Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

por vezes maçam os programas literários

Alguma má literatura é muito mais literatura do que muitas das obras-primas da literatura. Não se trata de elaborar num paradoxo, mas de demonstrar como para escrever um certo tipo de maus livros é preciso conhecer e amar a literatura e, sobretudo, não a compreender. Muitos livros maus, felizmente, não foram lidos, logo não contam como fenómenos literários (acontece o mesmo com muitos livros bons). O seu aborrecimento não nos chegou, o seu vácuo não nos contaminou, não alimentámos a sua platitude mercantil, mas o pior efeito do livro mau é obrigar-nos a verificar onde falha, empenhar-nos num diálogo com a sua mediocridade, com a sua inabilidade, com a sua inoportunidade, com a sua vanidade. Assim, o verdadeiro paradoxo da má literatura é que, mais do que a boa literatura que nos esmaga, ela ensina-nos os erros que não deveremos cometer, expõe-nos aos formatos mais detestáveis da vulgaridade de uma época, ao mau-gosto do consumo massificado que visa a pura ostentação, às ideias que já não vale a pena pensar. Em muitos aspetos não se distinguem um bom e um mau autor, nem pela sofisticação da sua cultura, nem pela vaidade que pode ser mansa, quase humilde, em certos casos, ou, mais frequentemente, excitada e de um atroz narcisismo barafustante e ávido de atenção. Porque quase todos os autores são histriónicos no sentido de bufões deambulando pelos holofotes dos jornais e procurando demonstrar que são geniais ou que não acreditam no génio, mas acham possuir uma centelha que os torna únicos. Também não conseguimos definir «génio», mas pode ser um conceito preguiçoso se os deuses não nos inspirarem como a Hesíodo ou se nada de especial tivermos para contar como Homero. Algumas pessoas que sentem a centelha do génio, como Pessoa terá sentido, dedicam-se-lhe furiosamente: procuram aproveitar cada minuto de vida com uma ideia estratégica do que é literatura e de como evitar ter de deitar fogo aos templos para adquirirem uma fama estável. Heróstrato foi um génio porque deslocou a ideia da imortalidade para a sua própria encarnação em vez de deixar o seu espírito sujeito às vicissitudes de uma moral que ele não aceitava. Talvez porque não acreditamos em reincarnações desenvolvemos esta necessidade de atenção com vista a uma reencarnação na cabeça de cada leitor. O mau autor tem pressa, quer ser absorvido de imediato como o vírus da gripe, quer o seu nome mencionado, premiado, discutido, luminotecnicamente propagandeado como autor do ano e convidado para programas literários de massa onde pode emitir opiniões chocantes ou de um lirismo obsceno. O bom autor dá tempo ao tempo, mas é tentado a fazer o mesmo papel que o mau autor e raramente o faz com melhor qualidade. É preciso que tenha superado o próprio narcisismo; então desponta uma generosidade panteísta e uma sábia abrangência em tudo o que diz e voltamos a saber distinguir a boa literatura pelos seus magníficos efeitos. Contudo, foi a má literatura (que é inescapável) que nos ensinou o cânone literário e é nela que assomam as zonas frágeis da humanidade de um autor e retiram grandeza até a um grande autor.

