Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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o exilado

 

«Porque se intitula poeta?», pergunta-me a juíza popular. Porque a minha fala rima. É um dom: também me intitulo «humano» sem ter feito estudos específicos. «Mas sei que recebeu o Prémio Nobel em 1987 como herói da desestalinização; qual é a força que atribui à poesia?» A pergunta era maldosa. Percebi que me queriam diagnosticar «delírio paranoide reformista» e exilar-me para longe de S. Petersburgo. Respondi-lhe que um poeta luta pela justiça, que há uma intensa noção de justiça no interior de cada poema que cada leitura desvenda e respeita, mas o valor desta justiça é um epifenómeno. O que conta na poesia é o firmamento que a recobre e uma zona de arrebentação onde se concentram os que observam o mar desinteressadamente que pode ser ou não ser o caso do poeta, expliquei-lhe com doçura. Ao contrário da juíza, cujo passado a manteve numa esteira nominal confortável, eu confrontava-me com uma hierarquia de lutadores que se espojavam na própria derrota. Eu descrevia o seu colapso como quem disseca os cadáveres dos dissidentes de um hospital hipernormalizador. Na verdade, qualquer ordem é sanguinária, permite o saque, o estupro e arruína quantos se lhe oponham, enquanto para o poeta e para o juiz o que interessa é a coerência interna do que dizemos. São ciências esdrúxulas, ambas, domínios reinventados contra uma humanidade disfuncional. Entre ambas, a polícia com os seus delinquentes mal amados. Ofereceram-lhes balões policromos cujas verdades desaparecem na altitude, mas todos aplaudem. A polícia incentiva-nos a aplaudir a altitude e todas as suas manifestações, mas ninguém nos explica porque o balão ascende nem qual o seu destino último. Há nestes fenómenos uma contagiosidade que os torna propícios ao mito e à fábula, mas nenhum animal serve aos paradoxos que enervaram a juíza. Perguntar-me-ia: «Porque se intitula fabulista? Fez estudos específicos?» Qualquer animal é um exímio e despudorado produtor de excrementos, responderia, a humanidade é a flor do estrume, a justiça a sua coroa. No poema limito-me a olhar as flores sem dizer se estão erradas.