Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

chamamos a isto Terra

 

Chamamos a isto «Terra», solicitação para existir numa forma que o tempo encarquilha. Sabemos no tempo, o ovo da ignorância. À mercê do sol uma superfície redundante a si atrai coisas que sobressaem e preenchem: a arma, a casa, o livro, o tacho, no limite (quem sabe?) desenvolveremos uma super-consciência com seguro de vida eterno, a apontar para uma espiral de virtudes em lenta levedura. Percebe-se demasiado devagar o que é importante. Perdidos na elucubração das causas; depois, o «como?» já encontra diversas respostas aceitáveis, mas igualmente inaceitáveis consoante a época, a medicação, a literatura. O «porquê?» (a razão de ignorar) congrega as maiores certezas: templos onde o nosso sexo de criptógamas dispersa esporos ao vento, muito longe, tão longe os ínfimos recantos que o humano atinge com a sua forma muito específica de pôr palavras ao rubro. Cada pergunta acrescenta uma nova condição, uma nova restrição, aparecimentos, próteses que albergam e repõem a partir do inverso do universo. Retirado o tempo, cada um de nós abusa da força, da forca, da duração, da pena e da recompensa. Abusa da tecnologia de palhaço-proprietário de um Eu muito próprio a preparar ornamentos solenes tendo ele mesmo o direito de dizer o que é solene porque cria o «porquê» de cada coisa. «Terra», terreiro de oportunidades e riscos insaciáveis: o «como» feminil ligado à conservação dos dias e o varonil, à fruste interrogação que antecede o levantar das catedrais. Alguém com aparência de macaco, olhar ferido pela linguagem, diz «eu» da máscara ruvinhosa, bem suturada à máquina das lágrimas. Depois entorna esperma de rinoceronte no trono da mãe-vaca e diz: «É a natureza». A sociedade tornou-se uma teoria da dispersão do sémen, logo atrás, geringonças de busca homogeneizantes. Este «eu», por exemplo, procura o leitor, procura Freud, Adão, um editor. Hoje, a humanidade está na casa de banho. Pode-se chamar «Terra» ao despropósito do lugar onde (como Adão) aterraremos. Ele fechou-se na casa-de-banho, olhando em volta – tudo desinfetado, fixado em formol e perfumado como só no paraíso acontece.