Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a propósito do silêncio: a sua significação

A humanidade precisa de se excitar. Seja como for. Os homens excitam-se com o rabo das senhoras, mesmo com os que não se bamboleiam; com os que simplesmente caminham, como numa lenta marcha funerária, ou, até, com um rabo estático, em decúbito ventral. A imobilidade parece muralhar o corpo e envolvê-lo numa máscara antiga como se o rabo se preparasse para o pior. Ignoramos o que nos espera de pior nem o que é «pior» do ponto de vista do rabo em decúbito, mas, provavelmente, haverá uma influência do género se, por acaso, «pior» significar uma guerra atómica ou outra situação em que não só o rabo é posto em causa. As mulheres também se excitam com o rabo tal como os homossexuais, os transsexuais e outros. Depois, por extensão de sentido, a necessidade de excitação desloca-se para outros objetos (as mamas, os bólides, as motas, o tamanho do pénis, um simples toque ou uma troca de olhares cúmplices). Ignoramos o que um grande ser sobrenatural pensará deste assunto; ignoramos se os seres extraterrestres sentirão a mesma necessidade de fazer o funcionamento inteligente transbordar em formatos lúdicos tresloucados: os amorosos, os apaixonados, os fanáticos desportivos. Esta possibilidade deveria alarmar-nos pois os dos humanos tornam-nos imprevisíveis, dispostos a tudo, a transgredir tudo; dispostos à guerra ou a envolverem-se em poderosos movimentos de massas focados em objetivos marginais ou irrelevantes, como os desportivos. Muitas das mais cruéis torturas na história da humanidade passaram pelo eixo boca-rabo. Isto significa que os homens usam os mecanismos do prazer, bombardeando-os com uma estimulação supra-máxima, para provocar uma dor que faz colapsar a personalidade. Obtêm-se, assim, todas as confissões, todas as redenções, todas as expiações pois sobrevém uma súplica tão miserável que só consegue acirrar o espezinhamento. Muitos sistemas de governação mais civilizados dizem prescindir destes sistemas de controlo dos comportamentos desviados, o que é um ganho meritório, mas tendem, também, a regulamentar exageradamente o acesso ao prazer, seja diretamente estabelecendo os carnavais e proporcionando estímulos alternativos comprovadamente inofensivos, seja indiretamente, pela pressão que exercem sobre as pessoas, retiram-lhes a energia e a disposição para a irracionalidade do jogo. A humanidade lida mal com a razão – por isso a empola e por isso a transgride, como se a razão não pudesse servir a excitação e o gozo, como se ela, excitada por um rabo, não se conseguisse manter discretamente no plano da imaginação, com pleno respeito pela segurança e pela ordem pública. Por último, e para finalizar, é justo citar alguns rabos célebres que já foram vistos e usados por muitas pessoas – fotografados, esculpidos, pintados, mas, sobretudo, filmados, vistos e revistos animadamente, estabelecendo uma relação criativa com milhões de cidadãos proprietários do seu próprio rabo que passa desapercebido caminhando lentamente numa marcha funerária, por exemplo. Tudo isto que é épico e casual, eleva a humanidade acima do eixo boca-rabo sem privilegiar a boca que fala, antes lembrando que a maior parte da humanidade passou a vida em silêncio, com a viva consciência que é pela palavra que se desencadeiam guerras, se planeiam assassinatos, se combinam traições, enquanto, pelo contrário, há um consenso sobre a conveniência do silêncio do rabo.