Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o final do ano

 

Por vezes, chegamos ao fim do ano com a maior parte dos assuntos resolvidos. Alguns resolveram-se de facto ou encontraram situações que pudemos declarar soluções, outros concluímos que eram problemas mal postos ou que não deveríamos ter tido a ousadia de os colocar. Isto porque: 1) deveríamos ter excluído todos os que não dependem de uma causalidade simples; 2) deveríamos ter inventariado todas as causas simples; 3) deveríamos tê-las impedido de se tornarem complexas; 4) deveríamos ter excluído todos os fatores moduladores afetivos e emocionais; 5) deveríamos ter pensado que um ano é uma escala demasiado grande para muitos fenómenos cujo rasto se perde nessa demora, mas uma escala ínfima, até para pensar a vida de um humano. Comentários: a 1) Os humanos chamam liberdade ao seu essencial inacabamento: a) o qual persiste como abertura ou como mal-trapalhice, como esplendor ou como libertinagem, como nobreza ou como indolência; b) a vontade adquire matizes heroicos ou fanáticos, comprometidos ou indulgentes, como uma tela semiacabada é declarada pronta pelo pintor; c) a própria mentira, se não é assim declarada pelo mentiroso, fica um assunto social incómodo. A 2) Os humanos nunca especificam convenientemente que tarefas se propõem realizar: a) a maior parte das obras, ou um simples poema, resultam de encadeamentos simples de frases e o resultado, embora belo, não é complexo (poderá ser refutado e continuar belo); b) se uma situação mudou por ação humana, sem ação humana como mudaria?, ou seja, como muda o homem inativo?; c) as duas mãos podem não coincidir numa intenção; dois amantes podem não coincidir numa intenção; uma população de patriotas pode envolver-se numa guerra civil. A 3) Os humanos criam complexidade ora por laxidão e incompetência ora como se fossem inerentes à vida a curiosidade e o risco: a) as causas complexas não são belas, apenas nos estimulam para que as decifremos ou para que estabeleçamos a sua lei; b) mas podem sê-lo como uma tempestade na Nazaré; c) as situações complexas podem ser simplificadas e declarado ruído e inutilidade o que ficou de fora, mas esta decisão não é argumentável (por isso é complexa). 4) Os humanos são confusos a pensar e ainda mais quando se permitem declarar o que está certo e o que condenam: a) a vaidade é como usar uma pistola; b) a dignidade é uma máscara antigás desativada, mas essencial para o poema; c) a vingança é um vidro fosco. A 5) Os humanos usam relógio e é comum comunicarem perguntando as horas: a) a linguagem não impõe nada; b) os ciclos curtos podem corresponder a intenções satisfeitas (a subjetividade impera ao falarmos de uma vida numa perspetiva cronométrica); c) a linguagem não tem de ser enunciada e, ainda assim, alguns dos problemas que pensámos resolvidos poderemos voltar a eles no próximo ano.

