Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o campo da Sociologia

Já não temos disponibilidade para os debates sociais. Já não suportamos os seus pressupostos lingrinhas, mas reconhecemos uma tensão semântica entre diversos níveis de altruísmo. Podemos falar de altruísmo de vários pontos de vista sem nos obrigar a prescindir do nosso egoísmo. A autorrealização é um critério de bondade para quem se autorrealiza ou para o sistema que promove a autorrealização dos seus indivíduos? Só os melhores se autorrealizam ao serviço do sistema; para os outros há um sistema de recompensas por congelarem as suas potencialidades. É preciso que toda a gente fale como se estivesse satisfeita, que possam assistir aos mesmos programas e que tenham o mesmo acesso virtual a um paraíso informulado. Autorrealizar-se é acreditar que o mundo espera por nós um pouco mais à frente e pode acontecer que este erróneo autoconvencimento seja o motor da autorrealização já que esta é uma matéria delicada dentro da nossa identidade de empreendedores do eu. Mas, verdadeiramente, estimaremos todos a liberdade de decisão do mesmo modo no sentido de desempenharmos o papel de herói da nossa autorrealização matando os dragões da alienação? Hoje as boas decisões estão regulamentadas e não podemos escapar-lhes. Assim como sabemos exatamente qual o melhor antibiótico para a dor de garganta, também temos critérios para avaliar qual é o melhor supermercado ou a melhor religião ou a melhor ração para o gato e, assim, os debates sociais foram amortecidos como se não houvesse um espaço dentro da ética que os albergasse, ou como se fossem insolúveis. Uns dizem que as várias revoluções sociais apenas mudaram a superfície da injustiça; outros respondem-lhes que a sociologia é uma teoria da superfície e que por baixo há, apenas, o lixo da história e um cemitério para os que morreram sem a proteção de uma teoria do julgamento final. Dizem os debates sociais falharem pelo uso de conceitos errados. Não estão avaliados os efeitos dessas vertigens históricas sobre a construção da humanidade. Como se houvesse na mentira e na falsidade um dinamismo e uma capacidade movimentar as massas, de as pôr a ulular atrás da trampa de um demagogo vulgar a que outro demagogo se terá de opor e nós que estamos de fora e criticamos as regras do jogo, dizem-nos que não podemos estar bem com Deus e com o diabo, de barriga cheia pretendendo defender os de barriga vazia, a cabeça cheia de literatura pretendendo ter compreendido tudo e melhor do que os que nada leram, que são os que nós declaramos «explorados». Antes morríamos cedo, poucos nos realizávamos, logo adoecíamos e custava resistir; mal pensávamos a justiça e o tempo, logo nos exilavam e havia de repensar o tudo de um momento, mas este «tudo» que era difícil era muito pior para os explorados. Hoje fala-se dos sistemas de exploração como máquinas amorais do progresso material e é difícil contestar o que fazem. Os próprios explorados dizem-se contentes com a inércia que elas produzem, dizem-se seguros, gostam do que comem e entretêm-se o mais que podem. Seria preciso uma grande crise, mas já não há grandes crises fora do próprio espetáculo do mundo. É o que nos diz a sociologia.