Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre os lugares propícios

Ao irreal (em que também penso) oponho a lembrança esvanecida de um sítio. Estou perante a ubiquidade permanente das aparições. Fátima céu fora; o imaginável desintegra a tradicional matéria do destino, extrai-lhe milagres, escalpeliza um corpo disposto à leveza e ao martírio, leva-o às últimas consequências, à inação, a uma mais-que-nudez obscena no espaço turístico da morte. Depois, a informação materializa-se de novo e, da surda voz dos indícios, numa imagem plausível refaz-se. Paira sobre nós um anjo carregado de bombas lacrimogénias, assim se vagueia por lugares desespacializados propícios à esperança. Acredito na pura artificialidade da mente. Contrario-lhe a fluência, a visita papal, os noticiários que tilintam implicações aborrecidas. Ouço a totalidade das vozes, os botões nos dedos dançam a ubiquidade, conduzem a personagens ubiquitárias que me fitam. Respondo com simpatia e nesse instante só eu existo para elas. De santuário em santuário amam a minha ubíqua imagem de poeta, alimentam-na de mim, ávidas de método, multiplicam-na em frascos de formol sobre prateleiras escancaradas. São múltiplas e cacarejam culpas. Agora olham-me com a profundidade de telespetadores, eu rio da estreiteza das palavras, como outros profetas que navegam à deriva. Acreditam que as suas raízes trazem uma seiva sempre mais suculenta para a qual a humanidade encontrará um sentido. Ouço as suas mensagens de esperança porque me são desnecessárias como um banho de espuma eterno. Regressamos de Fátima, de Guadalupe, de Lurdes, sou a sua azinheira, a gruta, o pó do peregrino, o componente factual do milagre. Todos possuímos ubíquos telefones bondosos com quem tagarelamos um futuro, qualquer futuro habitável nesta atmosfera refrescante em pé de guerra. Os paraísos já não respiram nos sonhos, as tecnologias avançam por nós adentro, mais amigáveis que nunca, os nossos ossos de pigmeu em jardim público contorcem-se e já não achamos tanta graça ao futuro. Nutrimos a plumagem num altar repleto de estátuas interativas – e um dia seremos imortais ou quase, teremos a reprodução interdita, não será preciso amar, nem escrever. Nada haverá a preservar, não mais conseguiremos, sem nada possuir, olhar o mar como um irmão, ficar num lugar sem tempo ou do alto de um observatório astronómico declarar o tempo fora do alcance dos milagres. Mas nem durante a reza o jogo é nítido; a irmandade é uma histeria, nós numa comédia sem autor. O irreal ora se apresenta em onze dimensões ora se encolhe num vestígio morto ora rejuvenesce numa mãe majestática com as suas tempestades de neve para uma cena triunfal onde nunca estará à altura das nossas crescentes expetativas.