as ligações difíceis

Poderemos continuar a tomar o nosso cérebro como o amigo com quem jantamos com agrado e nos conhece intimamente ou ele tornou-se outra coisa, diferente de nós que temos a responsabilidade do «eu», de bem o usar, de o levar a algum lugar, de lhe criar condições históricas, como quando construímos as personagens de um romance? Não se trata de fazer o eu triunfar sobre a mecânica do cérebro nem sobre a arrevesada mecânica social, mas de o fazer continuar a dirigir uma representação mais ou menos realista que designamos por «minha vida». Temos de o impedir de andar, nas suas horas de ócio, à deriva pelas ruas da cidade, como uma prostituta, sem ter de o amarrar à secretaria da biblioteca de um cliente compulsivo de prostitutas. A linguagem é apenas uma estrada de montanha com fabulosas vistas que se encontra bloqueada por uma avalanche a meio da encosta. Os utilizadores criam novas estradas alternativas para contornar o bloqueio, mas que, por sua vez, também são bloqueadas por outras tantas avalanches. Mais vale evitarmos as grandes narrativas, as justificações que enraízam o pensamento num solo opaco donde nada se vê, evitar ainda solenes declarações, quer as que louvam os mitos e deixam o cérebro a pedinchar na rua quer as que o dissolvem num extracto para consumo homeopático com anúncios sugestivos (mas eventualmente enganadores: cure os seus complexos de inferioridade, afaste o infortúnio para sempre, as doenças da bexiga, o tédio amoroso; ou abertamente incríveis: organize o seu cérebro a partir da eternidade da alma como Ramsés III, construa a maior pirâmide do mundo e deixe-a desocupada pois toda a adversidade é convertível em riso). Portanto, escondemos a frágil amizade entre o eu e o cérebro, evitamos falar dela como das relações muito apaixonadas, mas socialmente inconvenientes; evitamos confrontá-los com o que fazem falhar gabarolando-se sempre dos seus pequenos poderes. Começamos a reparar como aborrecemos todo o mundo com a vanglória que só frente ao espelho, num recolhimento soturno, sentimos em plenitude. Hoje dizemos: «O cérebro ganha uma aterosclerose impossível de desentupir, o eu esquece-se do que comeu ao jantar e dos grandes momentos da própria cobardia, indiscriminadamente, mas a demência não é uma desculpa». O estado responde-nos: «Hoje já não te mando para a prisão, mas obrigo-te a colocares um chip que te avassala aos meus códigos. E terás que alto gritar que és livre e me defendes».

prolegómenos e inconclusões (sobre a Europa)

Quando penso um tema como a Europa, por exemplo, ou quando planeio o fim-de-semana ou, até, quando nada penso, que é uma espécie de operação predicativa com um valor nulo atribuído a tudo o que possa ser pensado, ignoro onde o pensamento começou e onde irá desembocar. Além do que aparece numa torrente cenográfica onde sou um átomo democrático, sou, mais consistentemente, uma estrutura que pressinto em ruído neuronal, como se o cérebro fosse um jardim zoológico disposto em camadas: a gaiola dos répteis inertes ao sol como monges budistas, a camada das grandes aves de altitude aterradas em simulacros de penhascos, a jaula dos predadores reverenciada como modelo de bravura pelos super-homens do circo e outros académicos da fama, uma camada com a jaula dos símios, como eu à espera que a linguagem apareça. Na camada superior, as comunidades dos insetos isoladas em pequenos nichos numa sala penumbrosa, parece significar uma individualidade esmigalhada por rainhas-mães ocultas num hipocampo qualquer. Reconheço que não sei o que sou, a estadia num cenário sem legendas que o descrevam é enigmática como a chegada a uma ilha após o naufrágio. A Europa não é uma ilha como a Grã-Bretanha, mas uma pequena península de uma enorme Ásia e quando a pensamos é difícil dizer onde começou. Recuamos até à África gigante e solarenga onde ainda hoje latejam formas inéditas de vida, onde os répteis do meu cérebro são felizes em rios tépidos, onde as aves emplumadas vivem e morrem por uma indefinida altitude, os predadores matam com a satisfação da sua lógica social, os chimpanzés dizem o indizível de uma luxúria que aparece nos meus poemas – a selva com os insetos autistas de uma subfilosofia inexpugnável. A Grã-Bretanha entra e sai da Europa tal como posso sintetizar as más razões do meu pensamento num touro no meio da arena ou num slogan pelos direitos dos animais. É uma operação semântica. Há um paleolítico submerso no que penso tal como há um inconsciente inglês que mantém o desejo aprisionado como o dragão em Loch Ness. Ignoro em qual das jaulas guardo a rainha Vitória e o resto do império por resolver. O meu pensamento protege-se. Não gosta de intuições. Supõe e pensa como se nada de relevante existisse anterior ao pensamento, mas pensa frequentemente no que é relevante anterior ao pensamento quando quer pensar o tempo ou a Europa e o que ela significa.