sobre a existência

Dar um nome: «Maria» (que significa soberana, vidente, pura), «Frederico» (que significa rei da paz), «Vera» (que significa verdadeira, a que tem fé), «Manuel» (que significa Deus connosco), «Crispim» (que significa o de cabelos crespos), «Sofia» (que significa sábia), mas também «Touro Sentado», «Yan» (que significa com a graça de Deus), «Chang» (que significa livre), «Fátima» (que significa mulher que realizou seus filhos no conhecimento), «Omar» (que significa o que tem uma longa vida) e muitos outros milhares de nomes colocados sobre biliões de humanos do passado e do presente (esperamos que os humanos nunca sejam designados por um número como na tropa), cada nome transporta uma identidade virtual que nunca sabemos onde irá parar. Cada nome é um augúrio e um instrumento de sorte, um presságio e uma carta de recomendação, sobretudo, algo que os pais juntaram esperando acrescentar uma determinação sobre o destino num plano escapado da hereditariedade. Depois, cada um procura o seu bem e o da humanidade (em diferentes proporções), procura ser como os outros e procura ser melhor que os outros (correndo, em ambos os casos, alguns riscos), procura empenhadamente a sobrevivência individual e procura empenhadamente afilhar e defender a sua família à custa da própria vida, procura o sentido rigoroso das palavras e procura desviá-lo a seu favor. Cada pessoa usa a sua energia para alimentar uma vontade de poder que atingiu o paroxismo em Alexandre o Grande, o fazedor de Alexandrias pelo mundo ou Genris Khan, o grande copulador dos vencidos ou Júlio César, o grande pacificador. Talvez dependa da ideia de mundo que cada um desenvolve, o percurso que fará; uns arriscam porque o mundo é um desafio que podem vencer e têm nomes de triunfadores como José (Estaline), ou Adolfo (Hitler), ou Mao (Tse Tung), ou Teresa (de Kolkata), outros têm nomes pequenos ou diminutivos que se confundem com os de outras pessoas do bairro com quem jogam à bisca no jardim, procurando, também, vencer. Mesmo os altruístas procuram vencer pois pensam que o seu altruísmo é melhor que o dos outros. Não disputam uma noção de «melhor» nem o lugar do eu na distribuição de vantagens, mas tão só a passagem de uma física da personalidade centrada na sua historicidade em contraponto com a dádiva de um corpo insubstancial que tanto pode ter aparecido há um século como há cem mil anos. No fundo, o que está em causa não é donde vim, nem o que sou, nem para onde vou (eu, tu ou alguém em qualquer outro lugar ou tempo), nem a matéria específica da vida com a linguagem montada e pronta para tudo, mas que propriedade é essa que nos faz gastar-nos em justificações e inventar noções de harmonia demasiado abrangentes, a ponto de nos excluírem. Do ponto de vista daquilo em que nos tornamos, tanto faz, hoje, estar aqui como ali. Multiplicaram-se as ocasiões de decidir que livro abrir e é cada vez mais aliciante não abrir nenhum, pois as coisas vêm ter connosco em curtas mensagens neutras como boletins meteorológicos verdadeiramente efetivos no sentido de capazes de causarem tempestades ou dias de sol aberto, e, assim como há nomes preparados para o deserto, envoltos em roupagens largas, outros sugerem a ondulação a bordo de um navio pirata, outros ainda, romances de cavalaria com amores violentos e abandonos precipitados. Uns requerem intensamente uma ajuda sobrenatural que outros dispensam pois realçam atributos e virtudes. Portanto, o tempo apagou os étimos dos nomes a favor da esperança numa autoconstrução de cada um que hoje é imprevisível tais os caminhos abertos, mas, também, encaminhada entre as barreiras apertadas da normalidade. A subtil distinção entre ex-sistência, a pessoa abrir-se a um destino num lugar, e in-sistência no sentido da pessoa, apenas, ser como uma flor desabrocha num caldo de cultura, é estéril e quase inconcebível: hoje são semelhantes os efeitos dos lugares e o ser é uma matriz de decisões pré-programada, sujeita às mesmas entradas em todos os cantos do mundo. No passado, o «ser-aí» condicionava-nos; hoje, é um preciosismo obsoleto. Talvez no futuro apareçam formas de vida inteligente marcadas por um local e por circunstâncias verdadeiramente variadas. Então, os étimos dos nomes voltarão a significar, cada pessoa terá de se adaptar e fazer-se por dentro e por fora, a vestimenta, o vocabulário, o corte de cabelo, a própria religião. Cada um terá de a repensar de acordo com o quer fazer de si. Ignoro como me chamarei então, talvez Chang Maria; Félix é uma expectativa que não alimento, mas gostaria de conservar o «Costa» que significa o que vive no litoral.

