Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o setor primário

As pessoas esquecem-se. Sofrem quando se separam, mas esquecem. E não demora muito, em geral, mas pode-se sofrer muito antes de esquecer. A partida de alguém pode levar-nos uma forma de fazer as coisas, ou de trabalhar, ou de discutir o trabalho com quem nos habituámos a contar. Lealdade, confiança, segurança são sentimentos no interior da relação, como no interior da terra há um tráfico pelos canais das formigas, das minhocas, das toupeiras em interação com seres cada vez mais pequenos e esta redução na escala da dor conduz ao esquecimento. Um dia conheceremos melhor as coisas inexplícitas, as coisas escondidas, as invisíveis, as obscenas, até, talvez, as que pressupomos e que consideramos indecidíveis os graus de probabilidade que lhes atribuímos. É isso o desejo, essa transformação estatística da ausência numa escassa probabilidade de reaparecimento. No meio da terra todos os seres tomam atitudes práticas, deterministas até o agricultor que, a partir de fora, lida com o interior da terra e bebe o próprio vinho para esquecer. Já tudo perdeu o sentido. Só a mulher ficou por uma lealdade que também já não tem sentido, mas foi ficando para o proteger. Agora, dificilmente arranjaria para onde ir. Foi ficando, esqueceu porquê. Reza por ele como pelos filhos, emigrados, que raramente a visitam. Esqueceram ou têm mais em que pensar. O interior da terra não a assusta. Viver da agricultura é viver de apertados ciclos que começam com o lavrar que é remexer o interior da terra. Depois, semear, cuidar, colher – e esquecer os anos maus que obrigaram a hipotecar a terra. Todos os dias reza pelos filhos e pelos netos. Não os esquece, por isso fica. O agricultor também não esquece, por isso bebe.