as palavras de cada género

A própria definição de «mulher fatal» é demasiado explícita se a olhamos a partir dos casos em que a vimos aplicada com propriedade. O critério são desenlaces amorosos com nítidos e vantajosos triunfos o que se tem associado a uma apresentação e a um estilo hiperfeminino relativamente estabilizado ou, melhor dizendo, independente da circunstância ou do discurso. A pose é uma atitude e a atitude impõe a pose mesmo que não haja um interesse material na situação como se o hiperfeminino fosse uma máscara indistinta de um caráter que não se chegou a formar ou como se nela o sexo feminino preenchesse toda a existência e pudesse suprir todas as necessidades. É a mensagem que passa a mulher fatal: «Prometo-te tudo, se me deres tudo», mas tudo é um limite onde só cabe quem domina e a fatalidade espalha-se e a ilusão é assimétrica. Será a mãe a temível indutora da paixão?, a filha preparada com um sexo de cobrador de impostos? Muitas questões sobre a profundidade dos motivos para os comportamentos enraízam numa época de deslumbramentos inarráveis. Talvez tudo tenha começado das cinzas de alguma forma condensada do tempo. As especulações são muitas, a maior parte interroga as palavras ou recombina-as de modo a resolverem as suas contradições, mas é nelas que os caminhos se abrem. As palavras vestem o corpo com o tiquetaque de uma bomba-relógio. O banqueiro poderá não existir ou apenas alguém a passar sem se insinuar sequer: o carteiro, o polícia de giro ou um vendedor desativado; «mulher fatal» são conotações e expectativas num jogo de imaginações solitárias: o decote, o recorte da silhueta, as madeixas quando soltam o rosto são vertigens fílmicas enquanto as promessas do olhar são mastigadas como um chocolate inacessível. O que conta é o feminino como receptáculo fremente e condicional – permanentemente preparado para ser admirado devendo ser materializável tal admiração. Não tanto numa joia, num jantar, num adereço de luxo, a mulher fatal quer o que não lhe é oferecido por isso a sua insaciedade é fatal. Poderíamos valorizar a mulher fatal como uma heroína insubmissa à ordem masculina, assim reformulando este síndrome em termos de poder, mas estaremos a fugir do ponto que é a profunda inscrição do feminino como extorsão, como se a porta da gruta se fechasse e asfixiássemos no meio dos tesouros. Apontar o 007 como a sua contraparte masculina retira a fatalidade à vulgar sedução. Como outros donjuans, 007 é um sexista extensivo, nada pretende além da cópula com uma parceira instantaneamente aliciante, não a submete, quere-a luxuriante, nada lhe sonega, nem pretende mais que cultivar um estilo, não a prejudica, diz-se partidário de um prazer equitativo; é, apenas um desviante matrimonial, um oportunista para oportunistas. Mas não podemos dizer que alimenta os devaneios amorosos pela vida adentro como o Cavaleiro de Chamilly, mesmo porque esses devaneios se tornam pura literatura em Adília Lopes e, em Fernando Pessoa, a literatura dos devaneios dá-se sem devaneios. É o modo radical de escapar a uma mulher fatal.

