Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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os lusíadas

Se tivesse que comandar um porta-aviões rumo ao teatro de guerra, ou uma missão espacial de segunda ordem (as que largam já doutro planeta e se destinam a outro sistema solar), ou se eu estivesse no lugar de Vasco da Gama com o encargo de inaugurar o caminho marítimo de Lisboa para a Índia, creio que usaria sempre o mesmo processo de decisão. Tentaria que cada passo de uma cadeia de comandos decidida contivesse já todo o propósito da ação, um detalhado esboço da forma de a implementar e, em particular, o estado final a atingir. Trata-se, portanto, de aligeirar o meu papel individual para que o processador de cenários depositado em mim ao longo da vida (mas não construído por mim) reconheça a presença de elementos relevantes e, caso a ocasião seja propícia, desencadeie a ação adequada a qual nunca poderá fugir do propósito final. Provavelmente, esta é a melhor definição de sistema racional; julgo que Vasco da Gama pensava assim, mesmo que comandasse um porta-aviões rumo a um cenário de guerra, ou uma nave espacial. Acreditamos que os sistemas se rearranjam, que não existem estados utópicos pré-definidos, que cada circunstância tem a sua própria utopia a qual, retroativamente, modifica a circunstância. Por isso, devemos estar sempre do lado do progresso porque, embora ignoremos onde nos conduzirá, sabemos que está aberto a testar qualquer ideia que areje o ar viciado no cinema democrático, desde a revolução francesa sem ventilação. Pelo contrário, a tradição conserva o ar viciado que faz parte do filme, talvez, também, porque se receie que o ar fresco possa vir poluído ou contaminado com radiações atómicas ou que uma tal guerra venha a acontecer. Em qualquer caso, o passado toma um peso excessivo e leva-nos a impasses frequentes que nos enraízam, mais ainda, num acumulado de irrelevâncias de que persistimos em retirar conclusões – e conseguimos só que não se aplicam ao futuro, a dialética histórica só funciona em marcha-atrás. No teatro de guerra, a bordo, tentaria, ainda, uma derradeira hipótese negocial; não uma rendição incondicional abusando do potencial destruidor do meu porta-aviões, mas uma solução que salvaguardasse a dignidade dos meus opositores. E não é por uma virtude humanista, tão só porque a humanidade descobriu à sua custa como, sem o contacto visual do adversário, lhe retira a condição de humano abrindo portas a massacres sem limite, a um aniquilamento total, como em Hiroxima a cuja culpa eu não sobreviveria. Mas agora, que viajo nesta nave espacial com os restantes portugueses, é preciso não me irritar muito com alguns companheiros que não estimo nem confio. Lembram os marinheiros improvisados do Gama. Cada um deles contém o sóbrio desespero da nação, cada um deles, tal como nós, e como Vasco da Gama, contém o projeto de impérios de muito curta duração dos quais guardamos uma ténue hiperconsciência. Por vezes, nem um poema resta.