Darwin não foram exaustivas ao nível do humano, mas já não gostamos do conceito de «raça superior» porque não sabemos como utilizá-lo de uma forma não catastrófica. Também ninguém se sente bem na categoria subentendida de «inferior» e a própria definição biológica de «raça» já não suporta campos de extermínio e a própria limpeza étnica é uma deriva mais suave assente em antipatias pelas idiossincrasias entre grupos, também mal aceite. Assim, o avanço do espírito de reincarnação em reincarnação era uma verdadeira evolução das espécies no sentido otimista e diferente da metempsicose. A questão do princípio só é relevante como ponto final do encadeamento. Mais importante é a questão do final: podemos não conseguir bater os recordes de longevidade, a entropia da vida penetrar as estatísticas, a matéria e o espírito reingressarem na totalidade e o princípio retornar com a mesma lengalenga. Helena era obesa, viajava de barco para a Índia ou para a América e de comboio entre as capitais da Europa visitando os discípulos. Hoje não caberia num avião. O Senhor Blavatsky foi abandonado na lua-de-mel. Os soldados do pai eram tansos; deixaram-na escapar-se para Instambul em vez de a devolverem ao marido. Ela movia as coisas, transmitia e recebia pensamentos, materializava objetos desejados que depois oferecia ou alterava as propriedades físicas de objetos existentes, adivinhava o futuro próximo e longínquo, criava música sem instrumentos, animava até o cuco do relógio de uma amiga ou a coruja empalhada que tinha na sala. Muitos dos que a acreditaram quiseram provar que ela os enganava e ela confessou que apenas enfatizava as verdades para que os seus reais poderes melhor persuadissem. Conhecia a sugestionabilidade do seu público, o pobre Olcott que acreditava em todos os truques, até que ela escrevia a dormir citando livros que nunca lera como se fosse possuída pelos gurus da teosofia. Os críticos acusaram-na de plagiar, mas o texto era a própria voz dos autores que ela convocava, assim não tinha que os citar como um vulgar académico, apenas de desaparecer do seu lugar e da sua voz como uma grande atriz se inventa para uma personagem que tanto é ela autenticamente como uma súmula de todos os pensamentos tidos por quantos ela quis ser.