o desespero quando ignoramos a que é devido

Poucas pessoas dedicam algum tempo a pensar na felicidade. Em geral, usa-se o conceito de uma forma abusiva quando se pretende justificar uma grande decisão ou quando se pensa nos filhos. Procura-se a sua felicidade, mas espera-se ganhar alguma coisa com ela, colá-la à nossa mantendo um modelo uterino em que a relação de dependência se desloca subtilmente vivendo o progenitor à pala do filho. Podemos observar o mesmo noutros mamíferos, baleias, porcos, morsas e até nalguns gibões, mas nunca em amêijoas, nem nos perus, nas garoupas ou nas jiboias. Talvez seja precisa alguma inteligência para se manter dependente de uma mãe ou de um pai, desenvolver uma inteligência preparada longamente para falhar, para tirar conclusões distorcidas, avessas ao risco e à própria natureza das coisas. Um pássaro não pode manter um filho dependente porque não consegue voar com ele às costas, mas uma mãe humana pode tê-lo por perto toda a vida, até permitir-lhe inventar alguns esquemas que aparentam rebelião e, no entanto tem-no às cavalitas, já maior que ela, obeso, pateta. A humanidade tem criado muitos problemas biológicos inéditos e resolve-os com psicoterapias que são usos abusivos das palavras. Apelam a uma intencionalidade que não lhes pertence nem ao interlocutor, mas o que todas as psicoterapias propagandeiam é uma esperança condicionada a uma teoria da saúde mais ou menos pouco persuasiva. Subsistem porque muitas pessoas pensaram na felicidade como uma situação que lhes pertenceria por direito político. Recuando, encontramos alguém que nos prometeu a felicidade, sem reticências, sem hesitações, mera consequência de praticar as virtudes e cumprir as regras de bom comportamento quanto aos xixis e cocós. Hoje, julgam ter falhado e culpam-se. Não sabem do quê, nem aonde, nem quando. Outros pensam que alguém não lhe dá o devido (as amantes que os criticam, o patrão que os critica e não lhes reconhece valor, a família que os critica, não lhes reconhece valor e os iludiu com vanidades, o estado que os criticam, não lhes reconhece valor e os desiludiu brutalmente das suas vanidades castigando-os com impostos insuportáveis). Chegam a desesperar. Querem uma resposta concreta, precisa – o quê?, aonde?, quando? Apontam-lhes o pai, a mãe, mas não o polícia, nem o fiscal de impostos, nem o ministro da economia, nem os psicopatas que os empurraram no metropolitano. Pois os profissionais da entreajuda defendem que tanto a felicidade como a ausência dela se devem às mesmas causas da mesma forma que a digestão de um bife ou de um caracol usam os mesmos dispositivos. Ninguém acredita em nada, apenas que é preciso fazer alguma coisa para não desesperar.

o futuro visto do chão

É importante baixarmo-nos; com o olhar ao nível do chão, cheirar a terra, caminhar pelos trajetos das formigas, tomar consciência da minúcia íntima das suas decisões quando caminham por um carreiro que nós destruímos paranoicamente. Ou talvez tenhamos alguma razão para as temer. Trata-se de uma espécie rival, a massa dos seus corpos juntos ultrapassam de longe a da humanidade e ignoramos que estratégia de expansão sideral escolherão, mas junto à terra sentimos alguma inveja da sua lógica organizacional. Entre nós a humildade também é uma virtude, mas demasiado facultativa, não participa do síndrome do triunfador; conota-se com a fraqueza, com a passividade, com uma virilidade que se recata, que se adia, que deixa todo o espaço ao outro ainda que ninguém tome nunca qualquer iniciativa. As organizações civilizadas gostam de ser vistas do alto, no topo, os seus enfatuados líderes, rodeados de uma catrefada júnior de assessores dispostos a tudo. São ilhas de despotismo: tal como uma termiteira existe para propagar térmitas, uma empresa com o seu líder ou quejando no topo, existe para gerar lucro. São valores absolutos fáceis de partilhar. A troco de pouco entramos para sócios da marisqueira onde comemos mexilhões e caranguejos carregados de mercúrio evitando pensar, enquanto predadores, no que é a vida e nas luxuriantes interrogações da filosofia. Um bêbedo tombado na calçada está em repouso metafísico. As formigas não se transcendem nem as carpas malgrado uma duradoura vida. Quanto mais esta se prolonga mais o viver se autojustifica. A tranquilidade dos velhos não é humilde; é uma constatação da platitude das grandes tiradas retóricas dos humanos mais notáveis. Atingiram um nirvana como se observassem a vida deitados numa esteira por terra, tanto numa rua de Bombaím pejada de mendigos, como deitados num leito articulado numa clínica geriátrica suíça. Os odores diferem, mas indicam o mesmo aplanamento das grandes forças que encorpavam a adolescência. A curiosidade transferiu-se para questões prosaicas que podem ter respostas seguras: «Choverá?». «A minha vida, o que a ameaça?». Uma resposta torna-se cada vez mais plausível: «Deus existe: Preciso das suas ancestrais promessas, preciso que o fundamental se viabilize». A ideia de «fundamental» foi sendo negociada ao longo da vida. Antes foram condições rebarbativamente reivindicadas; depois, desgastadas, perderam voz. Aplicaram-nas a demasiados elementos que já não se opõem, já não lutam, já não suscitam um alinhamento como se nos dissessem que já precisam que os defendamos e que nos podemos ir. A humildade é a única forma de convívio com a complexidade. Conhecê-la é ignorar e ser simples. Observar os animais que rastejam e que um dia nos comerão.

