Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre a vontade de ser normal

Quanto mais me interrogo, mais reparo nos olhares que me olham, como a um pescador com a família à fome. Como em todas as metáforas, é preciso salvaguardar as distâncias: ele tem o tempo entre as vagas para pensar ainda que nada pesque. As vagas sugerem-lhe estabilidade que é uma quase-resposta enquanto a quem apenas olhe o mar, a sua rapidez atordoa. A mim as pessoas raramente olham com simpatia. Há um momento, aos trinta segundos, em que vejo surgir nelas uma repulsa automática. Julgo que não sou suficientemente opaco ou que a minha mímica é incaraterística, não suscita as questões adequadas. Acredito que os que passam não fazem bem as perguntas senão os olhares não provocariam esta recíproca inquietação. Contudo, basta um pequeno pretexto para soltarem a sua narrativa que tem um escasso grau de fiabilidade. Os factos enrolam-se com um ritmo que não pertence à vida, mas a uma íntima vontade de se justificar. A loucura deverá ser consensual, não um mero diagnóstico vindo de fora para dentro, de alguém que nos cruza no metropolitano, nos acha esquisitos e nos denuncia às autoridades. Já fui várias vezes preso com as mesmas alegações de ameaçar o conforto público. Acho que devia corrigir-me para não afrontar os concidadãos, mas não consigo melhor versão da minha mímica, aliás, tenho a impressão que quanto mais tempo passo a estudar expressões ao espelho mais bizarro me acham e, no entanto, já pensei mais na vida do que o pescador com a família à fome.