uma profunda descrição da consciência moral

A paciência tem ou não tem limites? Esta como muitas outras questões não tem uma única resposta – é quando invocamos o atributo «sensível ao contexto» que, neste caso, tanto pode significar: 1) a tolerância para com muitos aspetos da humanidade que são intoleráveis, 2) um agudo sentido da economia de esforços que seleciona perspicazmente os assuntos que não merecem ser afrontados, 3) uma lúcida avaliação das forças antagonistas, da legitimidade dos seus interesses mesmo que se oponham ao que antes defendíamos, 4) um agudo sentido do paradoxo como se a estupidez tivesse sempre um desenlace cómico, ou fosse cómico o absurdo, 5) uma timidez que retira primazia às próprias razões por insegurança quanto à sua fundamentação, 6) generosidade para com as intenções alheias ainda que negativamente avaliadas, 7) uma absoluta descrença de que a própria oposição produza algum resultado significativo, 8) medo da agressividade do outro face à oposição que se lhe faça, tanto mais violenta quanto mais fundamentada ela for, 9) medo da própria agressividade desencadeada pela posição do outro avaliada como idiota, 10) e muitos outros «contextos». Portanto, podemos sustentar que a paciência tem limites e a nossa reação depende da gota de água que transborda o copo. Mas o que transborda do copo não é só a gota de água que o fez transbordar, é uma quantidade de água eventualmente superior à que existia no copo o que, mais tarde, nos fará reconhecer que mais valia ter paciência ou iludir o confronto com alguma habilidade. No caso de Job ignoramos qual o contexto, mas provavelmente teríamos que acrescentar uma 11) razão contextual que contemplasse a relação de amor/temor para com um deus difícil. Nós apreciamos deuses pacientes – com uma paciência ilimitada como nós temos para com as crianças, e não sensível ao contexto, i.e., máxima em qualquer contexto. Não se trata de a merecer, mas dela lubrificar a nossa proximidade a Deus a ponto de, por vezes, escorregarmos e cairmos nos seus braços, outras permitirmo-nos as maiores javardices apenas porque perdemos o medo.

paracetamol

É um comprimido branco o paracetamol. Minutos depois, o mal-estar, a febrícula, as dores de cabeça passaram, mas não é a cura, é o efeito do paracetamol. Na verdade, tudo pode estar a piorar no interior do corpo, a multiplicarem-se as colónias de bactérias e de vírus, as nossas defesas a diminuírem, mas com paracetamol o corpo sossega. Ignoro onde se dá o efeito, se se trata de uma campanha maciça pela paz em todas as células do corpo, assim inundadas de uma beatitude química generalizada, se é, apenas, um efeito transitório sobre os mediadores da inflamação, ou se o efeito do paracetamol é uma pura ilusão cerebral de paz, uma falsa trégua que não impõe que o inimigo detenha a sua ofensiva. Mas é assim que pensamos o bem e o mal, é assim que pensamos o bem-estar e a paz, a harmonia do corpo e dos seus ritmos, a quietude dos órgãos mais rebeldes. Acreditamos que se não dói, não há dano. Mas há: quando o efeito passa, a perturbação retoma. Fingimo-nos surpresos, mas sabemos o efeito do paracetamol apenas mascarar a doença e, quanto a esta, esperamos que o tempo cure todas as maleitas. O paracetamol não atua no tempo, não o torna benfazejo nem garante um desenlace favorável para a infeção ainda que o nosso comportamento moral seja irrepreensível. Assim, há pessoas muito pacificadas com o paracetamol ou com outros analgésicos, que morrem paliativamente. Tenho dúvidas sobre a dignidade de tomar paracetamol, se não deveríamos antes, gritar, contorcermo-nos com dores, convulsivar até, como se os demónios da doença se assustassem ou, pelo menos, rebelar-nos contra a ordem natural que nos vence quando passámos toda a vida num meio artificial. Aqui começaria a discussão aborrecida sobre as virtudes da natureza como se possuísse uma bondade intrínseca em oposição às tecnologias e aos cenários factícios em que vivemos. É impossível decidir, mas a questão será facilitada porque em breve pouca natureza haverá a que retornar.