a democracia liberal

«Todas as vozes são importantes, sonham, respiram, têm opiniões. Todas as vozes deixam rasto algures no vento, até a criança que, ao primeiro grito, morreu». As afirmações pomposas e melodramáticas são-no porque não especificam o âmbito dos termos, apenas gritam como lutadores profissionais que combinaram os golpes para melhor nos entreter. Um navio que se afundou, quem lembra os marinheiros devorados pelos tubarões? «Digo a voz, não a alucinação da voz». A voz penetra o pensamento e extrai-lhe a doença ou a voz apenas dói, apenas lastima o silêncio do inconsciente? Você não sabe a importância da voz, você ignora o alcance da voz, você é um demagogo da sonoridade da mente. «Cada momento da voz é a revolta contra o silenciamento, contra o desprezo sistemático, contra o poder dos papagaios mediáticos despenteando as suas vulgaridades». Sempre existiu a tolice política: na vanidade do poder, na sua platitude, nas suas autoilusões, no seu narcísico estonteamento, mas, também, do seu lado: na histeria barafustante, nas palavras de ordem mal rimadas, nos punhos levantados de um poder com ejaculação precoce, na raiva edipiana a qualquer autoridade que cozinhe. «A voz sobrepõe-se à história. Se tomamos o testemunho dos que sonham, dos que respiram, dos que têm opiniões, encontraremos tanto a racionalidade arquitectónica da voz, como a irrazoabilidade dos invasores ululando selvaticamente». Você é um ingénuo incapaz de cozinhar um pudim flan ou de ouvir a respiração de uma nuvem. Experimente nivelar os ingredientes do arroz de marisco como nivela as vozes: cada uma tem o seu lugar e a sua ocasião, mas os lugares e as ocasiões diferem em importância. «Não podemos psicologizar a democracia, criar castas e excluídos, pois sem uma boa cosmogonia ao modo hindu seria a revolução e a instabilidade comercial». Muitas vozes sentem-se insignificantes agentes do nada, não sonham, não pertencem; se têm opiniões, não as compreendem – muitas vozes suicidam-se, mas sofrem mais os que mantêm uma esperança.

