Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o futuro visto do chão

É importante baixarmo-nos; com o olhar ao nível do chão, cheirar a terra, caminhar pelos trajetos das formigas, tomar consciência da minúcia íntima das suas decisões quando caminham por um carreiro que nós destruímos paranoicamente. Ou talvez tenhamos alguma razão para as temer. Trata-se de uma espécie rival, a massa dos seus corpos juntos ultrapassam de longe a da humanidade e ignoramos que estratégia de expansão sideral escolherão, mas junto à terra sentimos alguma inveja da sua lógica organizacional. Entre nós a humildade também é uma virtude, mas demasiado facultativa, não participa do síndrome do triunfador; conota-se com a fraqueza, com a passividade, com uma virilidade que se recata, que se adia, que deixa todo o espaço ao outro ainda que ninguém tome nunca qualquer iniciativa. As organizações civilizadas gostam de ser vistas do alto, no topo, os seus enfatuados líderes, rodeados de uma catrefada júnior de assessores dispostos a tudo. São ilhas de despotismo: tal como uma termiteira existe para propagar térmitas, uma empresa com o seu líder ou quejando no topo, existe para gerar lucro. São valores absolutos fáceis de partilhar. A troco de pouco entramos para sócios da marisqueira onde comemos mexilhões e caranguejos carregados de mercúrio evitando pensar, enquanto predadores, no que é a vida e nas luxuriantes interrogações da filosofia. Um bêbedo tombado na calçada está em repouso metafísico. As formigas não se transcendem nem as carpas malgrado uma duradoura vida. Quanto mais esta se prolonga mais o viver se autojustifica. A tranquilidade dos velhos não é humilde; é uma constatação da platitude das grandes tiradas retóricas dos humanos mais notáveis. Atingiram um nirvana como se observassem a vida deitados numa esteira por terra, tanto numa rua de Bombaím pejada de mendigos, como deitados num leito articulado numa clínica geriátrica suíça. Os odores diferem, mas indicam o mesmo aplanamento das grandes forças que encorpavam a adolescência. A curiosidade transferiu-se para questões prosaicas que podem ter respostas seguras: «Choverá?». «A minha vida, o que a ameaça?». Uma resposta torna-se cada vez mais plausível: «Deus existe: Preciso das suas ancestrais promessas, preciso que o fundamental se viabilize». A ideia de «fundamental» foi sendo negociada ao longo da vida. Antes foram condições rebarbativamente reivindicadas; depois, desgastadas, perderam voz. Aplicaram-nas a demasiados elementos que já não se opõem, já não lutam, já não suscitam um alinhamento como se nos dissessem que já precisam que os defendamos e que nos podemos ir. A humildade é a única forma de convívio com a complexidade. Conhecê-la é ignorar e ser simples. Observar os animais que rastejam e que um dia nos comerão.