Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a democracia liberal

«Todas as vozes são importantes, sonham, respiram, têm opiniões. Todas as vozes deixam rasto algures no vento, até a criança que, ao primeiro grito, morreu». As afirmações pomposas e melodramáticas são-no porque não especificam o âmbito dos termos, apenas gritam como lutadores profissionais que combinaram os golpes para melhor nos entreter. Um navio que se afundou, quem lembra os marinheiros devorados pelos tubarões? «Digo a voz, não a alucinação da voz». A voz penetra o pensamento e extrai-lhe a doença ou a voz apenas dói, apenas lastima o silêncio do inconsciente? Você não sabe a importância da voz, você ignora o alcance da voz, você é um demagogo da sonoridade da mente. «Cada momento da voz é a revolta contra o silenciamento, contra o desprezo sistemático, contra o poder dos papagaios mediáticos despenteando as suas vulgaridades». Sempre existiu a tolice política: na vanidade do poder, na sua platitude, nas suas autoilusões, no seu narcísico estonteamento, mas, também, do seu lado: na histeria barafustante, nas palavras de ordem mal rimadas, nos punhos levantados de um poder com ejaculação precoce, na raiva edipiana a qualquer autoridade que cozinhe. «A voz sobrepõe-se à história. Se tomamos o testemunho dos que sonham, dos que respiram, dos que têm opiniões, encontraremos tanto a racionalidade arquitectónica da voz, como a irrazoabilidade dos invasores ululando selvaticamente». Você é um ingénuo incapaz de cozinhar um pudim flan ou de ouvir a respiração de uma nuvem. Experimente nivelar os ingredientes do arroz de marisco como nivela as vozes: cada uma tem o seu lugar e a sua ocasião, mas os lugares e as ocasiões diferem em importância. «Não podemos psicologizar a democracia, criar castas e excluídos, pois sem uma boa cosmogonia ao modo hindu seria a revolução e a instabilidade comercial». Muitas vozes sentem-se insignificantes agentes do nada, não sonham, não pertencem; se têm opiniões, não as compreendem – muitas vozes suicidam-se, mas sofrem mais os que mantêm uma esperança.