os ETs levantam as mesmas questões que outros seres

Em quê um ET invisível difere doutro visível, além de diferirem na respetiva transparência? Da mesma forma que dois humanos se aparentam independentemente de se verem ou não e tiramos conclusões das condições de visibilidade, dois ETs aparentam-se, mas não retiramos nenhumas conclusões das suas condições de visibilidade. Nós nunca vimos ETs e, portanto, a questão de avaliar a sua visibilidade na hipótese de existirem é desadequada face à importância individual da própria existência. Quantas pessoas passam do estado de desconhecidos para o de amantes ou de amigos ou inimigos ou, mais raramente, para o de pessoas que admiramos por qualidades específicas e essa mudança de estado é crucial na nossa socialização? Para que uma pessoa invisível nos prejudique temos de acreditar incoercivelmente na sua malvadez de pessoa real e no poder simbólico de uma agulha que espetou numa fotografia nossa. Por outro lado, estamos contentes por muitas pessoas existentes continuarem num estado fluido entre uma individualidade virtual, uma invisibilidade no prédio vizinho e um desaparecimento por acidente cardiovascular ou numa queda do helicóptero. São pessoas maximamente interessadas no futebol, na vida eterna, em paleontologia de insetos solipsistas e, da mesma maneira, os ETs, na hipótese de existirem, poderiam aborrecer-nos com as suas conversas monotemáticas. Não sabemos como gostaríamos que nos aparecessem, em nobre medieval, mas com o corpo invisível no interior da armadura como fantasmas friorentos ou com a elegante nudez de corpos bem adaptados a uma vida que já não carece de se reproduzir. Não sabemos porque pomos estas questões, mas não há dúvida que levamos muito a sério a nossa capacidade de pensar coisas inevidentes ou apenas invisíveis, não apenas as da chamada metafísica que sendo uma lógica das condições do conhecimento, é, também, uma lógica do desconhecimento. Como lógica das condições do conhecimento sustenta-se no pressuposto de que conhecemos; como lógica do desconhecimento não precisa de nenhum pressuposto senão de que há coisas a conhecer. Mas, neste caso, porque escolhemos pensar paradoxos que nos fazem construir telescópios gigantescos que não captam nada que esclareça a nossa ânsia de evidência e logo outros ainda mais potentes e outros ainda colocados no espaço ou construir sondas que por lá deambulam e nada de relevante nos devolvem? Porque não deixar sossegados os seres que ocupam a categoria de coisas inevidentes?, porque não os tratar como inexistentes, antes declaramos falhados os nossos atuais telescópios? Porque preferimos pensar em ETs invisíveis, em ETs discretos cujos rastos são conjeturas, em ETs tímidos ou indiferentes à nossa beleza, ou pensar que os ETs ocupam outra escala visual, a escala dos ácaros que apenas detetamos num espirro, ou a dos vírus que detetamos quando nos fazem febre e dizemos que foi uma corrente de ar? Algumas respostas às questões sobre os ETs encontram-se no nosso cérebro e referem-se a nós, àquilo que pensamos de nós e da vida e àquilo que erramos quando pensamos nos outro e no que desconhecemos.

o filantropo

«Queridos amigos». Começava assim a carta que queria dirigir à humanidade. Ainda não tinha claro o que queria dizer, como se estivesse demasiado próximo do palco da criação, sem recuo para ver a cadeia de causas encadearem-se, as nações surgirem como num jogo de xadrez, umas dominando outras, perseguindo o rei, os bispos, a cavalaria e os peões desaparecendo primeiro. É difícil começar uma carta sem explicitar o assunto, ou esperando que a própria redação da carta crie o assunto, mas não terá sido assim escrito o destino da humanidade? Entretanto, como responder à humanidade sentada à sua frente, olhos fixados nele, como se assistissem em direto à reencarnação de um deus esperado há muito? Corresponder à humanidade pode ser uma forma perigosa de iniciar um pensamento pois que, ainda que a sintamos amiga, há muitos entendimentos de amizade e, para muitos, «amizade» é simplesmente um subgrupo de humanos disponíveis para serem ludibriados, ou (outra definição) os que levam com as nossas lamentações, ou com as nossas versões distorcidas, ou com os nossos planos de governação. Uma conceptualização funcional envolve uma declaração de intenções associada a um pacto de não agressão semelhante ao matrimónio. Mas, para ele, todas cabem no grupo dos «queridos amigos» no sentido em que não tinha nenhuma razão especial para excluir alguém, embora espere que assassinos, genocidas, grandes psicopatas criminosos e desalmados não se acerquem desta mensagem amistosa à humanidade. Perante a dificuldade num tema, recua-se à origem do problema, à situação anterior à sua formulação como problema: «Tivemos 90 000 gerações de humanos – conseguiremos retomar a fraternidade universal?». Não é que deseje verdadeiramente essa época, a humanidade toda da mesma cor, aborrecendo-se com os assuntos de família, como num extenso tratado sobre a redundância, falando dos que morreram e dos javalis assados e de como a agricultura poderá revolucionar a humanidade ao que outros respondem que acreditam mais no nomadismo e no pastoreio, mas a questão de fundo, escreveu ainda, é se conseguiremos tratar a irracionalidade dos inimigos com a mesma tolerância com que tratamos a nossa. Julgava ter conseguido evitar as falácias linguistas quando, de repente, se apercebe estar no meio de uma. Conseguiria melhor definição de «racionalidade» do que «a lógica aplicada à defesa do interesse próprio», subsumindo-se a coincidência deste com o interesse coletivo; definindo este «interesse coletivo» como «a lógica aplicada à gestão do interesse público», subsumindo-se este como a soma algébrica dos interesses individuais mais elevados, entendendo-se «elevado» como «o interesse da humanidade considerado pelo seu fim último» e este como sendo um resíduo que a linguagem não é capaz de comunicar, mas está presente na vida e na morte desde o primeiro sapiens.