Natal 2016

O Natal é uma festa. Não interessa especialmente o que se festeja, é uma festa de esperança e de generosidade. É difícil ter esperança quando já temos tudo o que alguma vez desejámos e estamos contentes, mas é difícil ser generoso quando isso implica uma parte da nossa satisfação. Mas não é preciso dar nada, basta pensar que daríamos, um abraço, um beijo, uma esmola ou o sobretudo que temos vestido. Tudo pode ser dado ou não, o que é importante é criar uma atitude de abertura e desprendimento e, assim, tornar contagiante a ideia de Natal. Seria importante universalizá-la, comercializá-la, criar símbolos fáceis de identificar, mistificá-la de modo que, na ONU, o Pai Natal representasse com o seu trenó de renas aéreas, o melhor dos programas de intervenção no terreno. Também a ideia de um Salvador seria bem recebida na ONU, uma espécie de super-homem super-político no sentido de um 007 nietzschiano, mas sensível aos argumentos universalistas da Madre Teresa, pois a bondade precisa de eficácia e das tecnologias sociológicas de manipulação de opiniões num sentido a definir. Aqui na Europa, tanto antevemos as ruas cheias de luminárias e sacos cheios de coisas, tudo supérfluo excepto os bonecos de neve, como antevemos uma Europa sovina, cheia de foie gras, galantines e espumantes guardados na dispensa. Na verdade, o peru é um animal estúpido (o recheio pode salvá-lo), mas antes de nos empanturrarmos devemos pensar que o Natal sem peru ainda é uma festa (não é ocasião para a sociologia do peru), que o Natal, mesmo sem ninguém, solitário, mesmo sem Deus recém-nascido, ainda é uma festa, embora, então, nos pensemos no lado mais desfavorecido, como no teatro ficar atrás de uma senhora muito grande e com vultuoso penteado. Os reis magos se aparecessem não nos veriam e mais uma vez ficaríamos de fora sem presente. Resta-nos a televisão acesa a fazer barulho e a dar-nos uma ideia de felicidade. A TV não é um presépio; o presépio é o teatro do Natal, uma ocasião de nos teatralizarmos como se a paz, a justiça, alguma razoabilidade sistémica passassem por nós. Como se pudéssemos evitar atentados, bombas-relógio, proibir o comércio de armas, dar uma esperança às prostitutas ao frio e aos seus clientes que são os nossos primos e os nossos poetas. Já antes de Cristo era assim; também Buda nasceu de uma mãe imaculada. Eu acredito em tudo. A minha racionalidade conforta-me e adapta-se, mas no Natal todos os mitos me parecem plausíveis. Acredito mais hoje no Menino Jesus a distribuir graças e no Pai Natal do que quando era criança, quando se é crédulo por inércia e por subjugação. Hoje acredito por uma necessidade epistemológica de ser ingénuo e puro, acredito pela estabilidade dos argumentos que no fim se resumem a acreditar, pelo menos hoje, que o Natal que festejamos é autêntico.

esboço de uma teoria geral da estupidez

É difícil encontrar uma causa específica para a estupidez por várias razões: 1) manifesta-se frequentemente em pessoas que não são estúpidas; 2) assistimos a momentos brilhantes de pessoas estúpidas; 3) as definições de estupidez ou são estúpidas ou estreitas (restringem-na à falta de inteligência) ou incomprováveis; 4) há pessoas intencionalmente estúpidas que não são estúpidas, mas 5) há pessoas intencionalmente não estúpidas que o são; 6) há pessoas que disfarçam bem a estupidez; 7) muitas pessoas são insensíveis à estupidez; 8) muitos estúpidos são pouco críticos em relação às manifestações da sua própria estupidez e, se são belos, insinuam-se e enganam, se são desavergonhados, insinuam-se e enganam, se são vaidosos, insinuam-se e enganam, se são faladores, insinuam-se e enganam (retirando vantagens de 7)); 9) raros estúpidos são humildes e esses contam com a generosidade dos outros; 10) muitos estúpidos não o são o suficiente para merecer a generosidade dos outros; 11) muitos dos que dissertam inteligentemente sobre a estupidez não conseguem dar-lhe todo o vasto colorido que ela tem, intuímos essas várias manifestações da estupidez e reagimos como à canalhagem; 12) porque há uma falta de graça que parece estupidez e é inépcia social sendo esta relativa ao senso de humor de quem assim a estima; 13) e vice-versa, pessoas que decoram anedotas e que aprenderam a fazer os outros rir e são primitivos; 14) a rapidez complica o diagnóstico da estupidez: tal como há pessoas que caminham lenta e prudentemente na direção certa, o seu raciocínio pode ser homólogo (não nos precipitemos a julgar os lentos); 15) alguns muito fluentes e confiantes estonteiam-nos com o seu elevado débito verbal, o que dizem pode ser irrelevante (e maçador); 16) muito importante e politicamente correto: muitos primitivos parecem estúpidos pela escassa elaboração dos seus raciocínios, mas percebemos o potencial da sua inteligência, se tivessem uma oportunidade de a cultivarem; 17) eu uso da minha autoridade de autor para me colocar de fora deste arrazoado (ser capaz de escrever um texto sobre a estupidez não coloca ninguém nem dentro nem fora da estupidez). Não podemos aplicar teorias probabilísticas à estupidez (no sentido de não partilharmos a nossa parte da estupidez universal) nem teorias evolucionistas (no sentido de a competição desfavorecer os estúpidos e relegá-los para a periferia do sistema) pois a estupidez dissemina-se no tecido social como a gripe, aparece em lugares insuspeitos pois são volúveis os critérios de seleção para esses lugares (os estúpidos bajulantes, os estúpidos íntimos, os estúpidos manhosos, os estúpidos consensualistas, os estúpidos inertes), ou seja, para cada variedade de inteligente, há uma variedade de estúpido capaz de o enganar. Esta sistematização da estupidez permitirá chegar a síndromes específicos articulados com supostos agentes etiológicos: 1) Estupidez pedagógica induzida pelos progenitores: a) variante minor ou falsa estupidez dos inseguros e dos tímidos, retraídos no seu buraco como falsos incapazes, e b) variante narcísica, a dos enfatuados que julgam ter o reino na barriga e são verdadeiros ursos que nos fazem vomitar. 2) Estupidez cosmogónica provocada por ideias, crenças, superstições ou por gazes atmosféricos, tóxicos cerebrais. 3) Estupidez por restrição de cérebro, herdada ou adquirida, a mais fácil de tolerar. 4) Estupidez moral, a mais difícil de tolerar, mas a mais protegida pela legislação.

