Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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domingo de manhã

A nossa humanidade vibra no espetáculo de golfinhos do zoo. Podemos definir idiotia a partir do que falha numa sub-reptícia ideia platónica de felicidade, mercê da qual humanos e golfinhos cooperam em habilidades circenses. Há nisto uma ideia de natureza no seu melhor, isto é, de felicidade como harmonia planetária e, também, uma ideia de «humano» como ser bondoso, capaz de se sacrificar pela natureza, amestrá-la, beijar na boca uma foca ou um golfinho. As figuras acrobáticas que as duas espécies exibem são os saltos fora de água dos golfinhos (nos Açores diz-se «pinchos»), a sua natação jovial, a convivialidade colaborativa a que os humanos se associam, demonstrando a sua notável capacidade adaptativa, nesta caso, para longas apneias em mergulhos com complexas evoluções conjuntas que terminam num pincho de vários metros. Do outro lado, os espetadores domingueiros aplaudem ao ritmo de uma musiqueta vulgar. Admito ser pretensioso definir idiotia neste contexto de despropósitos; algumas minúcias da inteligência surgem inverosímeis: capturam-se imagens vídeo do espetáculo; outras pessoas ostentam a matinal alegria dançante dos domingos em família, enquanto outros riem, néscios. Percebe-se o esforço ideológico do público na sua essencial pureza e afã altruísta de planetária harmonia que contrasta com os golfinhos que recebem peixe fresco logo após cada acrobacia (enquanto os seus treinadores, supomo-los remunerados ao mês). Portanto, o espetáculo idiota dos golfinhos não é idiota porque cumpre o propósito de se financiar junto de um público consumidor e, assim, garantir o sustento dos seres vivos participantes. Sobra a idiotia admirante dos espetadores, feéricos do seu poder de aquiescer ou de vaiar as evoluções do mundo expressamente preparadas para serem admiradas ou vaiadas. A correção política estabilizou desde os tempos heroicos de César quando a reação dos cidadãos determinava a vida ou a morte dos gladiadores. O espetáculo suavizou-se, mas a coesão do império continua a depender da idiotia dos espetadores.