Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Freud no far west

Nunca escreveria sobre o mal-estar da civilização. Pertenço-lhe demasiadamente. Como um pato no seu charco insatisfeito com as águas que ele próprio suja, que pode fazer senão mudar para outro charco onde acontecerá o mesmo? A humanidade não escapa da civilização e esta violenta-a o mais que pode. Esta repressão conservadora de uma parte autoritária da humanidade sobre outra parte constituída pelos ingénuos, pelos crédulos, pelas crianças, pelos iletrados, pelos marginais, pelos doentes, mas também pelos poetas, pelos revolucionários, pelos visionários e outros fanáticos bem como pelas respetivas combinações. Em Artaud, por exemplo, um poeta visionário, doente e doente de si na civilização ou doente da civilização que acumulou em si, eram tantas as razões para o mal-estar que nem o brilho magnífico da sua obra o aliviava. Só o láudano no cerne da mente que se fragmentava. Também a sobreliteratura que se abateu sobre a infância de Pessoa, envolveu-o para toda a vida numa rede umbilical de forças de que nunca se conseguiria escapar. Nenhum amor se lhe afigurou mais intenso. Entre as muitas amantes que teve, aquela a quem dedicou uma poesia mais empenhada foi Mariana Alcoforado com quem trocou uma correspondência erótica toda a vida. Este tipo de devaneio, tão fácil de manter, é um remédio dos mais eficazes contra o mal-estar da civilização – que não altera a civilização, mas coloca um poeta a uma altitude compatível com a escrita. Contudo, Pessoa nunca se livrou de uma dor íntima, como que uma culpa por o amor sempre infringir uma qualquer lei universal inexplícita que parece obrigar-nos a voar pelas estrelas. Então partia, abandonando o seu amor e cantando como um pobre cowboy solitário, pradaria fora. Não eram verdadeiras aventuras o que o esperava, mas a repetição da mesma condição civilizacional inexorável, a da interdição incestuosa perante um pai morto. Na verdade, não é fácil acertar no que causa o mal-estar da civilização; as causas variam de pessoa para pessoa, mas muitas pessoas acham que o que civilização lhes proporciona não compensa o que lhes interdita. Remetem-se para fórmulas bucólicas reacionárias recheadas de exemplos históricos, mas o que aparece na poesia de Pessoa, no entanto, não é este mal-estar como se o futuro se quisesse soltar da linguagem e espiralar, mas a consciência num colete-de-forças como Shakespeare estreado num teatro amador.