Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

atenção à redundância

Qualquer enunciação elogia, qualquer invocação de uma coisa a reconhece como coisa e que melhor atributo poderia ela ter do que ser, reconhecidamente, aquilo que, de facto, é? «Esta paisagem» diz, pelo menos, que há um trecho da realidade a que os meus olhos prestaram atenção; ou quando dizemos «homem» de um ser com determinadas caraterísticas, reconhecemos ter atributos comuns a Shakespeare, a Da Vinci e a Pessoa, se tomarmos «homem» uma acepção de género, mas incluiremos a Padeira de Aljubarrota, a Madre Teresa de Calcutá e a Madame Curie se tomarmos «homem» numa acepção de espécie. É, sem dúvida, um elogio, e não resulta da linguagem, mas de uma ontologia essencialmente otimista que faz cada coisa não ser outra coisa pior que a linguagem não pudesse reconhecer. E é recomendável cuidado com o que juntamos à designação quer quando a tentamos modificar como em «homem-rã» ou em «anos-luz», quer quando a adjetivamos como em «lindo homem-rã» ou em «impermeável homem-rã» ou em «velozes anos-luz», ou «felizes», ou «desconectados», pois o risco é de criarmos um novo conceito com uma designação equívoca, i.e., que confunda «homem» e «rã», pois a partir de «homem» não imaginamos a botija de oxigénio nem a natação curiosa entre barbos, chocos e tamboris, menos ainda lado a lado com tubarões, golfinhos ou cachalotes, mas a partir de «rã» chegamos a um especializado devorador de insetos aos pulos nos charcos que não é a atividade do homem-rã. Assim, no insulto, na desqualificação, no impropério recorremos a uma delicada lógica dos termos escolhidos para designar alguém ou algo que nos ameaça ou enfurece; produzimos metonímias com elevada carga emocional em que exprimimos uma raiva assassina: «burro» reduz a pessoa a um persistente fazedor de erros por défice de processamento cognitivo, já «camelo» acresce a incapacidade para trabalhos mais sofisticados e «camaleão» alude à manha e ao disfarce, ou deslocamos para a mãe esta fúria atribuindo-lhe um modo de vida de trabalhadora sexual. Portanto, a adjetivação elogiosa é, quase sempre redundante e bajuladora pois «cão» arrasta as suas virtudes (o cão é fiel, submisso ao dono, mas capaz de o defender e guardar a sua propriedade) e é inútil dizer «cão fiel», mas «cão algébrico» refere à aptidão para fazer contas do cão do merceeiro (mas não do cão do astrónomo que será um «cão cibernético»). É quando estamos isolados em casa como homens-rã no fundo do oceano que pensamos na utilidade e nas desvantagens da redundância.