Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Alexandre o Grande

Seria bom que tivéssemos ultrapassado de vez a época dos impérios e das invasões sob qualquer formato. Sobretudo por uma questão biológica, seria bom que cada pequena população pudesse levar ao limite a sua culinária, a sua linguagem à lareira, a sua ideia de poesia, o corte de cabelo, até os ritos de sedução e de obscenidade. Não resistimos a fazer ferozes comparações e a retirar conclusões sobre o que é melhor para eles e para o mundo, a achar que algumas tribos não estão no bom caminho ou porque encalharam num local errado ou porque deparámos com elas numa má ocasião. Se as achamos atrasadas, invadimo-las, se estão adiantadas cobiçamo-las e invadimo-las. Sempre a superioridade militar comandou a dispersão no território. Perante a premência de sangue as fronteiras esfumam-se, as muralhas não resistem, nem as de Pequim com quatro metros nem a grande muralha com sete. Quando estudamos a cronologia de um império percebemos a própria dinâmica da guerra criar a necessidade de mais guerra da mesma forma que a convicção da própria superioridade legitima massacrar os vencidos, apagar a sua diferença. Nós, os turistas, usamos outros critérios de superioridade: identificamos ilhas de sobrevivência cultural descontaminada das linhas de produção e onde os caminhos entre os lugares não são linhas retas, antes seguem as hesitações dos rios e das montanhas. Essas zonas «preservadas», abandonadas pela nossa contemporaneidade, pertencem a outra época, repousam-nos a consciência ecológica. Somos micro-genghis-khan com a declaração universal dos direitos do homem no emblema. Também nos mataram o pai, roubaram o trono, levaram-nos a mulher e temos tantas outras razões de queixa a chamuscar. Já assimilámos todos os invasores, misturámo-nos. Seria melhor se viajássemos sem vender perfumes nem tirar fotografias ou comprar garrafas de água esterilizada. Viajar sem a logística destruidora de Alexandre o Grande, sem necessidade de construir Alexandrias ou hotéis de cinco estrelas para contar aos amigos como numa confraria de generais.