atitudes para com a literatura

Continuo sem uma boa razão para recusar o prémio Nobel, ou outro que me oferecessem. Penso que hoje se perdeu a ideia de literatura e a ninguém se aponta responsabilidades, como um vinho passado porque envelheceu em condições desadequadas. Os juízes do prémio trocaram o vinho passado por laranjadas e refrescos açucarados, mas já não passam longos serões a ler. Dizem: «Tudo é literatura, uma receita vegetariana com 33 ingredientes, o manual de um revólver, os avisos contra os carteiristas do metropolitano, a legenda de uma fotografia porno. A literatura já não precisa dos autores, nem das revistas que os cultivavam, nem sequer dos jornalistas. Hoje criamos os acontecimentos e fazemo-los circular. É isso a literatura, o teatro dos nossos fracassos, a ficção de devaneios envergonhados, o ensaio sobre a inutilidade do boletim meteorológico. A poesia são tretas cantadas com gaita de beiço». Os filósofos são os agentes das maiores confusões conceptuais dos últimos séculos. Muitos dedicaram-se a géneros inqualificáveis a que impuseram a sua frouxa virilidade em temáticas recuperadas de folhetins radiofónicos cor-de-rosa. Dizem ininterpretável a realidade: a cada um a sua consciência, a sua estética, a sua epistemologia, a sua axiologia, a sua metafísica. Portanto, a cada um a sua literatura, prémios Nobel infinitamente partilhados por todos os cidadãos, cada jogo de linguagem tornado efetivamente lúdico – a filosofia como comédia, a literatura como extensão da gargalhada. Cada nova teoria deve ser cada vez menos universal de modo a albergar todas as obsessivas ruminações sobre a literatura individual. Desapareceram os visionários que escreviam numa grelha de nexos flutuantes. Eram a versão dura do circo. Perderam-se. Perdemo-los, mas, hoje, não temos outra forma de fazer o pensamento pensar. Não podemos dizer isto de outra maneira; grassa o entretenimento com uma literatura embevecida pré-masturbatória – estéril apenas porque nenhum sentimento agarra o gesto: esse prazer multiplica-se, esse prazer dói, esse prazer premeia a derrota. Ninguém nos canta uma canção desafinada, madrugada dentro, quando não temos sono nem nenhum lugar para ir, o que é uma boa razão para recusar o Prémio Nobel.

