Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o suceder, o insucesso e o simplesmente insucedido

Eu não aconteço como realização de uma unidade à procura do seu eterno. Eu não aspiro à verdade do «um» nem a nenhuma forma de intensificação da vida num momento de glória, ainda que pudesse durar apenas cinco minutos. Não sou um vazio ávido, mas uma confluência, um filtro que separa um passado, presente numa memória estuporosa, de um futuro múltiplo. Compete-me multiplicá-lo – e estrangulá-lo quando algo de previamente definido sai das suas contradições. Normalmente adopto uma pose de monge em meditação há trinta horas. É uma heurística. As coisas que se definem parecem a minha vontade, assim, sou o que pareço para mim – um momento em que sou evidente sobre um enraizamento totalmente opaco. O passado é, sobretudo, tudo o que fora possível e não chegou a ser. Não rio disso. Não sou tudo o que pensei nem tudo que me aconteceu, mas sou traumatizável que é uma condição que afeta o que acontece: um vetor negativo, a sirene que soa na hora do sono, e o que me persegue na mente, não sendo plausível, assusta-me por ser pensado contra o que julgo plausível. Acontecer é sofrer impactos e reagir. Eu não aconteço porque não reajo para fora, mas com a realidade sorumbática de um cipreste. Se abano é o vento que reage à minha presença centrífuga como se alguém reparasse em mim e me cumprimentasse pelos meus poemas (como o Esteves da Tabacaria) ou me esmurrasse por qualquer outra razão. Esses não acontecimentos, embora não me realizem, não trazem ao acontecer nada que num poema cristalize: eu sou virtual nesse sentido de nada realizar de uma unidade à procura do seu eterno: o bater de asas de uma borboleta que não interferiu com nenhuma cadeia de acontecimentos e, assim, o que nela confluiu se perdeu como passado. Essa é a intensidade do que é virtual, ao ser pensado e, fugaz, logo se separa do tempo. Para um traumatizado é o medo do que já desconhece, mas não esqueceu – uma opacidade que se desconjunta como erro – ou não.