Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a teologia como disciplina indutiva

Dizem que Deus não ri. Não sei. Nunca o vi. Muitas coisas que nunca vi poderia tê-las visto se não tivesse os olhos fechados. Também eu poderia ser diferente não fora o medo de ser outra coisa, ou por ter falhado a oportunidade. Tudo o que não pensei me faria diferente, mas não as pensei porque pensei outras coisas mais confortáveis. Tal como Deus não ri, tudo isso existe numa imagem de mim de que troço. Deus troça dos fracos e dos incautos que o desafiam. Eu não defendo uma imagem, defendo o que está no que se me opõe, defendo expressões do tipo: «tudo o que eu sou está no cosmos» e a sua equivalente: «tudo o que está no cosmos está no cosmos»; o que prova que para o que existe no cosmos a minha existência é irrelevante, apenas a existência de Deus, que não está no cosmos, resulta da própria análise do que não é analisável no cosmos. A expressão «Deus» aqui não significa nada, apenas designa uma máxima sede de significação onde a significação anula alguém que pudesse ser assim chamado. O seu nome é, apenas o seu uso extremo e arcaico, mas dele não chegamos à diversidade dos ritos nem à arquitetura dos templos. Nós rimos das minúcias dos paradoxos, o próprio riso é uma solução para o paradoxo: declaramo-lo uma teoria da argumentação do significado de «Deus», uma teologia aberta aos usos sedimentados nas religiões e, contudo, ter um uso não é ter um significado e é importante falarmos daquilo que não pode ser referenciado. Alguns poetas relacionaram a chocolataria e a metafísica: o que uma ensina de como misturar os ingredientes de modo a maximizar o prazer, e o que a outra revela sobre o espírito que atravessa as causas das coisas e impulsiona os tempos da significação. Falamos de Deus porque percebemos bem a infundamentação de quem fala de Deus e da causa das coisas, percebemos bem, portanto, mais do que a cadeia de argumentos que se segue, o estado esburacado da mente que fala, quanto os seus caminhos estão intransitáveis, os rumos confundidos, os passos atolados e, contudo, a urgência de solo firme. Porque haveria Deus de rir se está só? Nós rimos para comunicar uma necessidade de rir quando nos apercebemos que somos grotescos pretendendo ser coerentes e respeitáveis. Rimos: «Tudo o que eu sou não é melhor nem pior do que o que não sou». Trata-se de uma variante da humildade de olhos nos olhos, frente a frente, pois o odioso do riso é o que troça lá do alto, seguro da sua autossuficiência, ou o que ri com os seus pares julgando-se excecionais, quase escaparem da vulgaridade como pequenos palhaços liofilizados que se elogiam uns aos outros. Deus riria da nossa bondade porque o riso e a música não precisam de ter sentido. Riria, também, da estupidez dos que falam do sentido que é como a felicidade, um sentimento difícil de sustentar.