Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

algumas dificuldades da sociologia contemporânea

Sobretudo, hoje que se acentuaram as diversidades, é melhor evitarmos falar do homem contemporâneo. Porque há muitos homens contemporâneos cada um com a sua medicação, cada um com uma atitude estabilizada em relação ao halterofilismo, cada um com a sua posição de dormir e de, antes, posicionar a escova de dentes, cada um com devaneios confabulados sobre a sua infância em que os papéis dos progenitores são, na atualidade, reencarnados por um estado hiperpoderoso, mas descontrolado e caprichoso. Defendemos que a importância dada à imagem do eu é um importante direcionador do pensamento desde o ancestral Narciso, mas sabemos que há: 1) gente contemporânea que raramente olha para o espelho e são narcísicos, 2) gente que olha para o espelho como um lavrador olha para as alfaces, por uma questão de autocontrolo, 3) gente que é contemporânea e é narcísica e olha para qualquer superfície que reflita a sua imagem, mas não se arrisca à notoriedade nem a que falem de si, 4) gente que é contemporânea e é narcísica, mas já não olham para a sua imagem porque toda a gente fala deles, 5) gente contemporânea, não narcísica que alcançaram notoriedade pela qualidade do que fizeram, 6) gente contemporânea que não é narcísica nem olham o espelho nem querem a notoriedade e, 7) gente contemporânea, não narcísica que olha comedidamente o espelho, mas altamente dedicada ao sistema (ou a contrariá-lo) por uma questão racional (interesse em que funcione), ou por generosidade (para que o sistema funcione melhor, dão mais do que o que são obrigados), ou por altruísmo que é um amor sistémico de vistas largas. Portanto, a primeira conclusão a tirar é que todos os homens contemporâneos são contemporâneos, mas ser contemporâneo não é, simplesmente, ter o pensamento focado na contemporaneidade, é, sobretudo deter um enorme volume de informação sobre o mundo e não a saber pensar. Olhar para o espelho é tentar organizar essa informação a partir das condições básicas: «Este sou eu? O que faz ele aqui? Fui eu que o trouxe? Conto comigo ou com ele para sairmos deste impasse?». Um observador que tenha lido Freud recua aos mitos gregos e postula determinações instintivas, mas não tem como as provar. O narcisismo é uma explicação simpática para todos pois supõe pessoas ao mesmo tempo, contentes consigo e com o sistema que, quanto mais admiradas são, mais admiração julgam merecer. O ponto é que a reação narcísica é imprevisível, desde logo porque muitos narcísicos reagem com enorme fúria ao serem menosprezados relativamente ao elevado coturno em que se têm. Essa fúria tanto se volta contra a humanidade que o desmerece, como contra o próprio que fracassou. Portanto, quando falamos do homem contemporâneo, da economia contemporânea, até dos frigoríficos contemporâneos e do seu recheio, percebemos a ligação de tudo à cultura contemporânea, mas a atualidade esvaneceu a definição de cultura – até a definição de virtude e de futuro para o homem contemporâneo. Tudo parece, hoje, depender de um método de medida que, ao objetivar, nos introduz na medição e não sabemos o efeito do narcisismo no resultado dessa medida. Dizemos tudo ser relativo, mais vale, portanto ser tolerante com a diversidade, apenas afastarmo-nos dos contemporâneos cujo narcisismo nos incomoda pois a história lembra os crimes de que são capazes esse género de pessoas.