Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

de como o pensamento escolhe bem o que quer pensar

Só se pode ser hinduísta vivendo no hinduísmo há mais de seis ou sete milénios. É preciso ter passado por ciclos de formas que acompanham o tempo desde que as ideias sobre as coisas começaram a engrenar-se e a serem precisas palavras mais facetadas. Ciclos em que se entrou e esqueceu – e o que se sabe é soprado por um deus irónico. Um deus supremo que não aguentou a solidão e criou deuses menores à medida das doenças humanas. Milhares de deuses preparados para a regulação da maldade a quem se pede um quinhão de sorte dentro de um universo pouco preparado para a mobilidade. Quem já viu um diamante em bruto percebe esta necessidade de organizar o universo em ciclos e em castas tolerando uma ampla gama de crenças incoerentes. Tudo decorre de uma realidade que é evidente no pensamento (desde que não consigamos viver sem ela), um ânimo opaco que está nas pedras dos rios tal como nas pedras das montanhas e no rio que vem da montanha; que está em nós que irrigamos a terra com as águas do rio e nele nos banhamos para nos libertarmos de uma ordem maligna que também existe em nós. Ignoramos até onde vai a nossa responsabilidade pelo que nos acontece, pelo que herdámos desses obscuros milénios que recuam até ao rio que desceu dos céus e fez o mundo e uma ideia do mundo submersa que anima as coisas como se cada uma procurasse a sua perfeição e todas as criaturas estivessem em competição – porque a perfeição é um atributo roubado a uma imensa ideia de esvaziamento. Apenas o eu se envenena. Apenas os indícios da própria maldade revelam a origem. Entretanto, o caminho faz-se lentamente. Há uma certeza longínqua simbolizada em múltiplas existências, difusamente, atrás e adiante. Para cada uma o seu rito. O seu respeito e o seu desrespeito, pois a mulher é essencialmente o mau objeto do respeito – um ancestral meio de passagem, de conspurcação, de bloqueio: o gesto da limpeza suspenso por um vento que agarra o que deve e o que não deve – e suspende. Suspende a carne ancestral, o que faz do mundo contemplação e medo. Poderemos restituir-nos à simplicidade original quando resumimos o que sabemos num som grave como de um trombone que emite a mesma nota todo o tempo de uma lenta expiração? Dizemos «Isto é tudo» e consagramos a palavra ao som, ao máximo que conseguirmos significar. O pensamento detém-se. Os ritos pegaram em todos os momentos cruciais e resemantizaram-nos. Em cada nova repetição resemantizam-se e, incólumes, esvaziam-nos – de um lixo que vem da origem e se acumulou porque as virtudes se requerem reciprocamente. E porque o tempo é lixo. Em particular, a paciência requer uma potente sabedoria armada de uma disciplina moral resistente às subversões correntes, uma generosidade perseverante e uma estabilidade meditativa que não perde o rumo quando o quadro que o corpo traça do real nos alarma ou nos encanta. Não tem fim, se não o quisermos concluir, um texto sobre o hinduísmo. É uma dialética parcial, isto é, uma vontade que construímos, mas que, numa certa medida, nos passa ao largo, por isso, finalizamos assim.