Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o retorno à ONU dos ex-cidadãos

Não é muito difícil calcular quantos humanos existiram. Interessa-nos saber quantos já não existem. Queremos precisar o âmbito e a extensão de «humanidade» e refletir nos direitos que subsistem nos que desapareceram. Não é, portanto, um mero exercício de insensatez literária. Sabemos que introduzimos a variável tempo quando não conseguimos uma imagem nítida de uma situação ou de um problema. Então começamos a juntar dados que alinhamos de uma forma sequencial com a pretensão de atingirmos uma reconstituição segura. Para «água», por exemplo, em vez de H2O, contamos a história de um rio desde a nascente, cada molécula surgindo e escorrendo até à foz quando o vemos desaparecer no oceano, e, depois, ainda, estabelecemos ciclos que envolvem o vento e, de certa forma, o espírito. Ou a alma: calcular os humanos que viveram para muitos não é equivalente a calcular o número de almas que existem; muitos creem-nas imortais e que reencarnam em diversos seres, humanos ou outros, o que complica os juízos políticos designadamente, sobre quem deverá ter assento na ONU. Há almas humanas que provêm de cabras e lagartos, não apenas de símios e de caniches e, do mesmo modo, cabras, lagartos, símios e caniches podem estar habitados por almas humanas que, embora tendo regredido um pouco em relação a um estão último de perfeição, mereceriam ainda uma representação na ONU. Mas centremo-nos, apenas sobre a morfologia humana pois é a partir dela que contaremos o início da humanidade, a partir de que capacidade craniana se entra na ONU? Na verdade, a nobreza do cérebro é um reconhecimento recente; é um órgão difícil relacionar com um poema, com uma oração, com uma raiz quadrada ou com o e=mc2. Outros órgãos, o coração, em particular, pareceram mais susceptíveis à lealdade, ao amor, à coragem de nos empenharmos numa honorífica causa planetária. Só há cinquenta mil anos os macacos começaram a usar instrumentos que se assemelham aos atuais computadores no sentido em que eram próteses que otimizavam o corpo: uma faca em vez da dentada, a lança em vez da preensão da vítima, o computador em vez da tabuada empinada. Hoje, os computadores estão aptos a dispensarem-nos das tarefas mais sofisticadas; podemos pensar pela primeira vez nos direitos dos mortos: aperfeiçoarmos a democracia estendendo-a aos que, abstinentes como muitos vivos, jazem na terra, mas é justo supor que desaparece então a sua vontade? Trata-se de dar voto à percentagem da humanidade de todos os tempos que já não vive. «Quantos são?» implica quantos nasciam e quantos sobreviviam até à idade de votarem (excluímos da democracia a mortalidade infantil, não por ser muito elevada nos primeiros tempos, mas por «menor» significar menoridade, irresponsabilidade política), implica imaginar a rude sexualidade na penumbra da caverna, depois, a promiscuidade dos primeiros burgos, mais tarde, já perto da contemporaneidade pós-revolução francesa, a natalidade envolver-se de uma cidadania estratégica e ideológica que tem vindo a ser cada vez mais regulamentada. Foi a época dos utopistas que enforcaram os reis e primeiro pensaram a perniciosidade do estado. Ainda assim, muitas das guerras mais ferozes tiveram de acontecer antes da ONU timidamente aparecer com as bandeiras da paz logo sujas de sangue. Não compreendemos se, desde então, o aumento da natalidade se deve a uma melhor qualidade da poesia erótica, às serenatas de amor mais afinadas, à roupa íntima se diferenciar nos dois géneros pelo tipo de rendas e de folhos, até à arquitetura dos jardins privilegiando esconderijos entre os caminhos que é melhor percorrer abraçados ou se, ao contrário, é o próprio recém-nascido que aparece mais instruído e cheio de potencialidades, invocada a torto e a direito a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Mas a verdade é que, agora, 94% da humanidade está falecida, incluindo muitas pessoas que amei e outras que também estimei e cujos direitos não estão formulados nem a ONU se preocupa com eles. As disposições deixadas no testamento são claramente apenas respeitadas pelos respetivos beneficiários, logo a vontade falecida esvanece. O terrível da morte é o silenciamento.