como equilibrar a vida com soluções simples

 

Recomendei a muitas pessoas que adquirissem um cão, muitas pessoas bondosas, organizadas, bons donos e donas-de-casa que têm vazias as suas casas, raramente visitadas por um filho ou um amigo ou um primo da província, pessoas que não encontram na leitura um sentido e uma tranquilidade, uma paz e sentem que têm alguma coisas a dar que ninguém quer receber. Também porque há muitas pessoas capazes de ser mais generosas com um cão do que com um irmão que a pode, mais tarde, desiludir, caluniar ou roubar. Acariciam ternamente a cabeça do animal que se roja aos seus pés como um sedutor grotesco, mas cumprimentam secamente a vizinhança com quem se cruzam, há anos, a caminho do mercado, indisponíveis para um sorriso aberto ou para se deterem e perguntarem pelo esposo doente em casa há anos, o que chegava bêbedo e altercava por nada. Porque muitas pessoas falam bem com os cães – numa linguagem vocativa, grave e ronronante, que também usamos para falar às crianças de tenra idade ou quando falamos para nós próprios exortando-nos a resistir ou a acreditar nos nossos erros e nas nossas desrazões. Trata-se de uma linguagem interminável que se interrompe e retoma hora após hora, dia após dia, ano após ano até que morra o animal como se intoxicado pelas palavras que lhe dedicámos porque odiamos o resto do mundo. Há pessoas a quem o silêncio amargura como se significasse despropósito e o despropósito fosse uma condenação à morte. Leram a Declaração Universal dos Direitos do Homem, reconheceram ter satisfeitas as suas pretensões e nada mais lhes ser devido, mas percebem o essencial não estar garantido pelo estado de direito, mas por um singelo animal que lhes lambe as lágrimas, ou que nem isso, mas que existe e tem fome e deposita-lhes num canto da cozinha uma caca que é preciso limpar. Tantas pessoas quiseram não ter direitos e serem cuidadas, tratadas num esclavagismo manso que a pouco as obrigasse, que lhes organizasse uma vida sem nada para decidir como agora o cão lhes pauta as horas de sair de casa para passear o animal, uma forma de liberdade que não cansa, externamente decidida. Dispor-se-iam a uma escravidão que lhes retirasse tudo o que possuem e lhes pesa em troca do que dão ao cão: afeto à descrição, uma alimentação científica, segurança para o resto da vida e o espetáculo da própria intimidade – uma intimidade fácil de aceitar que julagamos representar a humanidade em versão terceira idade. Porque um cão está geneticamente preparado para amar, disposto à comiseração, à simpatia incondicional até pelo pior de nós (ao contrário do gato cuja graça é abusar da nossa atabalhoada afetividade). Um cão alegra-se connosco, adoece se entristecermos ou se o nosso clube perder. Nenhum amante é capaz de tão devotada simpatia em troca de tão pouco que é tudo o que temos para dar. Por isso, ninguém nos aceitou e continuamos sós. Pelo contrário, ele reconhece-nos sempre como os seus ídolos, os senhores absolutos, o supremo arbítrio e fonte de toda a justiça, da providência e da ordem natural (dentro de casa).