algumas dificuldades da sociologia contemporânea

Sobretudo, hoje que se acentuaram as diversidades, é melhor evitarmos falar do homem contemporâneo. Porque há muitos homens contemporâneos cada um com a sua medicação, cada um com uma atitude estabilizada em relação ao halterofilismo, cada um com a sua posição de dormir e de, antes, posicionar a escova de dentes, cada um com devaneios confabulados sobre a sua infância em que os papéis dos progenitores são, na atualidade, reencarnados por um estado hiperpoderoso, mas descontrolado e caprichoso. Defendemos que a importância dada à imagem do eu é um importante direcionador do pensamento desde o ancestral Narciso, mas sabemos que há: 1) gente contemporânea que raramente olha para o espelho e são narcísicos, 2) gente que olha para o espelho como um lavrador olha para as alfaces, por uma questão de autocontrolo, 3) gente que é contemporânea e é narcísica e olha para qualquer superfície que reflita a sua imagem, mas não se arrisca à notoriedade nem a que falem de si, 4) gente que é contemporânea e é narcísica, mas já não olham para a sua imagem porque toda a gente fala deles, 5) gente contemporânea, não narcísica que alcançaram notoriedade pela qualidade do que fizeram, 6) gente contemporânea que não é narcísica nem olham o espelho nem querem a notoriedade e, 7) gente contemporânea, não narcísica que olha comedidamente o espelho, mas altamente dedicada ao sistema (ou a contrariá-lo) por uma questão racional (interesse em que funcione), ou por generosidade (para que o sistema funcione melhor, dão mais do que o que são obrigados), ou por altruísmo que é um amor sistémico de vistas largas. Portanto, a primeira conclusão a tirar é que todos os homens contemporâneos são contemporâneos, mas ser contemporâneo não é, simplesmente, ter o pensamento focado na contemporaneidade, é, sobretudo deter um enorme volume de informação sobre o mundo e não a saber pensar. Olhar para o espelho é tentar organizar essa informação a partir das condições básicas: «Este sou eu? O que faz ele aqui? Fui eu que o trouxe? Conto comigo ou com ele para sairmos deste impasse?». Um observador que tenha lido Freud recua aos mitos gregos e postula determinações instintivas, mas não tem como as provar. O narcisismo é uma explicação simpática para todos pois supõe pessoas ao mesmo tempo, contentes consigo e com o sistema que, quanto mais admiradas são, mais admiração julgam merecer. O ponto é que a reação narcísica é imprevisível, desde logo porque muitos narcísicos reagem com enorme fúria ao serem menosprezados relativamente ao elevado coturno em que se têm. Essa fúria tanto se volta contra a humanidade que o desmerece, como contra o próprio que fracassou. Portanto, quando falamos do homem contemporâneo, da economia contemporânea, até dos frigoríficos contemporâneos e do seu recheio, percebemos a ligação de tudo à cultura contemporânea, mas a atualidade esvaneceu a definição de cultura – até a definição de virtude e de futuro para o homem contemporâneo. Tudo parece, hoje, depender de um método de medida que, ao objetivar, nos introduz na medição e não sabemos o efeito do narcisismo no resultado dessa medida. Dizemos tudo ser relativo, mais vale, portanto ser tolerante com a diversidade, apenas afastarmo-nos dos contemporâneos cujo narcisismo nos incomoda pois a história lembra os crimes de que são capazes esse género de pessoas.

o exilado

 

«Porque se intitula poeta?», pergunta-me a juíza popular. Porque a minha fala rima. É um dom: também me intitulo «humano» sem ter feito estudos específicos. «Mas sei que recebeu o Prémio Nobel em 1987 como herói da desestalinização; qual é a força que atribui à poesia?» A pergunta era maldosa. Percebi que me queriam diagnosticar «delírio paranoide reformista» e exilar-me para longe de S. Petersburgo. Respondi-lhe que um poeta luta pela justiça, que há uma intensa noção de justiça no interior de cada poema que cada leitura desvenda e respeita, mas o valor desta justiça é um epifenómeno. O que conta na poesia é o firmamento que a recobre e uma zona de arrebentação onde se concentram os que observam o mar desinteressadamente que pode ser ou não ser o caso do poeta, expliquei-lhe com doçura. Ao contrário da juíza, cujo passado a manteve numa esteira nominal confortável, eu confrontava-me com uma hierarquia de lutadores que se espojavam na própria derrota. Eu descrevia o seu colapso como quem disseca os cadáveres dos dissidentes de um hospital hipernormalizador. Na verdade, qualquer ordem é sanguinária, permite o saque, o estupro e arruína quantos se lhe oponham, enquanto para o poeta e para o juiz o que interessa é a coerência interna do que dizemos. São ciências esdrúxulas, ambas, domínios reinventados contra uma humanidade disfuncional. Entre ambas, a polícia com os seus delinquentes mal amados. Ofereceram-lhes balões policromos cujas verdades desaparecem na altitude, mas todos aplaudem. A polícia incentiva-nos a aplaudir a altitude e todas as suas manifestações, mas ninguém nos explica porque o balão ascende nem qual o seu destino último. Há nestes fenómenos uma contagiosidade que os torna propícios ao mito e à fábula, mas nenhum animal serve aos paradoxos que enervaram a juíza. Perguntar-me-ia: «Porque se intitula fabulista? Fez estudos específicos?» Qualquer animal é um exímio e despudorado produtor de excrementos, responderia, a humanidade é a flor do estrume, a justiça a sua coroa. No poema limito-me a olhar as flores sem dizer se estão erradas.

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