Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

comprar o jornal para ver o que é evidente

Limpar os óculos porque a realidade chega até nós a qualquer momento e é preciso estar preparado. Chamamos «realidade» aos aspetos mais inesperados do que existe e do que acontece como se omitíssemos «____ jornalística»: os grandes acidentes ferroviários ou aeronáuticos, os tufões, maremotos, inundações e outros cataclismos devastadores, as guerras religiosas, étnicas, territoriais, as grandes manifestações desportivas de que toda a gente fala. Como se a realidade não jornalística passasse sem provocar efeitos, apenas manter o mundo a funcionar tal como os pulmões respiram, o coração bate, o cérebro lembra, sem darmos qualquer importância ao ar que entra e sai de uma caixa que se alarga e comprime, ao fluido vermelho bombeado sobre pressão até à ponta dos pés e às raízes dos cabelos, nem ao mapeamento do que percebemos como tendo acontecido. Limpar os óculos, embora esperemos que se passe longe a realidade jornalística, pois, à nossa volta, tudo parece estabilizado e pouco propício a tufões, ou a atentados, ou ao desencadear de uma guerra santa, ou, sequer, a um enfarto do miocárdio. Não compramos o jornal por uma curiosidade de informação ou por uma solidariedade com o mundo, mas para esconjurar essa realidade jornalística, para que ela aconteça onde tem que acontecer por razões históricas ou geográficas que nunca se verificam em nossa casa. Ainda assim, limpamos os óculos e mantemos uma conduta ativa para prevenir catástrofes de grandes dimensões, das que arrasam a casa ou levam a vida, embora, perversamente, provoquemos a sorte correndo pequenos riscos quotidianos com um secreto gozo em lhes escaparmos; pequenas infrações, pequenas indulgências para com uma disciplina definida espartanamente, mínimos desleixos numa matriz de sorte/azar cujos gestos mágicos estão definidos há muito. Por vezes falham e sobrevêm desenlaces desfavoráveis, mas, em geral, estimamos o sentimento de controlo sobre uma realidade que, de outra forma, parece caótica. São óculos de leitura. Não sentimos que influenciem a nossa interpretação da realidade jornalística nem da não jornalística, apenas que nos permitam ler as letras pequenas das notas de rodapé julgando escapar das distorções manipuladoras que os jornalistas nos impingem. Toda a realidade é manipulada por quem tenha poder para o fazer, por isso detestamos o poder porque implica, necessariamente, a manipulação. Definimos massas a partir dessa vontade de ser manipulado, e fugimos delas, de ser incluídos nas patéticas movimentações que definem «normal». A realidade jornalística tenta criar versões do «normal» fornecendo formas acabadas de pensar como se não fosse preciso limpar os óculos e, se a «realidade jornalística» nos cair em cima, compramos o jornal para ver como saímos na notícia.