Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

os ETs levantam as mesmas questões que outros seres

Em quê um ET invisível difere doutro visível, além de diferirem na respetiva transparência? Da mesma forma que dois humanos se aparentam independentemente de se verem ou não e tiramos conclusões das condições de visibilidade, dois ETs aparentam-se, mas não retiramos nenhumas conclusões das suas condições de visibilidade. Nós nunca vimos ETs e, portanto, a questão de avaliar a sua visibilidade na hipótese de existirem é desadequada face à importância individual da própria existência. Quantas pessoas passam do estado de desconhecidos para o de amantes ou de amigos ou inimigos ou, mais raramente, para o de pessoas que admiramos por qualidades específicas e essa mudança de estado é crucial na nossa socialização? Para que uma pessoa invisível nos prejudique temos de acreditar incoercivelmente na sua malvadez de pessoa real e no poder simbólico de uma agulha que espetou numa fotografia nossa. Por outro lado, estamos contentes por muitas pessoas existentes continuarem num estado fluido entre uma individualidade virtual, uma invisibilidade no prédio vizinho e um desaparecimento por acidente cardiovascular ou numa queda do helicóptero. São pessoas maximamente interessadas no futebol, na vida eterna, em paleontologia de insetos solipsistas e, da mesma maneira, os ETs, na hipótese de existirem, poderiam aborrecer-nos com as suas conversas monotemáticas. Não sabemos como gostaríamos que nos aparecessem, em nobre medieval, mas com o corpo invisível no interior da armadura como fantasmas friorentos ou com a elegante nudez de corpos bem adaptados a uma vida que já não carece de se reproduzir. Não sabemos porque pomos estas questões, mas não há dúvida que levamos muito a sério a nossa capacidade de pensar coisas inevidentes ou apenas invisíveis, não apenas as da chamada metafísica que sendo uma lógica das condições do conhecimento, é, também, uma lógica do desconhecimento. Como lógica das condições do conhecimento sustenta-se no pressuposto de que conhecemos; como lógica do desconhecimento não precisa de nenhum pressuposto senão de que há coisas a conhecer. Mas, neste caso, porque escolhemos pensar paradoxos que nos fazem construir telescópios gigantescos que não captam nada que esclareça a nossa ânsia de evidência e logo outros ainda mais potentes e outros ainda colocados no espaço ou construir sondas que por lá deambulam e nada de relevante nos devolvem? Porque não deixar sossegados os seres que ocupam a categoria de coisas inevidentes?, porque não os tratar como inexistentes, antes declaramos falhados os nossos atuais telescópios? Porque preferimos pensar em ETs invisíveis, em ETs discretos cujos rastos são conjeturas, em ETs tímidos ou indiferentes à nossa beleza, ou pensar que os ETs ocupam outra escala visual, a escala dos ácaros que apenas detetamos num espirro, ou a dos vírus que detetamos quando nos fazem febre e dizemos que foi uma corrente de ar? Algumas respostas às questões sobre os ETs encontram-se no nosso cérebro e referem-se a nós, àquilo que pensamos de nós e da vida e àquilo que erramos quando pensamos nos outro e no que desconhecemos.