Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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sobre os refugiados e a política

«Também eu sou um refugiado político». É preciso alargar a ideia de «política» e de «refúgio» para que caibam nela pessoas que não são refugiados políticos. «Mas eu refugio-me, logo sou um refugiado, e dos mais desgraçados pois não tenho para onde ir». Devemos usar, no interesse de todos, não apenas a ideia de benemerência, mas o modelo biológico da infeção: há bactérias e vírus que habitam harmoniosamente o hospedeiro, contribuem, por vezes de uma forma vital, para a sua sobrevivência e bem-estar, mas há outros infetantes que levam em si uma vontade de domínio que ocupa todo o hospedeiro e o mata. Para esses, antibióticos que nem sempre funcionam, com medidas de emergência, com medidas de suporte tentar prolongar a vida do hospedeiro até que as defesas reponham o domínio do seu corpo – ou não (a morte, não a derrota – o sistema finda). «Se como refugiado deambulasse, seria um refugiado não infetante, tão agradecido quanto melhor recebido e, se mal recebido, pois continuaria a deambular». Não quero relativizar o tema, modificar o sentido das palavras e inutilizar o termo, mas «político» refere a quê? Aplica-se a pessoas que não vestem pronto-a-vestir, que não comem o porco porque está sujo, que falam uma língua pulmonar e que não trabalham porque não têm aonde, ou aplica-se à tensão propriamente dita, que essas pessoas criam enquanto corpo estranho? Refere à integração ou à essencial desordem que representam pois que vem de outra ordem, de outra paisagem, de outras tradições, de outra culinária, até de outra genitalidade? Entre nós «político» refere à defesa de relações de uma virtual equidade dentro do sistema, pelo menos de uma equidade legal, refere à articulação de interesses no sentido de gerar paz social e uma distribuição harmoniosa dos recursos. Mas o que é que querem os refugiados políticos? Integrar e beneficiar ou beneficiar e desintegrar, como as bactérias que matam o hospedeiro? Provavelmente há diferentes tipos de refugiados políticos, com diferentes necessidades de refúgio e diferentes posições políticas em relação ao sistema que os recebe. Chamemos-lhe democracia. Será que nós, os hospedeiros, teremos que deixar de ser democratas para os receber, tratar as suas mulheres como semi-cidadãs, vê-las cobertas que nem o olhar se lhes vê? Poderemos tolerar ilhas de não democracia ou que os refugiados venham e se sirvam do que lhes interessa e rejeitem e desrespeitam sem fazerem qualquer esforço de compreender e de se adaptarem? Assim não se estão a refugiar, continuam a luta, agora com um inimigo que não compreendem; portanto, não há política possível. Os refugiados políticos estenderam a noção de «refugiado político» a todos os cidadãos, não só a mim que sempre o fui, mas aos aquiescentes de sempre, às maiorias preguiçosas, às vozes que despertaram agora, aos incertos da razão – todos – todos têm uma razão inegociável para os recusar.