Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre a existência

Dar um nome: «Maria» (que significa soberana, vidente, pura), «Frederico» (que significa rei da paz), «Vera» (que significa verdadeira, a que tem fé), «Manuel» (que significa Deus connosco), «Crispim» (que significa o de cabelos crespos), «Sofia» (que significa sábia), mas também «Touro Sentado», «Yan» (que significa com a graça de Deus), «Chang» (que significa livre), «Fátima» (que significa mulher que realizou seus filhos no conhecimento), «Omar» (que significa o que tem uma longa vida) e muitos outros milhares de nomes colocados sobre biliões de humanos do passado e do presente (esperamos que os humanos nunca sejam designados por um número como na tropa), cada nome transporta uma identidade virtual que nunca sabemos onde irá parar. Cada nome é um augúrio e um instrumento de sorte, um presságio e uma carta de recomendação, sobretudo, algo que os pais juntaram esperando acrescentar uma determinação sobre o destino num plano escapado da hereditariedade. Depois, cada um procura o seu bem e o da humanidade (em diferentes proporções), procura ser como os outros e procura ser melhor que os outros (correndo, em ambos os casos, alguns riscos), procura empenhadamente a sobrevivência individual e procura empenhadamente afilhar e defender a sua família à custa da própria vida, procura o sentido rigoroso das palavras e procura desviá-lo a seu favor. Cada pessoa usa a sua energia para alimentar uma vontade de poder que atingiu o paroxismo em Alexandre o Grande, o fazedor de Alexandrias pelo mundo ou Genris Khan, o grande copulador dos vencidos ou Júlio César, o grande pacificador. Talvez dependa da ideia de mundo que cada um desenvolve, o percurso que fará; uns arriscam porque o mundo é um desafio que podem vencer e têm nomes de triunfadores como José (Estaline), ou Adolfo (Hitler), ou Mao (Tse Tung), ou Teresa (de Kolkata), outros têm nomes pequenos ou diminutivos que se confundem com os de outras pessoas do bairro com quem jogam à bisca no jardim, procurando, também, vencer. Mesmo os altruístas procuram vencer pois pensam que o seu altruísmo é melhor que o dos outros. Não disputam uma noção de «melhor» nem o lugar do eu na distribuição de vantagens, mas tão só a passagem de uma física da personalidade centrada na sua historicidade em contraponto com a dádiva de um corpo insubstancial que tanto pode ter aparecido há um século como há cem mil anos. No fundo, o que está em causa não é donde vim, nem o que sou, nem para onde vou (eu, tu ou alguém em qualquer outro lugar ou tempo), nem a matéria específica da vida com a linguagem montada e pronta para tudo, mas que propriedade é essa que nos faz gastar-nos em justificações e inventar noções de harmonia demasiado abrangentes, a ponto de nos excluírem. Do ponto de vista daquilo em que nos tornamos, tanto faz, hoje, estar aqui como ali. Multiplicaram-se as ocasiões de decidir que livro abrir e é cada vez mais aliciante não abrir nenhum, pois as coisas vêm ter connosco em curtas mensagens neutras como boletins meteorológicos verdadeiramente efetivos no sentido de capazes de causarem tempestades ou dias de sol aberto, e, assim como há nomes preparados para o deserto, envoltos em roupagens largas, outros sugerem a ondulação a bordo de um navio pirata, outros ainda, romances de cavalaria com amores violentos e abandonos precipitados. Uns requerem intensamente uma ajuda sobrenatural que outros dispensam pois realçam atributos e virtudes. Portanto, o tempo apagou os étimos dos nomes a favor da esperança numa autoconstrução de cada um que hoje é imprevisível tais os caminhos abertos, mas, também, encaminhada entre as barreiras apertadas da normalidade. A subtil distinção entre ex-sistência, a pessoa abrir-se a um destino num lugar, e in-sistência no sentido da pessoa, apenas, ser como uma flor desabrocha num caldo de cultura, é estéril e quase inconcebível: hoje são semelhantes os efeitos dos lugares e o ser é uma matriz de decisões pré-programada, sujeita às mesmas entradas em todos os cantos do mundo. No passado, o «ser-aí» condicionava-nos; hoje, é um preciosismo obsoleto. Talvez no futuro apareçam formas de vida inteligente marcadas por um local e por circunstâncias verdadeiramente variadas. Então, os étimos dos nomes voltarão a significar, cada pessoa terá de se adaptar e fazer-se por dentro e por fora, a vestimenta, o vocabulário, o corte de cabelo, a própria religião. Cada um terá de a repensar de acordo com o quer fazer de si. Ignoro como me chamarei então, talvez Chang Maria; Félix é uma expectativa que não alimento, mas gostaria de conservar o «Costa» que significa o que vive no litoral.