Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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os vegans

Contra o que pensamos, o Sistema não confia nos cidadãos. O Sistema não gosta de se pensar nem de ser pensado, principalmente pelos seus, e não tem consciência nem conta com ela, mas tem uma tendência a usar a força para manter a sua estabilidade. O Sistema é naturalmente estúpido, inculto e reacionário: nega consistentemente a sua própria tendência a desorganizar-se e atribui essa vertigem do caos à ação subversiva de alguns bodes expiatórios que designa pejorativamente de lunáticos do reviralho, ou chama-lhes vanguardas do caviar ou esquerdas utópicas e excêntricas. No passado eram os comunistas, os anarquistas, os socialistas; até os liberais já foram tidos como ameaçadores apesar de frequentarem os mesmos restaurantes. Todos pertencem ao Sistema, uns com mais humor, outros com mais idas ao bordel; uns escrevem nos jornais, outros põem bombas; uns fecham-se em casa ou muralham-se nalgum lugar onde não entrem moscas nem percevejos, outros apregoam a Declaração Universal dos Direitos de Alguém, de Alguma Espécie ou de Todas as Espécies como se o mundo fosse uma arca de Noé de vegetarianos. O Sistema acredita que qualquer cidadão tem esconderijos onde guarda segredos de conspirações; acredita que se reúne a desoras para conspirar contra os interesses do Sistema; acredita que a posição edipiana dos cidadãos torna-os, potencialmente, capazes de assassinar simbolicamente o pai ou de chegarem à ação armada em atentados contra as instituições democráticas. Ignora que cada cidadão integra algum ponto do sistema e que, se o critica, as suas críticas ora reforçam as convicções do Sistema ora corrigem-no e repõem uma estabilidade mais adaptada a circunstâncias novas. Porque as condições dentro do Sistema e à sua volta mudam constantemente e o que antes era ordem e belo torna-se repulsivo, académico e inerte. O Sistema julga falhada a imposição de racionalidade e de altruísmo que são os pressupostos do Sistema, assim, o Sistema legitima o policiamento exaustivo de todos os eventuais transgressores que são todos os que mantêm o Sistema a funcionar, quem o defende, quem fala por ele, quem o financia, quem o reproduz em cada cidadão que nasce – e quem o distorce, quem se rebela, quem o tenta tornar mais justo, mais humano, mais barato. Na prática não sabemos nem o que está certo nem o que é o progresso; o estado seguinte do sistema resulta, por vezes, da vozearia democrática, mas esta pode ter efeitos paradoxais ou irradiar imprevisivelmente enquanto um poema irónico, ou uma nova tecnologia de comunicação, ou uma campanha contestatária subtil, ou um simples assassinato estratégico podem infletir o curso do mundo. Assim o Sistema reage sem se deixar governar, mas impondo as mesmas regras em todos os níveis do Sistema. Aqui começam questões jurídicas complexas pois cada espécie tende a impor às outras o estatuto de subsistemas e a restringir-lhes alguns direitos. Os animais domésticos, ainda que tenham direito ao bom nome (os cavalos, os cães, as vacas têm nomes escolhidos com muita liberdade) e a serem bem tratados, não têm direito à vida pois há um momento em que o Sistema lhes muda o estatuto e são considerados complexos fornecedores de proteínas numa cadeia alimentar demasiado inflexível. Assim compreendemos porque nenhum deus piedoso pertence ao Sistema, que embora perfeito, o sistema da vida assenta em modos imorais – não deveriam ser a sexualidade e o domínio alimentar e territorial a definir as entradas do Sistema.