Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

por vezes maçam os programas literários

Alguma má literatura é muito mais literatura do que muitas das obras-primas da literatura. Não se trata de elaborar num paradoxo, mas de demonstrar como para escrever um certo tipo de maus livros é preciso conhecer e amar a literatura e, sobretudo, não a compreender. Muitos livros maus, felizmente, não foram lidos, logo não contam como fenómenos literários (acontece o mesmo com muitos livros bons). O seu aborrecimento não nos chegou, o seu vácuo não nos contaminou, não alimentámos a sua platitude mercantil, mas o pior efeito do livro mau é obrigar-nos a verificar onde falha, empenhar-nos num diálogo com a sua mediocridade, com a sua inabilidade, com a sua inoportunidade, com a sua vanidade. Assim, o verdadeiro paradoxo da má literatura é que, mais do que a boa literatura que nos esmaga, ela ensina-nos os erros que não deveremos cometer, expõe-nos aos formatos mais detestáveis da vulgaridade de uma época, ao mau-gosto do consumo massificado que visa a pura ostentação, às ideias que já não vale a pena pensar. Em muitos aspetos não se distinguem um bom e um mau autor, nem pela sofisticação da sua cultura, nem pela vaidade que pode ser mansa, quase humilde, em certos casos, ou, mais frequentemente, excitada e de um atroz narcisismo barafustante e ávido de atenção. Porque quase todos os autores são histriónicos no sentido de bufões deambulando pelos holofotes dos jornais e procurando demonstrar que são geniais ou que não acreditam no génio, mas acham possuir uma centelha que os torna únicos. Também não conseguimos definir «génio», mas pode ser um conceito preguiçoso se os deuses não nos inspirarem como a Hesíodo ou se nada de especial tivermos para contar como Homero. Algumas pessoas que sentem a centelha do génio, como Pessoa terá sentido, dedicam-se-lhe furiosamente: procuram aproveitar cada minuto de vida com uma ideia estratégica do que é literatura e de como evitar ter de deitar fogo aos templos para adquirirem uma fama estável. Heróstrato foi um génio porque deslocou a ideia da imortalidade para a sua própria encarnação em vez de deixar o seu espírito sujeito às vicissitudes de uma moral que ele não aceitava. Talvez porque não acreditamos em reincarnações desenvolvemos esta necessidade de atenção com vista a uma reencarnação na cabeça de cada leitor. O mau autor tem pressa, quer ser absorvido de imediato como o vírus da gripe, quer o seu nome mencionado, premiado, discutido, luminotecnicamente propagandeado como autor do ano e convidado para programas literários de massa onde pode emitir opiniões chocantes ou de um lirismo obsceno. O bom autor dá tempo ao tempo, mas é tentado a fazer o mesmo papel que o mau autor e raramente o faz com melhor qualidade. É preciso que tenha superado o próprio narcisismo; então desponta uma generosidade panteísta e uma sábia abrangência em tudo o que diz e voltamos a saber distinguir a boa literatura pelos seus magníficos efeitos. Contudo, foi a má literatura (que é inescapável) que nos ensinou o cânone literário e é nela que assomam as zonas frágeis da humanidade de um autor e retiram grandeza até a um grande autor.