resolução da fenomenologia existencial

RESOLUÇÃO DA FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL   Hoje, já não faz sentido perguntar pelo sentido da vida. O sentido veio com a vida e nós ou o sentimos de imediato, como, ao ver o sol, temos a luz e o calor, ou, se não o sentimos, ninguém nos pode explicar como o encontrar (é como não ver o sol, não ter luz nem calor). Em qualquer caso a vida continua e as coisas têm de ser feitas. Este é o sentido para muita gente: os filhos que vieram e têm de ser criados, as contas do que se gastou sem pensar, as férias em que se obrigam a viajar para algum lugar exótico, cuidar da própria saúde como um escultor esculpe um torso o mais realista que consiga. Muita gente só em férias sente necessidade de pensar no sentido e encontram-no e quando as férias acabam continuam satisfeitas porque embora regressem ao frio e à monotonia, confirmaram estar no caminho certo. A questão do caminho certo não se correlaciona com o sentimento de absurdo: a maior parte dos cidadãos são democratas bem comportados, nunca saíram do bom caminho e, contudo, é desta população que saem os suicidários mais radicais. Sentem o fundo faltar-lhes como se a vida derrocasse e suicidam-se mansamente com pastilhas como quem recusa dar uma esmola e volta a cara para o lado, mas não protestam nem se revoltam com violência. Pelo contrário, são as pessoas que acreditam profundamente no sentido da vida que ao serem defraudados das suas pretensões (em geral, exageradas) tomam veneno para ratos, enforcam-se ou agarram numa arma e disparam sem hesitar. Provavelmente não encontramos em nenhum lugar do cérebro, vestígios do sentido – o cérebro pensa sem sentido, emociona-se em qualquer sentido, age em sentido oposto ao que deveria tal como as pessoas rezam sem nenhum microaltar cerebral a garantir a existência da divindade. Também da pátria, nem vestígio, nem da coragem que ela nos requer, nem da poesia e o empenho suado em cada palavra. Nenhum destes conceitos tão enraizados na língua enraíza no cérebro, ainda que a linguagem enraíze no cérebro. É com ela que afastamos Deus e a pátria com uma coragem que não vem do cérebro nem da língua, mas que a língua mistifica. Portanto, mais vale continuarmos a falar do sentido e a atribuir-lhe importância porque é ainda mais difícil fundamentar as outras questões importantes. Porque não nos matamos uns aos outros como antropófagos divertidos? Porquê respeitar os fracos e os velhos que já não têm préstimo social?, o que nos impede de os roubar, de os explorar, de os extinguir? Porquê a generosidade, a misericórdia, o altruísmo? Porque é que a beleza é melhor que a repulsa? Porquê a democracia, o futebol e a pílula anticoncecional? Respondemos porque sim, porque aderir é acreditar, o que já é sentir o sentido. Apenas sei que como porque tenho fome, amo se me atrai, canto se estou alegre, se triste choro e que o sentido não está no animal automático do corpo, mas no papagaio da alma que faz perguntas tontas apenas porque a linguagem lhe permite. Hoje, tudo o que é humano tem sentido para os humanos.

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