Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

dificuldades com o fundamental

O tempo cresce sobre nós, os braços multiplicam-se, menos frenéticas que outrora, as mãos agarram coisas que ainda poderão servir, mas a memória está desativada, demasiada carga armazenada sem critério definido. Nem todo o lixo que encontrámos na rua foi útil – também não definimos «útil»: acumulámo-lo. Hoje, temos horror aos tratados sobre assuntos aéreos. Ninguém admira Goethe pela teoria da luz filtrada por nuvens informes, mas pela sistematização da diversidade numa ciência das formas, sobretudo das formas poéticas, das que fazem recurso às plantas e a formas de perfeição bem estabelecidas. À medida que as grandes razões se encarquilham e se automatizam visualmente, o encadeamento, que nos chegou a parecer direcionado e carente de pré-programação, afigura-se uma simples mecânica de equilíbrios gasosos e idealistas. Não é fácil atirar os braços às coisas, agarrar as desejadas e resistir às que nos seduzem em poses disfuncionais. Assim marcamos a nossa individualidade, cada pessoa abraça várias outras, um tratador de gatos, um físico de partículas, um prestidigitador atualizado, um pasteleiro de gases raros, mas os abraços afrouxam-se à medida que esgotam os temas das conversas, incontornavelmente inconclusivas. Mesmo sobre o pastel de nata, o físico discorda da gelificação da gema de ovo e o prestidigitador falha a eletrificação consensual das papilas gustativas. Goethe meditando sobre a morte frente ao crânio de Schiller não teria atingido o enaltecimento da vida e da glória, dos seus ciclos absurdos, se o crânio pertencesse a um tratador de gatos. Sabemos como uma teoria, um poema ou a simples classificação das nuvens em função da opacidade dependem das pequenas circunstâncias. As pessoas preferem a cristalinidade das explicações com termos bem definidos, desperdiçam fatores que dizem triviais apenas porque são simples. Cada um se constrói como pode, uns, assanhados, miam à lua que lhes parece próxima à espera de uma fonte luminosa e enigmática, outros avançam pela própria inspeção da consciência onde nada rima nem se configura e cabe à poesia uma convincente ignição dos termos. E que não apresse o fim da história. A própria elaboração dos significados está à margem da história, a adivinhação dos apocalipses é um passatempo coletivo com largas tradições e que arrasta muito público com os seus diabos a correrem atrás. Goethe não lamentava as limitações das coisas simples – descobria, no seu âmago, um espaço de significações indisponível como o oco no crânio de Schiller, morto dez anos antes num acidente. Impressionava-o o confronto do osso com o verso, como um, enterrado, se refaz; o outro cristaliza ou tilinta como a chuva. As coisas simples consagram-se facilmente. A morte simplifica o cérebro. Hoje cabe-nos a última palavra como se os poetas anteriores fossem burlescas aparições de cada um de nós com o sangue carbonizado sobre uma máquina de sínteses perfeitas. Algumas pessoas lançam-se das varandas dos arranha-céus e saboreiam a queda sem pânico nem desespero, antes imaginam-se em cena, já num noticiário, e procuram cair com estilo; outras acumulam grande quantidade de chocolate que agarram em cada mão como se tivessem dezenas de bocas e um metabolismo voluptuoso. Mas não: lentificaram as formas de polvos agarrados ao fundo do mar onde não envelhecem nem morrem numa grande demonstração do seu niilismo. À superfície, uma logomaquia desenfreada: a sintaxe aviva-se contra as ideias, estas contra o rigor da significação, chegamos a pensar que a vida se faz independentemente da forma como se a sobrevivência não contasse face a uma eternidade quase garantida. Ninguém fala do que acredita, a língua automatizou-se, subordina-se à bajulação desinteressada – é como os direitos se tornam desnecessários em cidades que se afundam numa anarquia futurista de cidadãos ultra-condicionados que se lambuzeiam numa manada autodirigida pelo interesse coletivo. Fausto morreu depois de Schiller: tudo é explicado pela metamorfose da qual a multiplicação é um caso particular: os braços cumprimentam-se efusivamente, tocam-se espontaneamente, abraçam-se promiscuamente definindo famílias de fecundação partilhada muito coesas em torno da sua descendência, negociando com o ministério da gestão populacional o padrão morfológico e psíquico mais propício. Porque o interesse do estado é formar revolucionários que não se rebelem, que escrevam livros com pequenas tiragens e que apenas ocasionalmente sejam fuzilados ou vítimas de acidentes.