Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Shakespeare antes e depois

Se perguntarmos a um escritor porque escreve, dirá que é para reformar o mundo, que de um modo explícito ou através de subtis efeitos sobre o caos, acredita que nada ficará incólume às suas palavras depois de publicadas, que este propósito se mantém tão nítido desde que meteu mãos à obra que nunca se deteve para o pensar nem consegue admitir poder enganar-se. O seu psicanalista (desde há sete anos que o segue três vezes por semana) ainda não se atreveu a aflorar esse tema e tem, contudo, várias hipóteses: 1) escreve para se escapar da sua animalidade (no sentido de Pascal e de Montaigne), para ser elevado no sentido de admirável e, como o vento, a escrita disseminar a fama, 2) escreve para converter a sua angelical elevação numa massa orgânica tão universal como o peso das pedras ou a leveza do ar, 3) escreve para se dar, no sentido de as suas palavras serem espermatozoides vorazes ou enormes oócitos carregados de literatura como minúsculas arcas de Noé, 4) ou para regenerar todos os autores que admirou e descobriu como falharam e, agora, jazem à sua mercê, 5) escreve querendo que a sua palavra seja a última como a de um pai magnífico que julga encerrar capítulos da literatura como encontra amantes que o admiram e alimentam, 6) escreve como se as palavras e os filhos se equivalessem e fossem os anjos de uma ilimitada significação, 7) escreve para enunciar o que sabe e o que fundamenta o que sabe, mas encontra apenas a erudição como uma prostituta que tivesse ido para a cama com todos os autores de todos os tempos apenas conseguisse relatar a forma como beijam, como se aninhavam nos seus braços, como regateavam o seu preço, como, no fundo, conheciam menos que ela a matriz íntima do humano, 8) escreve para circunscrever o humano ao caminho que ele próprio trilhou, 9) escreve para eliminar o espaço das questões inúteis, eliminar a questão da origem (porque existo?), a do destino (para onde vamos?) como se a sua escrita fosse a única messiânica, 10) escreve para descrever a extensão do seu espírito sem entrar em pormenores, 11) escreve para combater a insuportável modéstia de alguns autores que descobriram e não deixaram o seu anterior lugar nem a sua voz se elevou ao contrário da sua que não conhece a humildade, 12) embora acredite que tenha fechado um círculo, escreve sobre a hipótese de que haja mais círculos, outros escondidos nestes, outros inimagináveis e outros ainda, 13) escreve para provar que a tenacidade é o único formato do génio; nem pai nem mãe nem amante nem filhos, nada mais garantir o acesso a esse patamar, 14) escreve para afirmar cada literatura ser um patamar, a sua ser o último patamar e ser amor cada degrau da escada. Por uma questão de retórica psicoterapêutica, a noção de uma vontade inconsciente não seria colocada a este propósito. A racionalidade deve prevalecer para que cada página escrita prolongue a anterior até se regressar ao início do livro, este tenha continuidade com os anteriores livros do autor, o primeiro livro do autor se articule com outros autores, neste caso até Cervantes com um pouco de Shakespeare e, regredindo mais, encontremos Tomás de Aquino e Agostinho, antes, S. Paulo e outros leitores de Platão até, finalmente, encontrarmos Sócrates que nada escreveu e deixou a palavra ecoando como os fantasmas habitam todos os templos, todos os sótãos, todos os jardins de lagos escuros e ciprestes e fontes mágicas apenas cantando.